São Nicolau

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O velocímetro marcava vinte e cinco quilômetros por hora. Acionou os freios desacelerando ainda mais o veículo quando avistou a luz vermelha. O cruzamento estava deserto. Bocejou. Estava mais escuro que o habitual. Olhou para seu relógio. Ligou o rádio e girou o dial. A música já estava no fim.

Tu que segues conosco nesta madrugada fria estejas alerta. Uma série de fatos inexplicáveis está a ser relatada por moradores da região de São Nicolau, próximo ao cruzamento da Rua da Conceição com a Rua da Prata.  O comandante da 3ª Esquadra de Polícia adverte e solicita ficarem atentos. Interromperemos nossa programação para outros esclarecimentos.

A notícia era vaga. Seguiu para a esquerda quando a luz verde surgiu.

— Pffff… Era só o que me faltava.

Rangeu os dentes. Estava falando sozinho. A voz do radialista deu lugar para uma nova canção. As lâmpadas da rua piscaram várias vezes e não havia uma janela iluminada sequer.

Percorreu a rua dos bondes. Rua de prédios baixos e antigos, de arquitetura colonial misturada com a modernidade, de cores claras e discretas. À noite, porém, todos os matizes tinham aquele tom acinzentado. Passou pela casa de vinhos e pela de câmbio. Viu, pelo retrovisor, um grupo de homens atravessar a rua. Fixou o olhar no cruzamento, intrigado, e, logo depois, viu outros correrem na mesma direção.

A melodia continuava. Estava próximo da Praça da Figueira. Sua casa estava próxima.

Assim que passou a loja dos doces e virou à direita, um sujeito enorme cortou a frente do carro e parou. De susto, freou bruscamente. A sorte era estar a pouca velocidade.

— Quer ser atropelado? Saia da frente! —  gritou.

A rua estreita e pouco iluminada não deixou visível a face do homem. Os punhos amassaram o capô do carro. Duas, três, quatro pancadas bem no meio da lataria.

— Ei! Chamarei a polícia? —  advertiu.

Puxou o freio de mão e abriu a porta, esboçando a intenção de sair.

— O que pensa que está fazendo?

Um grito forte e animalesco o fez parar na metade do curto trajeto. O homem que amassara o capô cresceu em tamanho e urrou. Os cabelos tomaram comprimento e uma chama avermelhada surgiu bem dentro do olhar. Seu corpo agigantou-se de tal forma que a camisa soltou os botões.

José fechou-se dentro do carro travando as portas. Girou a chave e arrancou.

— Santo Deus! O que é isso?

O carro estava imóvel apesar de ele o estar acelerando. O homem, ou a criatura, como pensou no momento, segurava o veículo impedindo-o de seguir adiante. José pisou fundo e ouviu o cantar dos pneus. Pisou na embreagem. Mudou a marcha. Acalcou o pé no acelerador. O carro foi de ré alguns metros e enquanto o carro ia para trás o homem da rua seguia junto.

José mudou a marcha. Tudo para frente. Acelerou ao máximo.

O impacto foi barulhento. O homem caiu sobre o capô, bateu o braço no vidro dianteiro, causando uma fissura. Rolou para cima e para trás e tombou enquanto o carro seguia para frente. Quando José distanciou-se, olhou para trás. Não havia homem algum caído na rua. Não havia coisa alguma por lá.

 

( 25/09/2013 Esse texto foi escrito em decorrência de um desafio proposto, mas não me lembro qual era a proposta.)

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