Poço das Almas

POÇO DAS ALMAS

 

 

Procura-se coveiro com 2°grau de escolaridade completo, para enterrar mortos e realizar serviços adicionais, com básico de R$ 1500 mensais. A saber: o referido cargo não exige conhecimento imediato, mas acrescenta adicional se houver comprovação de experiência com inumações, cremações, exumações, trasladações, ossários, jazigos, columbários ou cendrários. O candidato deve passar pelo exame médico para aferimento das capacidades físicas e morar no emprego.

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Edmilson não pensou duas vezes. Não se desperdiça uma chance estando desempregado e sozinho, ainda mais se a experiência profissional limitar-se a trabalho de sepultador, trabalho exercido em outra cidade tempos atrás. Abraçou a vaga, apresentando-se no mesmo dia.

Só depois de uma semana no emprego soube o motivo da contratação em caráter de urgência. O sujeito da loja de ferragens, Seu Antenor, mostrou a notícia.

“Coveiro morto no interior impõe um intrigante quebra-cabeça para o delegado de Vale Feliz.”

Ao chegar na casa, jogou o jornal em cima da mesa.

— Coisa mais estranha, diacho.

O título da manchete em letras enormes sobressaía-se junto das imagens de capa – o retrato do ex-coveiro e a imagem do sepulcro aberto. O texto, mais abaixo, explicava algumas particularidades da investigação. Edmilson começava a ligar os fatos de sua contratação.

“A empresa proprietária da área do cemitério-parque Portas do Paraíso afirmou que o funcionário morto exercia muito bem as funções. Sem passagem pela polícia ou qualquer antecedente criminal, Alfeu Marques Weber, foi encontrado sem traço de sangue no corpo dentro de uma das gavetas, depois de um sumiço de mais de 48 horas. Os investigadores não descartam a possibilidade de vingança, mas o ocorrido levantou uma série de disque-me-disque na pequena cidade, próxima da área do campo santo, uma vez que ele seria a terceira vítima na região.”

Mais abaixo, encontrava-se a resposta do delegado Simões para o caso. “Essa é provavelmente mais uma vítima do serial killer que fugiu da penitenciária de Barracuda.” E a contestação do jornalista. Apesar de não haver comprovação, Simões afirma que Alfeu Marques Weber – funcionário há mais de dez anos da empresa Santos&Santos – não foi morto no local onde trabalhava, o que justificaria a falta de sangue no lugar e no corpo da vítima. “Temos duas perfurações no pescoço e marcas de agulha nos braços. Isso pode corroborar a ideia de uma ação sádica. O sangue pode ter sido drenado.” E o texto inferia sobre as mortes anteriores em um sensacionalismo barato, regado pelo imaginário popular, entre vampiros e lobisomens, corpo-seco e mulher de branco na beira da estrada.

Leu a matéria outra vez, com mais calma, para ter certeza das investigações anteriores. Sem acesso a conexões de internet, determinou que, no dia seguinte, procuraria os jornais anteriores àquele na banca da rodoviária de Vale Feliz.

— Vai tomar no…

Rosnou mais alguns palavrões e seguiu para os fundos da residência, para o quartinho das ferramentas, um anexo pequeno e desorganizado. A manhã perdeu-se e a tarde ia devagar, pra mais da metade.

Abriu com força as portas do armário e puxou para fora uma caixa metálica grande. O peso o fez depositá-la no chão com força. Agachou-se, destampou-a e revirou as peças de cima. Uma bagunça.

— Cadê a chave de… Aaaaaah!

Soltou um grito seco. Caiu para trás.

Uma aranha marrom do tamanho da palma da mão saiu do meio dos fios e peças sobressalentes.

— Que droga!

A bichinha reconhecia o caminho devagar. Tateou a superfície e deslizou para fora. Ela, contudo, não teve chance de contar até dez. Edmilson ergueu-se e pisou na criatura sem dó. PAM! A caixa e as ferramentas dentro dela tremeram.

A caranguejeira esperneou por um tempo.

Ele se aproximou. Olhou mais de perto a meleca.

Pisou outra vez com o coturno. Precisava ter certeza. Esmagá-la por completo.

Só depois notou o corte feito a si mesmo na mão, ao apoiá-la em cima da lâmina da serra de arco, quando deu para trás para fugir da aranha.

— Maldição!

Deu uma boa olhada no sangue.

— Diabos!

Pegou o primeiro pano que encontrou em cima do balcão de madeira em frente do armário e enrolou-o com força. Apertou bem no corte. Não se importou com o machucado, nem com a assepsia do retalho.

Naquele dia amontoavam-se os serviços e as coisas estranhas. E agora, aquilo. Aranhas, naquela parte onde se localizava a casa, eram até de se esperar. O mato crescia de um jeito irregular.

Desde a chegada àquele cemitério, tivera mais trabalho com pequenos consertos do que com cerimônias fúnebres propriamente. O lugar estava caindo.

Assassinado ou não, o ex-coveiro desmerecia recomendação profissional. Fazia corpo mole diante do serviço, isso sim! Edmilson já tinha certeza do demérito do homem morto. Uma vez no emprego, na primeira noite mesmo dentro da casa, Edmilson enfrentou problemas com os disjuntores. As piscadelas e a queda da energia só pararam quando ele grudou provisoriamente com fita isolante na chave geral. No dia seguinte, precisou trocar a porcaria toda. Sem contar que se cagara todo ao encontrar uma gaveta funerária aberta, uma das novas, virgem. O granito fora retirado da parte da frente e deixado encostado na base da parede. Puro vandalismo. Ninguém mais respeitava as covas, fossem elas onde fossem.

Memórias recentes à parte, aquele dia também começara avesso. Precisou desentupir os tubos de drenagem do refrigerador da sala mortuária fazendo-o voltar a funcionar. Agora, os castiçais do altar e as luminárias externas do mausoléu secundário, aquele contendo as gavetas pequenas com as urnas do crematório, apresentavam problemas. E ele estava faminto, apesar do almoço. Colocara muito pouco, quase nada, para dentro daquele corpo enorme, mas o serviço não esperava.

Devia ganhar tempo para vencer os contratempos.

Depois do refrigerador com defeito, dos castiçais e luminárias, o pepino ficou por conta do portão lateral, do lado sul. Os desgraçados dos rolamentos não deslizavam sobre a barra. Alguém tinha feito um belo serviço forçando as engrenagens para abrir manualmente. Levaria um dia e meio para consertar tudo à base de pancadas e palavrões, se tudo corresse como deveria e se o mecânico explicara certinho porque o telefone convencional devolvia estática logo cedo. Pouco se ouvia das falas do mecânico do outro lado da linha. Sequer a conversa do dia anterior ele escutou com clareza. A sorte é que tinha experiência e preparou o funeral de última hora com competência.

Nada era mais complicado do que enterros de última hora.

— Qual enterro não é de última hora, Sr. Edmilson?

Edmilson conseguiu sorrir da pergunta do Sr. Santos, apesar de questionar os procedimentos, uma vez que deveria ter sido comunicado com 12 horas de antecedência. No outro emprego, não havia margem menor do que 12 horas padrão.

— Além do mais, você não é pago para perguntar. O Sr. Alencastri é o dono do lugar, rapaz. A morta é parente. O enterro será à tardinha, ao sol poente, no Poço das Almas, o antigo cemitério. Foi desejo da morta na última hora. E será cumprido.

— Gente mais doida, isso sim. Como se fosse fazer diferença…

Resmungou, ao se lembrar da trabalheira dada pelo funeral, na parte mais estranha e isolada: o antigo cemitério, enfiado dentro do novo. Imagine você: lápides de pedra, escondido no mato, isolado por uma grade escura alta e guardado por um enorme cadeado. Sombrio. Com cara de filme de terror.

No humilde julgamento de Edmilson, aquela velharia destoava da demarcação daquela necrópole, quase perfeita, com as plaquinhas de propriedade e as lápides discretas com espaço para uma única flor, cortado por trechos de calçadas e recantos de descanso e oração. O Cemitério Parque Vale Feliz era mais bonito do que aquele no qual trabalhara.

Puxou o ar e prendeu nos pulmões. Soltou ruidoso. Colocou para trás a cabeça. Sentiu os estalos no pescoço. A barriga roncou. Movimentou os ombros. Bufou, contudo, o serviço não se fazia sozinho.

O pequeno conserto ainda esperava por ele. Sim… O maldito do conserto.

— Ontem não tinha problema com aquela joça…

Nos 40 anos, quase quinze de profissão, presenciara todos os tipos de enterros e trabalhara em todos os tipos de campos santos. Definitivamente, aquela semana se sobressaia e bem! de todo o restante. Retirou a camisa. Sentiu o corte arder.

— Mas não acha estranho, padre? Com tanto espaço, vai enfiar a moça lá dentro, naquele lugar cheio de capoeira e bicho estranho?

— Excentricidades, meu jovem Edmilson.

 

— Excentricidades.

Repetiu em voz alta. A palavra do padre ficara gravada.

— O senhor não vai entrar no velho cemitério, padre?

— A alma da bela Margot Alencastri já está encomendada. Agora é com você, meu caro. Entre lá e faça o seu trabalho, filho.

Enquanto saía em direção da empreitada, lembrou-se da cerimônia. Poucas pessoas presentes. Rostos estranhos. Quatro sujeitos enormes conduziram o esquife da pequena capela para dentro do cemitério antigo. Ninguém mais entrou além do Sr. Alencastri e dos auxiliares. A cova foi aberta na hora. Edmilson fez o serviço de maneira rápida, sem perguntas. O suor pingava pelo nariz. Abriu-a, jogando a terra toda de um lado, e esperou colocarem o caixão. Por fim, fechou com determinação. Saiu antes e esperou próximo da coluna da direita.

Depois de meia hora, o velho e os homens de terno apontaram perto do portão e ordenaram que passasse a corrente e apertasse o gancho do cadeado.

Livrou-se das lembranças e verificou a iluminação da parte de dentro da capela. Apertou os parafusos dos lustres do pequeno altar. Trocou as lâmpadas e, depois de certificar-se do conserto, ligou a luz externa. Funcionava. Terminou de fechar o mausoléu e notou a lua.

Seguiu para a casa. Pensou no banho para tirar a canseira e no parco almoço. O jantar compensaria. A boca estava seca. Beberia litros de água. Água não. Umas cervejas! E bem geladas.

Parou no momento em que percebeu o clarão dentro da área do cemitério antigo.

Estreitou os olhos. Segurou a respiração. Não moveu um único músculo. Um minuto parado. Dois. Ouvidos atentos a perscrutar qualquer alma viva. Nenhum som. Sequer o pio de um pássaro.

Depois de instantes, completamente imóvel, não vendo mais luz alguma, endireitou-se.

— Naaaaaaaum…

Balançou a cabeça. Coisa da imaginação. Culpou o cansaço. A fome.

— Estou vendo coisas.

Retomou o rumo da pequena casa mista de alvenaria e madeira cedida para os coveiros e, não dando mais do que três ou quatro passos, viu o lampejo outra vez.

Estancou. Dessa vez, sentiu o calor subir pelas pernas; aquele mesmo de quando o medo começa a ganhar espaço. O arrepio arranhou a espinha parecendo garras pontiagudas de animal feroz. O tremor o fez segurar mais firme as chaves de fenda.

— Mas que puta merda!

Não vira ninguém aproximar-se, mas alguém ultrapassara os muros altos da propriedade dos fundos e invadia Poço das Almas. Edmilson pensou o óbvio: Roubar a tumba recém-feita. Competente que era, sob hipótese alguma permitiria vândalos fazendo qualquer estrago em qualquer palmo daquele solo.

— Sacanagem!

Despendurou a lanterna do cinto. À medida que se aproximava, o portão crescia diante dele. Uma parede vazada, de ferrugem quase centenária, ele sabia. Focou a luz no arvoredo, do outro lado da grade. Olhou para a direita. Olhou para a esquerda. Só a erva daninha crescia enrolando-se nos ferros que cercavam a parte frontal.

Nada. Não tinha nada.

Fez silêncio, outra vez, para escutar qualquer indício de presença humana. Se houvessem ultrapassado, a secura do solo pela falta de chuva deixaria a sequência de passos audíveis.

Ouviu os grilos.

Enfiou as ferramentas no bolso traseiro da calça. Puxou o molho de chaves. Passou com parcimônia até encontrar a chave marcada com as iniciais PA e retirou o cadeado, sempre atento a possíveis movimentos e barulhos ao redor. Soltou as correntes, deixando-as penduradas em uma das partes junto com o cadeado.

Um novo arrepio bateu nas costas ao empurrar os portões, escancarando a entrada. Depois, um calor estranho envolveu a garganta e uma rajada de vento quente passou por ele, erguendo algumas folhas. Aí, sim, o estômago apertou. Tremelicou e pensou em desistir. Mas era homem, afinal.

Seguiu pela picada. Se havia algo que faria logo pela manhã era carpir aquele caminho. Deixar tudo muito limpo. Arrancar aquelas capoeiras sem serventia. Tirar aquele mato todo e ajardinar.

Um pio estridente ecoou de repente. Edmilson estancou próximo das lápides de pedra tão antigas quanto a região. Vale feliz devia ter uns quinhentos anos nos seus cálculos.

Pensou ter enxergado um vulto passar entre as sepulturas. Direcionou de forma nervosa a luz da lanterna. As árvores se movimentaram, mas não havia vento. Lembrou-se da tampa de granito da gaveta que deveria estar fechada.

 O homem foi encontrado sem qualquer traço de sangue no corpo dentro de uma das gavetas…

Deu pra trás. Um galho seco estalou.

Edmilson sequer pensou. Desatinou a correr. Tropeçou. Caiu. A mão doeu. O portão estava longe. Uma rajada forte e tão quente quanto a primeira levantou as folhas secas. O portão rangeu, chorando, movendo-se lentamente.

— Jesus…

Edmilson correu tanto e alucinado que não percebeu quando atravessou os limites do cemitério velho com o novo.

Caiu vencido, já na parte de fora. Ofegava. Lanterna para um lado. Ferramentas espalhadas para outro. Respirava atropelado. A boca seca. O coração na garganta.

As partes do portão bateram com força. Edmilson olhou para trás, encarando a escuridão do lado de dentro e arrastou-se de costas, não despregando o olho da entrada, até sentir-se seguro.

Foi erguendo-se com dificuldade, sempre encarando o Poço das Almas; a lucidez voltando a lhe pertencer. A lua, no céu, auxiliando os spots luminosos fotossensíveis espalhados ao longo da parte nova.

Mas que merda…

O coração desacelerou aos poucos e a respiração tomou ritmo.

Edmilson olhou ao redor. Juntou as chaves de fenda. Puta cagaço. E, ainda atrapalhado, aproximou-se do grande portão e recolocou a corrente. Depois, fechou o cadeado dominando o tremelicar das mãos. As pernas mais pareciam duas varas verdes na ventania.

Afastou-se incrédulo.

Precisava mesmo de umas cervejas.

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