Vampiro de Auras

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Khala digitou no teclado holográfico do pulso esquerdo:

Relatório 12-10: Alvo descoberto. Reportando encontro. Terceira vítima. Assumpção, Pedro. 53 anos. Aura exaurida. SK3476 está próximo.

O visor ocular direito continuava ligado. As informações piscando.

Rastreamento atualizado.
10:08:34. Dados completos.
Vibração de aura carregada.
Onda detectada.
Criatura próxima.
Posição: horizontal.
Distância: 55 metros.
Afastando-se.

Desligou o teclado ao ouvir os policiais paulistanos aproximaram-se. Aquela tecnologia avançada não devia ser descoberta.

Kaio de Andrade chegou junto de outros dois investigadores de polícia. Agachou-se próximo da vítima, ainda ofegando pela corrida. Verificou a pulsação no pescoço do homem.

— Droga! — voltou-se para os colegas. — Esse aqui já era. — dirigiu-se para ela. — Viu para onde ele foi?

— Para dentro — respondeu de forma rápida. — Ele pode estar armado.

— Você fica aqui, José. E você, Vargas, dá a volta. Fica nos fundos.

Andrade, conferiu a pistola, uma Taurus .45. Ajustou o colete.

— E chama reforço, Vargas — completou. — Explica a situação.

A arma de Andrade não faria cócegas no assassino. No futuro, de onde ela viera, 2016 era um passado de pouca evolução tecnológica para a humanidade. Infiltrar-se na polícia paulistana fora tarefa fácil. Não precisou de muito para invadir o sistema. Ela tornara-se Margot Souza, policial civil da 1ªDPPH. Fingir-se de policial naquele tempo, contudo, mostrava-se mais fácil do que explicar sobre viagens temporais e armas cuja tecnologia só seria desenvolvida séculos depois.

— Vamos por aqui — ele apontou o corredor. — Tenha cuidado, ok?

Os sons da cidade foram se perdendo dentro do prédio abandonado, abafados pelas paredes, engolidos pela penumbra.

Os dados continuavam a recarregar no visor ocular.

Rastreamento atualizado.
10:20:15. Dados completos.
Vibração de aura carregada.
Onda detectada.
Criatura próxima.
Posição: vertical.
Distância: 3.4m.
Afastando-se.

— Ele está na parte de cima — ela avisou, aproximando-se.

— Tem bola de cristal, agora? — sussurrou a pergunta com um sorriso.

Ela não retrucou. Desde a chegada evitava as investidas de aproximação do policial. Seguiu corredor à dentro ainda mais calada, recebendo os dados enviados pelo pequeno rastreador implantado próximo da orelha, escondido pelo cabelo.

Andrade alcançou as escadas à frente dela. Dois passos no corredor, o ataque surpreendeu a ambos. O investigador caiu. A arma saltou para longe. A figura em cima dele, apesar do aspecto, nada tinha de humano. Tentou desvencilhar-se do agressor.

Ela disparou a arma escondida debaixo da jaqueta de couro – armamento muito diferente da pistola usada pelo contingente policial de São Paulo. O projétil luminoso acertou a criatura no ombro. Mais um disparo. Parte de uma das paredes explodiu. O ser correu em direção da janela, rompendo a estrutura, estilhaçando o resto de vidro.

Andrade a olhava surpreso, ainda no chão. Mal respirava, atordoado.

— Quem é você?

Ela caminhou para perto. Estendeu a mão para ajudá-lo a erguer-se. Ele recusou.

— Que arma é essa?

— Eu posso explicar.

— O que era aquilo?

Ergueu-se com dificuldade. Recolheu a arma do chão. Apontou-a para ela.

— Eu posso explicar — ela repetiu.

— O que eu vi não era humano. — Segurava a arma firme. — Quem é você?

Diante da urgência em seguir a criatura, ela ignorou a arma apontada em sua direção.

— Não podemos perder tempo.

— Fica parada! Larga essa arma!

De costas para ele, virou-se parcialmente, Resolveu contar a verdade. Não toda, mas a que lhe convinha.

— Eu sou Khala. Interceptadora da polícia. Número de série PGLKT58.

— De que polícia? Que arma é essa?

— É uma longa história.

— Não vamos sair daqui. — Percebeu o tremor ao observar a ponta da arma apontada para ela. — Quero uma explicação, Souza. Agora!

— Eu digo a verdade. Eu sou Khala – repetiu. — Interceptadora da polícia. Número de série PGLKT58. Essa é uma pistola AK-3527 série M — e completou: — Precisamos alcançá-lo antes que faça a próxima vítima — olho no olho. Ele não conseguiu desviar. — Ele está interferindo no equilíbrio desse tempo e do tempo onde vivo.

— Do que está falando? De que tempo? Tem o nome da próxima vítima? Como sabe disso?

— Muitas perguntas…

Khala ergueu o braço esquerdo devagar. Com movimentos lentos, sempre na mira de Andrade, apertou o pulso com o indicador.

Um holograma com a imagem da criatura apareceu.

O investigador apertou a coronha da Taurus, ainda com o dedo no gatilho.

— Droga! O que é isso?

— Eu já disse: sou uma policial. Ele é o que vocês chamam de vampiro. Ele busca essências. As mais fortes. Todas elas. É seu alimento.

— Você quer dizer almas, sangue, o quê?

Khala assentiu.

— Almas… Auras… Essências.

Andrade parecia atordoado. Muitas informações para um cérebro ignorante da evolução na qual ela mergulhava todos os dias.

— Nascemos marcados, uma espécie de proteção contra as criaturas sobrenaturais de além dos portais. Elas atravessam os portais vez ou outra. A viagem pelo tempo é comum, mas somos proibidos de interferir. Qualquer ação nesse sentido é punida com a morte. Sempre que uma criatura tem acesso ao passado, um de nós vem para eliminá-la.

— Quer que eu acredite nessa história?

— Você tem um sugador de auras, aqui. Ele não vai parar. Você pôde senti-lo bem de perto. Quer ficar com centenas de mortes inexplicáveis nas mãos? Ou quer me ajudar?

Rastreamento atualizado.
10:49:58. Dados completos.
Criatura fora do alcance.
Próximo alvo: Costa, Juliano.
Localização: -23.556965, -46.605125.
Distância: 250m.

— Então? O que decide? — ela pressionou afastando-se, dando ares de seguir sozinha. — Ele já está na área da próxima aura.

Ele não viu opção senão seguir com ela. A criatura de olhos brilhantes assustadores que o derrubara parecia humana, sim, mas não pertencia a esse mundo. Mais mortes não seria nada bom.

— Tenho coordenadas: -23.556965, -46.605125. Podemos chegar a tempo.

— Como sabe quem será o próximo?

— Ele é sensitivo. Escolhe pela força da aura na área onde está.

— E como sabe onde ele está?

— Pelo desequilíbrio provocado por ele. Ondas são detectadas pelo rastreador. Ondas de energia vital e radiação, muito diferentes e mais intensas das humanas. Algumas partículas se desprendem e formam um rastro.

— Isso é loucura…

— Precisamos agir — ela insistiu. — Agora!

Andrade hesitou, mas baixou a arma.

— Acho que temos um entendimento, então? — Ao vê-lo assentir, ela não perdeu tempo em seguir escada abaixo. — Precisamos correr.

Ao cruzarem a saída do prédio encontraram José, ainda na vigia do cadáver.

— Ouvi barulho de vidro. Corri pela lateral — Vargas puxou o ar. — O que aconteceu?

— Vamos pegar esse desgraçado.

Andrade não esperou, tampouco Khala. Recomendou a José aguardar a perícia. Chamou Vargas com eles. Cruzando o quarteirão por entre os prédios, os três seguiram as coordenadas.

— Como sabem que ele veio para cá? — As passadas largas de Vargas o colocavam na dianteira.

Rastreamento atualizado.
11:01:33. Dados completos.
Carregamento de aura completo.
Onda detectada.
Criatura próxima.
Posição: horizontal.
Distância: 50.8m.

— Estamos nos fundos dos restaurantes da José Antônio. Conheço essa área — Vargas verificou a arma.

— Estamos perto — ela avisou.— Por aí — apontou para o beco estreito.

A troca de olhares entre Khala e Andrade chamou a atenção de Vargas.

— Como sabe se estamos perto ou não?

— É uma longa história, Vargas. Depois explico. — Andrade não queria perder tempo. — Vamos nos separar. Dê a volta. Cobrimos uma área maior.

Vargas não perdeu tempo. Deu a volta para sair na rua e vigiar a frente.

Khala e Andrade seguiam igualmente rápidos.

— Essa sua arma vai resolver?

— Assim espero.

— Está me dizendo que não tem certeza de poder matar essa coisa?

— Essa não é a primeira criatura vinda para esse tempo, mas é o primeiro sugador de auras. Ninguém realmente sabe quais são as mudanças provocadas pela viagem nas criaturas.

— Essa é boa! Estamos à mercê de algo que nem você e os caras do futuro têm noção?

Nem bem formulou a pergunta e ouviram-se gritos vindos de dentro de um dos prédios.

Khala adiantou-se. A porta estava aberta. Andrade entrou a seguir.

Passado um pequeno corredor, chegaram à cozinha do restaurante. Pelo passa-pratos viram as pessoas correndo histéricas em direção à rua. O homem, estirado no chão mostrava-se nos momentos finais. Khala disparou primeiro, sem hesitar. A criatura voltou-se contra ela. Dois passos e mais dois disparos. As faíscas de luz dos projéteis de encontro ao corpo da criatura quase cegaram Andrade. Ele esvaziou o pente de balas, dando tempo para ela programar carga máxima.

A criatura absorveu a carga de energia e o corpo, antes de se desintegrar, iluminou-se de tal forma que tudo ao redor tremeu.

O visor ocular apontou:

Rastreamento atualizado.
11:15:58. Dados completos.
Criatura eliminada.
Apresente-se à coordenadas de transporte.
Porta em espera.
Fechamento em 15:45.

Andrade aproximou-se do cozinheiro.

— Respirando.

Ela digitou no teclado virtual. Ele a olhou como se entendesse tudo o que aconteceria a partir daquele instante. Pelo passa-pratos perceberam Vargas. Arma em punho, entrando devagar.

— Tenho 15 minutos — ela o encarou com enormes olhos esverdeados.

— Essa é a despedida mais estranha…

Nos lábios de Khala, uma discreta linha curva se estabeleceu.

— Vamos nos encontrar outra vez? — ele ainda perguntou.

Khala afastou-se discretamente da cena. Andrade teve a sensação de ouvir um ‘quem sabe’, mas as vozes das pessoas e de Vargas cresciam ao seu redor e tomavam lugar. Altas. Barulhentas.

— Quem sabe… — Andrade repetiu as palavras. Largou Vargas sozinho recolhendo depoimentos, e seguiu para fora, mergulhando na rua carregada de luzes e sirenes.

– – – – – – – – –

Nota: Com relação à imagem utilizada na capa, ela está no PIXABAY como CC0 Public Domain – Grátis para uso comercial  – Atribuição não requerida. Para visualizar, clica no link AQUI.
Regarding the image used on the cover, it is in PIXABAY as CC0 Public Domain – Free for commercial use – Attribution not required. To view, click on the link HERE.

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3 pensamentos sobre “Vampiro de Auras

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