Corpo-seco

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Margarete parou em frente ao braço decepado. Que merda! Estragar meu final de semana com um cadáver exposto em uma estrada. O segundo em menos de uma semana. Arrodeou o pedaço de carne. Analisou a posição. Olhou para o entorno. O barranco de terra vermelha, as macegas, as árvores secas, a trilha para o velho cemitério.

A peça humana estava sem sangue. Visivelmente recente. A cor não negava a situação. Agachou-se e averiguou mais de perto. A camisa esgarçada no punho. Algodão barato.

— Arrancado na junta. Como quando se quebra o osso para separar a coxa da sobrecoxa do frango. Entende? — Olhou para o assistente, Dorval.

O homem assentiu, ainda com o rosto coberto com a gola do blusão.

Voltou a encarar o objeto da primeira investigação de morte do ano. Tronco Seco era uma cidadezinha qualquer, cheia de ruas descalças e cães desocupados. Quem mataria alguém no fim do mundo?

— E o resto do corpo?

— Atrás da moita — ele respondeu prontamente.

Ela levantou-se e avaliou a moita.

— Tem mais um pedaço de corpo descendo a estrada. — Falou e voltou a mergulhar o nariz para dentro do moletom. Apontou para o lugar. Voltou a descobrir o rosto. — Um pé direito.

— Mas que merda!

— A delegada vai querer as fotografias? — O homem empunhava uma Canon; uma daquelas que conferia respeito pelos apetrechos.

— Claro que vou, Laerte! — A resposta foi um misto de indignação e resignação. Como fazer todos aqueles inúteis entender os procedimentos de uma investigação se nunca fizeram nada dentro da área até aquele mês? — Chamou os legistas da capital? — Esperou por um sinal positivo. — Disse que é urgente?

— Vão demorar um pouco.

— Ele tem um anel — Dorval apontou para o anelar. — Não pode ter sido para assaltar, não é? Até poderia. Mas o anel está aí. Se fosse para assaltar, teriam tirado o anel.

— Vingança é uma razão plausível. — A conclusão do fotógrafo fazia sentido também.

Margarete agachou-se novamente. Concordava com Dorval e com Laerte. Os cabras tinham tutano, afinal. Aquilo não poderia ser um assalto, mas poderia ser vingança.

— É o segundo morto em menos de um mês. Acha que foi o mesmo cara?

Margarete não respondeu. Olhou em direção da viatura da BM. As crianças encontraram o braço e chamaram por Ernesto, o policial militar que estava de plantão.

— Já posso liberar as crianças? — Dorval demonstrava preocupação com os dois meninos. — As mães estão chegando. Vão querer levá-los.

— Quero conversar com elas. Segure-as mais um pouco.

Seguiu em direção da moita.

— Sabe quem é esse cara, Laerte?

— Não faço ideia. Podemos perguntar se alguém sumiu nas últimas vinte e quatro horas nas redondezas. Pode ser qualquer um. O outro ainda continua sem identificação. A única coisa que sabemos é que é um pai de santo.

— Emita uma nota para as delegacias dos municípios vizinhos. — O fotógrafo também era o escrivão. — Homem branco, de uns quarenta anos, vestindo calças cinza, sapato marrom, camisa branca. Anel de pedra vermelha na mão direita.

— Delegada!

Um grito para além de onde Dorval dissera que havia um pé, o outro policial da BM chamava, interrompendo a descrição.

— Tem uma pasta aqui — completou. — E uma carteira de couro.

— Menos mal — ela resmungou. — Vamos poder identificar o sujeito. — Enfiou as luvas enquanto se aproximava. Desceu o declive. Juntou a carteira. — Mas que merda! João Ubaldo Mattos de Alencar. — Arrancou os outros cartões e documentos. — Aqui diz que é evangélico. Pastor no município vizinho. — Cédulas ainda lisinhas na parte interna. — Já viu esse homem por aqui, Zelenor?

— Não. Nunca vi. O que fazia por essas bandas?

— Boa pergunta.

Margarete olhou dentro da pasta. Tudo parecia intocado.

— O jeito é esperar. — Retirou as luvas depois de colocar a carteira dentro de uma caixa de plástico junto com a pasta. — Laerte! — gritou, chamando o fotógrafo. — Emita a nota — recomeçou. — Homem branco, quarenta e dois anos, João Ubaldo Mattos de Alencar, pastor evangélico. Procuramos por parentes que possam identificar o corpo.

Voltou para perto da rodovia. As mães das duas crianças já estavam junto de Ernesto, agarradas aos filhos e nervosas. Explicou que a conversa seria rápida.

— São só algumas perguntas — afirmou. — Podem seguir na viatura até a Delegacia. Depois, ele leva cada um para sua casa.

Ernesto foi pronto. Abriu as portas do carro. Não teve como dizer não.

Na delegacia, sentada à mesa, escutava o tlec-tlec da máquina de escrever. Dorval datilografava rápido. Escrevia o que as crianças respondiam depois das perguntas de Margarete.

“A gente tava brincando no mato do lado de cima.” Dorval não erguia os olhos. “A gente desceu para o cemitério pra confirmar a história do defunto desenterrado.” A delegada apenas escutava. “Depois, a gente ia pegar a estrada, dona.” Laerte coçou a cabeça. “O Pedro encontrou o pé.” Uma das mães agarrou mais forte a mão do filho. “Eu encontrei o braço.” A delegada respirou fundo. Aquilo não a levaria para lugar algum. As crianças não tinham visto nada de estranho; nada de diferente chamara à atenção dos dois meninos.

Quando as crianças se foram junto das mães, ela girou a cadeira de um lado para outro.

— Encontrar um homem em pedaços não faz vocês se lembrarem de nada?

A pergunta feita ficou um bom tempo sem resposta. Laerte olhou para Dorval. A papelada foi posta de lado para dar atenção ao raciocínio da chefe.

— Então…?

Ela esperava um deles responder.

Dorval baixou os olhos. Laerte sentou-se muito tímido em uma das cadeiras esperando pelo desenvolvimento da hipótese.

— O assassino desse sujeito pode ser o mesmo assassino do moço da outra trilha. — Ela cruzou os braços e eles entreolharam-se. — O que foi? Não concordam?

Hesitantes, um fez sinal para o outro.

— Fala logo, homem! — Ela ergueu a voz em direção de Dorval.

— O outro homem era um Pai de Santo — o auxiliar respondeu emperrando as palavras.

— Sabe o que dizem… — Laerte interpôs-se.

— Não. Não sei. O que dizem? — A rispidez da voz era uma característica de Margarete. — O que o pessoal fala?

— Hoje, sabendo que era um pastor, as mulheres falaram no corpo-seco — respondeu Laerte, misturando tensão com insegurança.

— Que corpo-seco, homem. O corpo ainda tinha algum sangue! — Margarete endireitou-se.

— Não estavam falando do corpo do pastor.

— Não entendi.

— Corpo-seco, delegada. O cara que a terra devolveu no mês passado — Dorval resolveu dizer de uma vez.

— Quem?

— A senhora se lembra daquele caso no Cemitério Público Municipal? — O fotógrafo esfregou as mãos na calça.

— Sei. Ubirajara não-sei-das-quantas. Ainda não encontramos os responsáveis pelo vandalismo. O que tem aquilo a ver com isso? — Ela se pôs a encará-lo com mais severidade. — E aquilo foi vingança. A retirada do corpo do homem da terra foi revide. Ele era ruim, segundo várias testemunhas.

— Pois é.

— Pois é, o quê? Fala homem!

Laerte respirou fundo e Dorval quase parou suas funções vitais. A mulher era descrente do sobrenatural. Não engolia aquelas histórias. Para ela eram crendices, um disque-disque que os ignorantes começavam para amedrontar os viventes menos inteligentes.

— Ele foi enterrado de novo, o tal de Ubirajara — respondeu amedrontado. — No cemitério velho.

— Larga de ser besta, Laerte. O que tem a ver o enterro do tal comerciante sovina com as mortes das trilhas ao redor?

— Dizem que foi ele. O comerciante. Agora, depois que a terra o rejeitou, ele está condenado a perambular e atacar os vivos.

Margarete Martins saiu de trás da mesa empurrando a cadeira.

— Estão de brincadeira comigo, certo? O Pai de Santo teve a garganta decepada. E esse pastor foi esquartejado. Não estamos falando aqui de The Walking Dead, gente. Isso é vida real, não televisão. Tem um assassino a solta nas redondezas de Tronco Seco e eu vou descobrir quem é.

Dorval e Laerte mal respiraram enquanto a delegada pegou o casaco do cabide e saiu porta a fora resmungando um palavrão daqueles que os dois só ouviam da boca dos homens do lugar.

Ainda nervosa, deu a partida no carro e seguiu para o interior. Parou em frente ao cemitério velho, longe da cidade e nem tão perto assim da rodovia que ligava Tronco Seco à capital do estado. A teoria tinha fundamento: o assassino passava perto dali. A distância entre uma vítima e outra não era grande.

A tarde estava perdida e já no final. A última luz já batia apenas nas pontas do arvoredo dos morros do entorno.

Contornou o cemitério em ziguezague para cobrir uma área maior. Venceu os aclives e declives com parcimônia, averiguando com extremo cuidado e buscando qualquer indício que a pudesse levar para o culpado.

Entrou no campo santo sem muita cerimônia. As velhas cruzes de ferro desequilibradas por sobre a terra só mostravam que ali, nem as almas – se é que existiam – ainda se importavam com a preservação do lugar. As macegas cresciam sobre algumas lajes e os poucos nomes visíveis falavam de um tempo que acontecera um século antes dela.

Averiguou cada palmo do terreno até chegar à lápide mais recente e a surpresa a fez entreabrir a boca incrédula do que via: o buraco no meio da cova e porções de terra ao redor.

— Malditos vândalos! — ruminou as palavras.

Aquilo estava fora de controle. Colocaria vigilantes escondidos para encontrar o culpado daqueles sacrilégios.

— Os mortos devem descansar — continuou a resmungar, enquanto se agachava para averiguar a cova violada.

Uma rajada de vento cortou o estreito corredor, fazendo bailar algumas poucas folhas por entre as cruzes decadentes. O calor do vento fez Margarete erguer-se. O mato assoviou e ela pode ver a lua enorme se assanhando entre as nuvens.

Ergueu-se ao pressentir a presença de alguém. Ela, sempre alerta pelo próprio ofício, desconfiava de qualquer som ou arrepio da pele. Virou-se de forma tosca, desequilibrada e, diante da imagem de um ser grotesco, em estado de putrefação, deformado pelos vermes da terra, cambaleou para trás, caindo ao lado do que deveria ser a sepultura de Ubirajara Cardoso de Matosinho, o infame que diziam ser tão ruim a ponto de a terra o devolver.

Arrastou-se por alguns metros. Levantou-se outra vez sem qualquer norte. Sacou da arma instintivamente.

A criatura estava em cima em um instante impreciso. Margarete não teve tempo de coisa alguma. Disparou várias vezes a esmo, enquanto sentiu o pulso já preso pela mão do morto-vivo.

“Corpo-seco, delegada.”

Escutou as palavras vivas de Dorval enquanto o olhar arregalou pela proximidade do zumbi.

Ao ouvir o clic-clic seco do gatilho, ela deu-se por conta do pior: o tambor estava vazio.

Era tarde demais.

Sentiu a garganta apertada. A água salgada subiu com o cheiro podre. As pernas não sentiram mais o chão. O claro da lua sumiu com uma nuvem. A última coisa que viu foi o céu e os pontos luminosos na parte mais escura e aberta do céu.

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