Encantamento

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Os irmãos observavam o ritual. A Saraipora conduzia o andor de cipó adornado com algodão e fitas, repleto do simbolismo religioso. Significados de mais de trezentos anos na região. Seguia pelas ruelas da vila acompanhada pelo juiz e juíza, mordomos e moças da fita em busca dos mastros de tachi preto.

Enquanto seguiam, Jacinto e Jandira combinavam de saírem à noite, para as festas aleatórias e para a grande festa dos botos, um final de semana depois.

— Inda é cedo pra fazer plano — ele explicou.

— Mas a Fabiana quer sair contigo. Vai ou não?

Jacinto calou. O silêncio ganhou a dimensão da mata, dos tons de verde. Observou a retirada dos mastros da água. Depois, acompanhou a levada das toras.

O vilarejo não crescera nada desde a infância. As ruas mais afastadas descalças, as calçadas de grama rala, a alvenaria peculiar. Ele respirava aquele ar quente de setembro e se sentia um peixe fora d’água. Mesmo trabalhando em Santarém durante a semana, Jacinto entendia que a vida que precisava não se encontrava ali. Seguia a procissão por imposição da mãe. As intenções alimentadas, contudo, eram as mesmas da irmã: ver os moços vindos de Santarém no domingo, para a disputa dos botos.

— Então…

— Então o quê? — ele deu de ombros. Jandira aporrinhava quando o assunto era Fabiana.

— Vai sair com a Fabiana?

— Claro que não.

Ele virou o rosto e se afastou de Jandira. Circulou pela praça. Viu os mastros serem erguidos.

Jandira observou o irmão gêmeo. Sentia que algo não ia bem, mas em suas vidas nada ia bem. A tranquilidade enfadonha daquele lugar tornava tudo pior, mesmo com os turistas. Depois de sair da escola secundária e começar a trabalhar fazendo faxina, o cansaço das coisas repetidas assolava o ânimo.

A mãe não facilitava, tampouco. Pressionava para ela se aquietar e não buscar a vida fácil encontrada pelas filhas da vizinha.

O desejo de Jandira se resumia em um marido, uma casa e a liberdade observada no casamento das amigas de escola. Nada além do que a maioria tinha. Enquanto seguia, cantarolava baixinho. Para ela, a festa cravejava no peito esperanças. Gente não faltava.

A cantoria elencava outras tantas músicas sagradas. As ladainhas emprestavam àquilo um ar antigo. Jacinto observava os homens e mulheres na disputa da decoração. A cor da pele, fustigada pelo sol. A voz arranhada, estridente, das mulheres cantoras. Olhava para as mãos dos que adornavam os mastros. Os calos, os sulcos.

Jandira seguia as canções sem entusiasmo. O lado sagrado da festa não tinha a exuberância do lado profano. As festas nas praias fluviais atraíam milhares de turistas. Os ritmos marcantes e alegres destoavam daquele emaranhado de cantilenas sem vibração.

A espera da apresentação dos botos Rosa e Tucuxi materializou-se em eternidade. Os irmãos encontraram no trabalho diário a agonia da expectativa. Uma semana de espera. Jandira limpando casas, exaurindo as forças em detergentes e alvejantes. Esfregando a alma em chãos encardidos. Sete dias intermináveis, até o acontecido. Ele, Jacinto, na construção civil. Um pedreiro desajeitado que não encontrava nos tijolos o regalo da vida. Mas encontrava-se aí outra vez, depois de uma semana. Se eu fosse pra São Paulo viver minha vida. Se me livrasse desse chão, pensava vez ou outra. Sabia das oportunidades. Vez ou outra, recebia cartas dos amigos corajosos que partiram para a cidade grande e nunca mais voltaram. Atendia telefonemas esparsos; conversas rápidas, contando promessas de uma vida melhor. O jeito era esperar.

Os grupos começaram a reunir-se logo cedo, no domingo. O sol estropiando a pele, ardendo os desejos. O calor evaporando sonhos pelos poros.

O vai-e-vem dos preparativos, as conversas e a cantoria levaram os irmãos para perto do rio, mas para lados diferentes.

Jandira e as amigas podiam contar nos dedos os moços mais belos da pequena vila.  Encantaram-se com um fulano, encostado na casa caiada maior, perto da esquina. Aquele vinha de longe e se mostrava afoito.

À distância segura, entre risos e cochichos, acompanharam a impetuosidade de Fabiana, apostando descobrir nome e lugar de origem do forasteiro, vestindo roupa clara e chapéu. A esperteza das amigas não chegava aos pés da morena, ignorantes do fato de ela já o conhecer do dia anterior.

— Eu gostei de ontem — Fabiana confessou ao estranho.

Ele a tomou pelas mãos.

— Eu também.

— Vai ficar até o fim? — A curiosidade saltava pelos olhos castanho-esverdeados.

Ele não respondeu, mas o sim estampava a face clara.

— Posso apresentar você pras minhas amigas.

— Quem sabe depois.

Fabiana afastou-se. As amigas a rodearam. Riam e falavam ao mesmo tempo.

— Que afoito! Como é o nome dele? Ele vai pular pra que lado? — Marcela era a curiosidade. — De onde ele é?

— Vocês são muito atiradas — Jandira não segurou a reprimenda. — Você também. — Apontou para Fabiana.

— Deixe de ser besta! Vai ficar solteira se continuar assim, puritana. — Fabiana não perdoou. — Não tem nada de mais. Eu conheci ele ontem, se querem saber. Veio de Manaus. Está passeando; conhecendo a região.

— Oxi! Conheceu ele ontem, foi? Que rápida. — Rita olhava para ela admirada.

— Ele estava na barraca do meu irmão, à noite. Eu estava escolhendo peixe. Conversamos. Foi isso. — A explicação foi rápida e convincente. — Vamos! — Puxou Rita com pressa. — Quero encontrar o Jacinto.

— Ah! Esquece o Jacinto — advertiu Marcela. — Não vai ter futuro com ele.

— Isso, vamos ver — Fabiana respondeu.

— Vamos! — Rita puxou Jandira pelo braço. — Estamos perdendo a festa.

Jandira olhou para trás, mas não viu mais o sujeito.

A música e o mundaréu de gente ao redor levaram as moças para dentro das danças. O tom dourado na vegetação anunciou a descida do sol e o movimento dos jovens para a disputa se agigantou.

Do outro lado, Jacinto bem sabia o que procurava, mas ali, no meio daquela gente cheia de culpa e medo, não podia se pronunciar. E ai, dele! Também sentia culpa. E medo. Sequer olhava ou respirava de outra forma, mesmo custando muito o disfarce. Ele era diferente, bem sabia, e as poucas pessoas de suas relações, desconfiavam até da sombra.

Avistou o moço bonito, de calças claras, chapéu de turista, daqueles que não se vê o ano todo. Parado, próximo de uma das vendas de artesanato, jogava charme pras moças, cumprimentava sorridente, e encarava os moços. A distância percorrida pelo estranho até o Lago dos Botos podia ser percebida no tom da pele. Clara demais para ser daquela região. Parou ao lado, dois passos longe dele. Flertou com a discrição dos terços de contas de semente a balançar nos ganchos da lojinha. Olhares trocados. Máscaras confusas. A imagem da mãe cresceu feito os paus de fitas da celebração. Jacinto guardou os ímpetos de se aproximar do sujeito até não ter como. A vontade falou mais alto. Aquilo tinha nome: encantamento.

— Veio de muito longe?

— De logo ali.

Jacinto sorriu. O desconhecido não queria ser conhecido, mas para ele estava de bom tamanho. Ele também fugia de quem ele era toda a vez que alguém se aproximava de maneira perigosa.

O olhar faiscante do estranho bateu no peito de Jacinto e o coração parou na boca. Ele olhou ao redor.

— Pra que lado tu vai?

O sorriso largo e tranquilo do desconhecido pegou o irmão de Jandira de jeito.

— Digo… — Hesitou. — Torce pra quem?

— Para o Boto Rosa, é claro. E você?

— Pro Boto Rosa, é claro.

Jacinto enfiou as mãos nos bolsos da calça. Muito logo, as luzes da rua se misturariam às do céu. A música começava a inundar o lugar.

— Não vai dançar também?

— Depois, quem sabe.

— Aqui não tem muita coisa pra fazer.

O olhar escuro de Jacinto encontrou o azul âmbar do estranho. Era o mar refletido, e não o rio. Era encantamento.

Não precisou muito. Um visgo de canto de lábio.

Jacinto seguiu o moço sem pensar na mãe, no padre eterno ou em Fabiana que queria casar a todo custo.

Longe da multidão, por entre as árvores ribeirinhas, sob uma lua cheia brilhante, os dois se banharam nas águas e deitaram sobre as pedras. O barulho do rio, o vento batendo de leve nas folhas, o ritmo distante, as poucas luzes espelhadas na outra margem do Tapajós. O mundo era grande e, ele, Jacinto, solitário, escondendo sentimentos, desejos e o que sempre fora.

Mãos a brincar, bocas a experimentar sabores. O contraste das peles, o marulho das águas, a cantoria. O movimento dos corpos, o calor e o alívio. Entre uma ação e outra, entre uma canção e outra, braços e pernas entrelaçados. A respiração no pescoço. O toque suave como onda de rio manso naquela pele fustigada pelo sol. Aquele desejo de tempos, aquela vontade reprimida… A vida faz sentido quando é, de fato, vivida.

Mas nada dura para sempre e Jacinto soube disso ao avistar Fabiana, passos de onde estavam, parada nas pedras mais salientes, com o olhar grudado, duro, feito oração de beata. Levantou-se num salto, nu em pelo, e Fabiana correu para longe.

— Deita aqui, Jacinto. Deixa ela ir. Levo você comigo.

O estranho parecia não entender a dimensão daquilo. Tampouco Jacinto.

Vestiu-se depressa. Sequer abotoou a camisa. Olhou para o sujeito ainda deitado, com um meio sorriso despreocupado, como se pudessem manter a magia daquele encontro para sempre.

— Jesus…

Indeciso que era, naquele momento pareceu outro. Saltou sobre as pedras e correu em direção da praça. Tudo o que poderia fazer era salvar a si mesmo da desgraça de Fabiana contar o que vira para as bocas malditas do lugar. O povoado era pequeno demais para aquela verdade. Mesmo Santarém era pequena demais.

Avistou Jandira, com Rita e Marcela junto da multidão. Pulavam, cantavam. Fantasias indo e vindo. Um boto, outro boto. A dança frenética exaltava alegria e ele, ali, agoniado até as entranhas. Arrodeou as barracas. Uma volta e meia a mais. E por fim, Fabiana, parada em frente à barraca do Tonho, o irmão.

A alma pareceu sair com o suspiro.

— Fabiana.

Ela virou o rosto. Braços cruzados. Corpo tenso.

— Eu explico.

— Não precisa explicar pra mim.

Para Jacinto, estava tão cristalino quanto o olhar do fulano na beira do rio debaixo daquela lua cheia enorme. Fabiana espalharia para o povo. A mãe o expulsaria de casa. Os amigos, os poucos, se afastariam.

— Não pode contar o que viu.

— Não?

 

*  *  *

 

A luz entrava pelas portas da igreja. A manhã ensolarada matizava os adornos de lírios e copos-de-leite. Coisa simples. A imagem de Nossa Senhora da Saúde abençoava os fiéis de seu altar. Pouca gente convidada ocupando os bancos de madeira já gastos.

As madrinhas esperavam a noiva. Jandira, Rita, Marcela. Os padrinhos as acompanhavam em silêncio, descrentes.

— Ela quase não consegue esconder a barriga — Rita sussurrou no ouvido de Jandira. — A mãe escolheu um vestido de outra cor.

— Não se usa mais disso — Marcela cutucou a amiga. — Que gente mais ignorante.

— Mas o filho não é do Jacinto. Ela pode dizer o que quiser. — Jandira olhava fixamente para o irmão, do outro lado. — Meu irmão é um trouxa. Pra não dizer outra coisa.

Enquanto Jandira trocava fuxico com as outras duas, Jacinto ajeitava a gola da camisa fora de moda, olhava para os sapatos sem brilho, observava os ladrilhos do chão. As mãos suavam. Sentia o cheiro dos lírios. A escolha das flores não poderia ser mais funesta. Lembrava-se daquelas flores enfeitando os caixões. Aquele era o seu funeral.

Perguntava-se quando perdera totalmente o juízo. Envergonhava-se da falta de coragem. Olhou para a mãe. Ela choramingava, mas ele choraria muito mais, ao assentar tijolos com sanha e culpa, endurecendo dia após dia, ao se lembrar do olhar azul âmbar, das pedras do rio, da lua cheia.

Olhou para as portas abertas da Igreja Matriz. Ele não era nenhuma moçoila frágil, mas tinha um coração naquele peito e a esperança o chapiscava de cinza a cada minuto na espera. Cristo crucificado olhava diretamente para ele.

Ele aguardava um milagre.

As pessoas levantaram.

Fabiana surgiu na porta da igreja ladeada pelos pais.

A visão de Jacinto embaçou. Sequer ouviu a Ave Maria tocar.

 

Nota: Este conto fez parte do Desafio Folclore Brasileiro do site EntreContos. Para ler os demais contos participantes clique AQUI. Ficou classificado em terceiro lugar pelos votantes.

 

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