Clic

O cheiro é insuportável e a delegada Martins ainda insiste em ficar rodeando o pedaço de carne. De um lado para outro. É só um braço, certo? Você não se espanta com um braço. Não fica tendo surtos por causa de um braço. Não se estiver nesse trabalho a tanto tempo. Claro. Ele está separado do corpo. Isso poderia causar algum desconforto. Mas, ainda assim, é só mais um braço de um defunto qualquer.

Não fosse pelo cheiro, estaria tudo bem. Meu estômago, porém, revira quando o vento sopra ao meu encontro. A água salgada sobe até a goela e eu empurro para baixo. O esforço é sempre acompanhado de um breve alívio. Eu fotografo. Compulsivamente. Talvez a náusea se dissipe. Porque, se você estivesse aqui, provavelmente enfiaria gola à dentro metade do rosto tentando cheirar o próprio corpo para esquecer a podridão, assim como está fazendo o Dorval.

O zoom me dá plenos poderes. Posso identificar o tecido barato da camisa. O anel de pedra vermelha aperta o dedo da mão esquerda. Os detalhes são importante, Laerte. Cada mancha de sangue, cada ponto de poeira pode ser determinante na solução de um caso. Meu professor de criminalística se ocupava dos detalhes. Tudo para ele fazia sentido. Já percebeu como a pele vai ganhando linhas ao longo dos anos? Quando eu fotografo um cadáver fico pensando no inevitável.

— Laerte! — Ela me chama e aponta para a moita. O resto está lá.

Eu sigo resignado, me inclino; agacho. Posições diferentes, ângulos inéditos são importantes para manter a cena viva. Ainda consigo leveza e segurança depois de mais de vinte anos de profissão, mas o peso da câmera parece mudar com o tempo.

Eu clico. Pelo afastamento das partes do corpo, dessa vez, serão umas centenas de imagens para selecionar e deixar os peritos em análise fazer o trabalho.

Como alguém consegue ter estômago para fazer isso?

Como alguém consegue enxergar o outro com tanto ódio?

Muitas vezes me pego pensando sobre a evolução da sociedade e não encontro um único motivo para dizer que somos evoluídos.

Vejo apenas a podridão do ser humano em cada caso que fotografo.

Um dia pior que o outro.

Caindo o tempo todo.

Já estamos no fundo do poço.

A humanidade está perdida.

CLICL.jpg

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