Ausência

angel-1375589

Adelina acordou com o grito da filha. Respirou fundo. Sentou-se na cama puxou a caixa de lenços que estava depositada no criado mudo. Olhou para si mesmo e olhou para o que tinha ao redor. Seu marido estava dormindo.

— Arnaldo…

Cutucou o marido que roncava.

— Pelo amor dos céus, homem, acorda…

Ele resmungou e puxou o ar.

— Arnaldo! Acorda!

Depois, ele remexeu-se debaixo dos lençóis e virou-se. Depois de mais uma chacoalhada, abriu parcialmente o olho esquerdo.

— Vai dormir, Lina.

Voltou-se para o mesmo lado.

— Débora gritou. Está tendo um pesadelo.

— Tá sonhando de novo?

— Arnaldo…

— Já disse que é para dormir, pombas! Não fica me cutucando que amanhã eu levanto cedo.

Puxou as cobertas fazendo sua cabeça desaparecer debaixo delas

— Eu não estou sonhando, Arnaldo. Ela gritou. Eu ouvi.

— Por que não prepara um chá?

Arrancou-se dos cobertores e sentou-se na borda da cama. Calçou o chinelo de pano. Ligou a luz do criado mudo e olhou para o pequeno relógio. Três e meia. Vestiu o roupão de algodão, apoiando-se com os dois braços no colchão, e ergueu-se. Rumou para fora arrastando os pés. Equilibrou seu corpo encostando-se ao marco da porta.

Virou-se, olhando o monte embaixo dos cobertores. Do marido, só via a parte calva da cabeça.

— Por que não prepara um chá?

Arremedou seu companheiro torcendo a boca e meneando a cabeça.

O corredor estava escuro. Caminhou até a porta do segundo quarto da casa.

Abriu a porta. Ligou o interruptor.

Tudo estava no lugar.

O tapete de formato oval. A pequena poltrona forrada de tecido. As bonecas sentadas uma do lado da outra na segunda prateleira.

Ajeitou os cabelos ruivos da boneca de porcelana. Depois, alinhou os livros que continuavam empilhados na escrivaninha. Sentou-se e brincou com o palhacinho que ocupava um dos espaços da primeira prateleira. Retirou a caneta enfeitada de glitter multicor, abriu o diário de capa cor-de-rosa e escreveu mais uma linha em letra cursiva.

Eu te amo.

Olhou para a cama e para o anjo de gesso pendurado na cabeceira. Fixou seu olhar na pequena asa esquerda quebrada.

A lágrima que caiu, borrou as palavras que escrevera por último.

Olhou para o retrato de Débora. Ela sorria.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s