Homens e Monstros

HOMENS E MONSTROS

 

(em Vampiros de Auras)

 

“Pessoas gostam de inventar monstros e monstruosidades. Então, elas mesmas parecem menos monstruosas.” Geralt de Rivia na obra de SAPKOWSKI, Andrzej – O Último Desejo.

 

 

— Pare!

Eu ajusto a mira e respiro fundo. Disparo uma vez, imobilizando-a.

Sinto a umidade nos meus cílios. Pisco algumas vezes para espantar o suor. A corrida até aquele ponto foi tensa. Meu dedo treme no gatilho. O peso da arma parece alterado pelo cansaço. Não quero disparar mais uma carga. Não sei o efeito. É preciso levá-la com vida.

— Não se mexa!

A acústica da rua faz minhas palavras ecoarem. Uma porta bate; uma lata ou algo de metal é largada ao chão. Há passos de alguém correndo para longe. Eu sinto olhos sobre mim. Eles não se mostram, mas observam.

— Sou policial. Não quero machucar você.

O som de trovões anuncia a tempestade.

Eu mal mexo o corpo. Ela entende meu comando. Apenas o manto que a cobre balança com a breve rajada de vento. Os ventos quentes de outono trazem chuva ácida para aquela faixa abandonada.

Eu não pretendo dar margem ao azar. Vou ao encontro dela a passo.

Com um movimento ágil, a estrige se vira; cai sobre mim, fazendo-me cair sobre a arma que guardo nas costas.

A carga paralisante não fez efeito algum. Os olhos dela cintilam. Pelo lábio entreaberto vejo os dentes em ponta. Minha arma é jogada para longe. O hálito é podridão. Eu a detenho. Impeço que suas mãos se libertem das minhas. O reverso acontece. Ela me segura firme. Mexo as pernas para inverter a posição.

A luta dura apenas alguns segundos. Não sei dizer; a tensão é grande. Eu a derrubo para o lado em um momento de distração. Logo, a estrige corre em direção da via perpendicular. Ela é bastante ágil na fuga. Eu preciso me recuperar rapidamente. Junto a arma. Verifico se está tudo bem e sigo seu rastro.

O visor ocular aponta:

 

Rastreamento atualizado.
09:38:02. Dados completos.
Onda detectada.
Criatura próxima.
Posição: horizontal.
Distância: 73 metros.
Afastando-se.

 

Relatório 12-08: Alvo descoberto. Reportando encontro. SK3476 está próximo. Em perseguição. Cidade baixa – Distrito da Divisa.

 

Sou obrigada a parar.

Minhas pernas tremem. Preciso respirar fundo algumas vezes. Um minuto para recompor minhas forças. Persegui-la e ser atacada por ela nessas vias irregulares testou até minha paciência. Na academia ninguém nos avisa sobre esse tipo de coisa. A culpa, porém, é minha. É um trabalho extra.

Quem faz por gosto, segundo minha avó, não carrega desgosto. A lembrança me faz rir e o mau cheiro é insuportável. Um misto de ácido e doce. Cheiro de queimado com urina. A podridão, longe do esgoto, a céu aberto. Aquilo não é vida para um ser humano.

A chuva começa devagar. Um ou outro pingo, aqui, ali. Um relâmpago irrompe o céu. Se ela se tornar intensa, devo me abrigar. Escuto o som do vento pelos becos e prédios vazios. Aquilo poderia ser assustador.

As lembranças afloram. Aquela escuridão faz eu me lembrar das primeiras lições militares nos túneis da periferia de São Paulo.

A periferia é deficiente de tudo. A rua mostra a identidade também na pouca iluminação. Aqueles holofotes da delinquência, dos vagabundos e rebeldes, sempre perrengues. Estou na chamada Cidade Baixa, na faixa marginal. Mesmo à noite, é possível perceber o desequilíbrio entre uma e outra. A Cidade Alta está lá, não muito longe, mostrando todo o seu brilho e promessa de vida melhor. Às vezes penso que Porto Alegre se transformou em um lugar estranho. Sinto como se vivesse em um simulacro, uma grande, enorme sala de testes.

Aproveito para digitar no teclado holográfico do pulso esquerdo o relatório para a central. Mesmo sendo um trabalho extra, devo me reportar ao comando da corporação.

 

Relatório 12-09: Em perseguição. Cidade baixa – Distrito da Divisa. SK3476 está próximo.

 

Mais um estrondo forte. Agora, a chuva se intensifica.

A placa capenga indica: Poupart-Lafarge. A antiga estação de metrô porto-alegrense do final do século XXII tinha os trens a hidrogênio. Eles eram considerados a esperança da humanidade em limpar a atmosfera dos gases tóxicos. Aquilo funcionava quando o hidrogênio era queimado com oxigênio para produzir grandes quantidades de energia, com o único subproduto sendo água. Uma luta perdida contra as grandes corporações. Um desastre total.

Essa estação é uma das poucas que ainda mantêm os túneis intactos, ligando os portais transportadores do solo porto-alegrense.

Poucos vêm aqui e a maioria que vive nessa zona, desconhece qualquer outra cor senão a cor cinza do asfalto e do cimento desses prédios milenares.

Logo na descida, noto a ferrugem na escada rolante. Aqueles mecanismos carcomidos, esquecidos na escuridão do subsolo. Poucas pessoas andam pelos subúrbios, na superfície. Depois de decretada a Lei dos Limites, apenas as áreas onde os portais se mantêm conseguem ter o ar da graça de um ser humano. Sequer existe vegetação nessa faixa de divisa. Já me questionei diversas vezes porque os governantes da cidade alta mantêm a cúpula a cobrir essa área, por que não deixam o pessoal morrer sufocado pelos gases da noite. Talvez, tal decisão não seja humanamente aceitável. Ou talvez sejam sádicos por satisfazer-se com a morte lenta.

Vejo as sobras de um hydrail. Na placa, em letras garrafais, o nome da companhia: AlscomTecBR.

— A decadência…

Eu verifico outra vez minhas armas. A minha pistola AK-3527 série M, uma arma paralisante. Contudo, me reservo o direito de desconfiar da minha sorte. Junto comigo, segue uma GAKT-731, uma desintegradora. Estou atrás dela há horas. É imperioso pará-la antes que ela tome um dos portais é chegue até São Paulo ou outra cidade, ou mesmo qualquer outro país vizinho.

A recompensa vale a pena e vai me livrar de preocupações durante algum tempo. Os passeios fora da cúpula que cerca a cidade são um daqueles vícios que não abro mão. Apesar de inóspita, a paisagem do lado de fora é surpreendente, especialmente à noite, longe da luz, quando se pode ver a extensa faixa leitosa da Via Láctea.

Aqui, no cinturão limítrofe, nem mesmo o céu é possível admirar. E apenas a polícia consegue conectar-se. As torres de transmissão e os drones conseguem manter a rede inviolável e segura.

Sei que é esse o caminho. Ela entrou aqui e daqui não tem volta.

Esbarro em um corpo.

— Que droga…

Um mendigo. Eles estão por toda a parte, mas esse caiu nas garras da criatura.

Sempre houve estriges entre nós. Agora, porém, elas são conhecidas por todos. Não sei se acredito na questão da magia. Dizem que elas são possuidoras de palavras mágicas capazes de transformações e criações estranhas. Eu, contudo, não me deixo levar por essas coisas cientificamente improváveis. Acredito, sim, na mutação sofrida por elas pela radiação ou pelo que os cientistas encontrarão ao longo do estudo fisiológico. Por isso, quero capturá-la com vida.

O barulho da chuva passa a ser um fundo musical.

Eu uso o identificador para verificar se ele possui placa. Todas as pessoas possuem um minúsculo condutor de dados abaixo da orelha. Ele nos é dado ao nascimento. A humanidade, depois de um rígido controle de natalidade onde o número de habitantes reduziu drasticamente, é controlada pelos indicadores de nascimento e morte. É claro, existe uma resistência. Ainda existe um grupo enorme que se nega a participar disso.

O visor ocular direito continua ligado. As informações piscando.

 

Rastreamento atualizado.
10:08:34. Dados completos.
Onda detectada.
Criatura próxima.
Posição: horizontal.
Distância: 55 metros.
Afastando-se.

Relatório 12-10: Alvo descoberto. Reportando encontro. Nona vítima. Assumpção, Pedro. 53 anos. SK3476 está próximo. Em perseguição. Cidade baixa – Distrito da Divisa. Estação Poupart-Lafarge.

 

Se estivesse vivendo dois milênios atrás, veria uma estrige provocar pânico, histeria coletiva. Ela seria considerada sobrenatural. Hoje, porém, o conhecimento faz o ser humano menos temeroso. As lendas e mitos morreram faz tempo. Assassinos em série, contudo, jamais deixarão de existir, assim como mutantes desse tipo.

Há certo conforto em pensar dessa forma. A vida ainda tem seu ciclo inalterado. Não ter esse privilégio da vida eterna, porém, nos faz querer mais segurança e certeza da velhice. Não vencer a morte, apesar de termos descoberto seu prolongamento em alguns tipos humanos, é o que faz avançar as pesquisas. Os mais sortudos acabam entediando-se, encurtando-a por vontade própria. Também não vencemos as barreiras ideológicas. Os rebeldes estão sempre a lutar por uma liberdade que, até onde se sabe, custou a morte de milhares.

O vulto que vejo se move rápido. Termina com a reflexão e me coloca de novo em posição de alerta.

Eu aumento a carga da arma. A sensação que tenho não é boa. Continuo o percurso para dentro da primeira galeria, à direita. Sigo em silêncio.

Ao chegar próxima do primeiro portal transportador, eu desativo as chaves de acesso. Ela não poderá utilizá-lo.

Sigo para o segundo. Estanco ao reparar que ela está bem em frente dele. Ela acionou as chaves. As portas estão abertas. Ela apenas está parada, a esperar por mim, eu suponho. Não entendo.

— Não sou sua inimiga.

As palavras saem distorcidas. Ela espera, talvez, que eu a compreenda.

— As pessoas que matou não eram suas inimigas tampouco.

— Trabalhavam para a SCORP. Estavam me caçando.

— Eu não acredito nessa mentira.

— Não posso impor isso a você. Eu sou o resultado de pesquisas seculares. A SCORP é apenas parte do grande quebra-cabeça.

Firmo o punho, apertando mais a coronha da GAKT-731.

— Você tem a chance de saber a verdade — ela continua — Basta acessar os nomes dos mortos até aqui. Pode fazer isso.

— Você os matou.

Dou um passo a mais em direção dela. A luz o monitor do portal pisca. Um minuto para o transporte.

— Estão testando novas armas biológicas. Posso ajudar você a entender o que está atrás das grandes corporações mundiais.

— Isso é mentira.

— Por que não acessa os nomes das vítimas e pesquisa melhor? — ela insiste.

— Não se mova.

Os olhos da estrige brilham de forma diferente. Ao som dos bipes de alerta de fechamento dos portais, ela se move.

Eu disparo.

 

 

Nota: Esse conto é uma segunda visão de Khala, a policial intergaláctica do conto Vampiros de Auras. Ele foi escrito como uma segunda visão de construção para uma história que está se desenvolvendo.

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