As Necromantes

Aideen nascera sob a lua da profecia.

Ao tatear a última porção de sangue da taça, proferindo as palavras contidas no antigo livro de rituais e encantamentos, o calor percorreu os dedos e lhe tomou o braço. O corpo ardeu de maneira lenta até ficar em febre. Ela sentiu a serpente, da tatuagem, mover-se e expandir as escamas, misturando os tons de verdes e vermelhos. A imagem da outra, a qual buscava sem cessar, brotou da escuridão.

A filha de Brynvald acordou do transe ainda com a sensação da invasão. Os músculos doíam e a pele se mostrava sensível em áreas específicas. A hora chegara.

Afastou o pano pesado da entrada da tenda. A terra, daquela altura da montanha, parecia mesmo solitária. Um amontoado de pó e pedra e areia cobriam uma extensão que escapava à visão. O verde dali se dissipara em um período imemorial, quando a tribo dos homens azuis lutara contra os donos das regiões de além das colinas vermelhas.

Os cabelos de fogo, longos e ondulados, e a pele translúcida deixavam-se perceber na luminosidade que fugia.

Apenas três luas separavam-na de sua sina.

— A herdeira de Unathi está próxima? — Deaglán, ao lado da tenda, parecia misturar-se assimilando os tons sombrios que se aproximavam com o entardecer.

— Nkechinyere é a senhora que espero.

— Ela também nasceu na mesma lua?

Compreensiva, apenas assentiu. Não exigia muito daquele homem. Apesar de forte e vigoroso, e capaz de executar o necessário, Deaglán, chefe da guarda e braço direito de Brynvald, era humano. Fiel, mas humano.

— Ela vem com Abu Bakr, o melhor homem. Se o derrotar, certifique-se de deixá-lo com vida. Cumpriremos as profecias escritas nas areias do tempo.

O guerreiro agarrou-se à lança e puxou o punhal da bainha.

— Como sabe?

— Eu sei.

— Ele é filho das sombras?

— Não. Assim como você não é um filho da luz — ela se pôs a caminho e ele a seguiu submisso. — Deitarei com você. Essa será a recompensa, se o subjugar.

Deaglán desceu o pequeno declive empunhando as armas com a mesma coragem de todas as batalhas já vividas. Controlando o fôlego, experimentava o impacto de cada passada naquela desolação de forma única.

A lâmina da espada refletiu o brilho da espada de Abu. Os dois seguravam dentro de si a força de cem homens e a vontade de duas mulheres.

As senhoras da magia mantiveram-se imóveis sobre as pedras.

Um dos ciclos do destino haveria de ser cumprido.

* * *

As mãos enormes seguravam-na pela cintura. Aideen posicionou-se em cima de Abu. Esfregava-se, excitando-se e deixando-o também com vontade.

Abu não entendia uma só palavra. A mulher de cabelos de fogo falava em uma língua estranha, de um sibilar agudo. No entanto, a filha de Unathi lhe ordenara obediência. E, assim, seria. Faria acontecer do jeito que ela ordenava. Fazia parte daquilo e nada deixaria de realizar.

O calor emanado da feiticeira percorria a pele de Abu penetrando pelos poros e eletrizando os pelos. O arrepio de prazer o fez segurá-la mais firme entre as mãos. Os olhos embaçaram. A noite preencheu o olhar e a luz das estrelas bordadas no céu do deserto cabia com perfeição nas retinas. Aideen parou olhando para a sombra. Nkechinyere já se preparava para seguir com o ritual.

O contraste das peles de Aideen e Abu prendia a atenção de Deaglán. A visão deficiente, rasgada pela arma do oponente, percebia vultos, entretanto o olho esquerdo tinha plena noção das cenas que ele desejava estar vivendo. Ela jamais pertenceria a ele porque perdera um combate justo.

O medo da morte nada significava diante da vergonha da derrota. Lutara com todas as forças e perdera para o guerreiro de cabelos encarapinhados. Naquele momento, jazia despido das vestes. Cordas prendiam os pulsos e tornozelos. A dor e o sangue dos ferimentos cobriam-no em parte junto com a areia, em uma mistura de cores tristes.

— O que vai fazer comigo?

Deaglán pressentia o próprio fim. Depois de esmagar as folhas verde-escuras, aproximou-se dele, deixando a pequena tigela de barro bem próxima de um dos braços. Cortou-o usando a unha afiada fazendo-o sangrar. O fio espesso juntou-se às ervas amassadas e o cântico iniciou-se em um tom sombrio, baixo e demorado. A voz de Nkechinyere fez Aideen posicionar-se melhor sobre Abu e mover-se com mais rapidez.

Um cheiro intenso espalhou-se pelo lugar.

Quando o primeiro verso foi pronunciado, Deaglán sentiu o corpo arder. As cordas apertaram-no e a respiração arranhou os pulmões. A visão rasgada sangrou e um urro de dor escapou. Todos os músculos esticavam-se e contraíam-se.

Ao gozo de Abu dentro da feiticeira, uma camada de um brilho azulado surgiu da pele da necromante. Deaglán queimou por dentro. Gritou muito mais alto. Nkechinyere, ainda entoando a magia, rasgou o peito do perdedor arrancando o coração vivamente pulsante. Carregou-o para perto da outra. Juntas, seguraram-no, juntando as vozes e provando-o.

Das bocas cheias de carne escorreu o sangue e os versos finais, em um sibilo agudo. Envoltas em um misto de claridade e sombra, as serpentes desenhadas se configuraram e entrelaçaram-se. As duas princesas fundiram-se sob o olhar de Abu, que permanecera sobre a pedra, imóvel e estarrecido com a visão que tivera. O ar tornou-se pesado, e quente e frio em sequência até o fim, intercalado pelo movimento do vento rodopiando para dentro da tenda sobre as pedras e cobriu as duas em uma cortina transparente de finas mesclas brilhantes negras e vermelhas.

O tempo, naquele espaço, se desfez, e outro se formou. O destino das duas cruzara-se e cumprira-se de modo impecável. Tudo estava, então, em equilíbrio. Elas seriam mães; dariam origem a quem reinaria sobre toda a terra.  Nem Brynvald tampouco Unathi venceria o ser gerado por ambas.

Absolutas, herdeiras de Angra Mainyu e Ahura Mazda, dois opostos de igual energia e grandeza, elas construiriam um futuro muito maior e poderoso.

A história mudaria.

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