Promessa de Liberdade ~ Primeira Parte

promessa

Capítulo 2

As paredes de vidro detinham o calor de fora. A cidade mais populosa do Brasil parecia um inferno de concreto. Fascinante, São Paulo se mostrava rica, intelectual, esportiva, romântica, séria, e ao mesmo tempo opressora. Superlativa em tudo, inclusive na diversidade escondida, camuflada em um caldeirão em ebulição.

José Elias observava a verticalidade da metrópole quando a porta abriu-se após um bater discreto.

— Leonardo de Almeida Paes Leme na linha dois, senhor. — A secretária retirou-se sob o olhar severo do patrão.

A poltrona de couro escuro rangeu. Apertou o botão do viva voz e a pergunta saltou à boca:

— Como está o seu pai?

— Bom dia, senhor. — A voz afirmou-se com clareza. — Meu pai está bem. Está preocupado com as manifestações. Pediu-me para ligar e saber das determinações do Governo paulista — Leonardo prosseguiu. — As manifestações começaram cedo por aqui, mas tudo está controlado.

— Diga a seu pai que não houve qualquer protesto em frente às filiais da periferia. Eu o manterei informado — respondeu um tanto friamente. — Como está sua mãe e seus irmãos?

— Estão bem, tio. — Não pretendia entrar em detalhes. O tio, apesar de distante, mantinha informantes.

O homem recostou-se na cadeira e cruzou os braços.

— Seu irmão ainda é um problema para seu pai? — De uma forma direta, a questão veio à tona mais uma vez. — Seu pai estava nervoso na última vez que conversamos. Como filho mais velho, você deveria aconselhá-lo a manter-se na linha. Não é bom para a imagem de seu pai, nem para a imagem das empresas dirigidas por nós. É uma questão de ordem e de passar uma imagem confiável da empresa.

— Ele tem se comportado.

— Certo, certo… — Aceitou a resposta e completou: — Os protestos começaram cedo por aqui, também. Meus funcionários estão atentos a todos os focos de manifestações. — Pigarreou. — Nos arredores das filiais, nada se mostra perigoso. Falei com Villares, de Belo Horizonte, hoje pela manhã. — Fez uma pausa. — Reforçaram a segurança e o mesmo fizeram os diretores das empresas de Porto Alegre e Natal.

— Meu pai pediu para reforçar a segurança dos pontos de venda. Os escritórios também podem ser alvo de ataques do MLBE[1] — completou.

— Já foi feito, Leonardo — afirmou. — Diga para seu pai não se preocupar.

— Eu direi. Até mais.

José Elias desligou o telefone sem sequer se despedir. Solicitou à secretária a presença do chefe da segurança pessoal e aguardou-o de frente para a grande parede de vidro do escritório, voltando a fixar o olhar no horizonte paulistano outra vez.

[1] MLBE – Movimento para Libertação do Brasil Escravo.

 

Leia o PRÓLOGO no blog da história.
Leia o CAP1.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s