Nos trilhos

Uns a chamavam de Maria. Outros, de João.

De fato, chamava-se Maria João e era maquinista.

A filha, Elena, partira aos dezoito anos para a cidade grande com aquelas ilusões que toda garota possui. Empregou-se numa fábrica, casou-se com um José que morreu numa esquina vítima de atropelamento. A penca de filhos está espalhada pelo bairro e cidade. São Paulo não é para qualquer um, dizia a maquinista, tentando impedir que a moça partisse nos anos 70. Esqueceu-se de Maria João.

Todos os dias a rotina abotoava suas botinas pretas e pesadas, desamassava a calça de algodão grosso e deixava marrom a sua camisa branca. Todos os dias, também, ao chegar em casa às dez, o tanque recebia a camisa, a escova pequena esfregava a calça e o pano lustrava a botina. Maria João tinha hábitos simples. Aos cinquenta anos de idade não se considerava uma mulher comum, não. Maria João era muito mais homem que qualquer marmanjo da ruela onde tinha o sobrado.

O café dialogava com ela bem cedo, junto do pão, do queijo e salame que pegava na volta do trabalho. A marmita era preparada todos os dias e o restante das coisas trazidas no sábado, do armazém do Inácio, um português que assoviava o fado melhor que ninguém.

A semana era trabalho. O trem chegava impaciente e a troca de maquinistas acontecia na segunda parada. O sábado era uma volta na praça da cidade, uma prosa com as mulheres do mercadinho e um chamego de Viriato, um pretendente de muito antes de Pedro, pai de sua filha Elena. O domingo resumia-se numa ansiedade. A segunda-feira precisava chegar intacta.

O trabalho na ferrovia tinha desde moça, quando seguira os passos do pai, interessada por aqueles cavalos de aço, como o velho mesmo dizia citando algum escritor de livro que nem mais se lê. Aprendera cedo o ofício e amava as engrenagens, os parafusos, os apitos. Gostava do cheiro de óleo, da fumaça que soltava, da cor cinza que o metal emprestava à paisagem sempre verde do lugar.

A ponte, cruzava todos os dias. Uma vez ida, outra vez volta. Apitava na entrada, apitava na saída. Era longa e perigosa. Atravessava a ponte, estreita e alta, construída nos idos de outro século sob o comando de um Capitão Vieira.

Quando o trem descarrilhou na curva da ponte, os vagões estavam vazios.

O enterro foi custeado por Viriato e Inácio. Elena e os netos não compareceram. As mulheres entoaram o terço. O padre, um novato que não a conhecia, fez a prédica em cima do trabalho. A ferrovia tomou de volta a casa. Maria João fez bem seu trabalho. Descansa em paz num túmulo de chão, com cruz de ferro simples, adornado com tijolos.

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