Pra baixo todo santo ajuda, pra cima a coisa toda muda

PRA BAIXO TODO SANTO AJUDA

 

Dorival chegou em casa com os ossos moídos. Um dia de trabalho de cão e um engarrafamento de quase duas horas. Quer mais? Sentia o peso da jornada da semana inteira. Era sexta-feira. O corpo mal se sustentava. Desgraçado do Fagundes! A memória do chefe veio a galope. Com os nervos em frangalhos e os ânimos nocauteados girou a chave como último recurso de felicidade: banho e cama. Sim. Banho e cama. As duas palavras que o acompanhavam nas últimas semanas, no último mês. O semestre já estava no fim.

A mulher já devia estar dormindo.

Girou a chave devagar, procurando ser discreto. A casa mergulhava na meia luz e aquele perfume diferente no ar… Mas que porra é essa? Um cheiro adocicado e intenso.

— Lila? — chamou em tom titubeante, querendo e não querendo réplica.

Esperou alguns segundos, mas somente o silêncio lhe devolveu resposta.

Dalila era uma mulher tranquila, mas exigente. Três vezes por semana almoçava com ele no restaurante perto do trabalho. Cuidava da casa. Gostava de ordem. Planejava o cardápio dos jantares. Cama limpa. Roupa lavada. Mensagens de carinho no Whatsapp. Beijos, abraços. Banho e cama, repetiu em oração.

Largou a maleta de couro em cima do sofá e seguiu para o quarto com a imagem do chuveiro aberto, a água escorrendo em suas costas, o vapor.

Cruzou a porta e estancou. Dalila estava de joelhos no meio da cama enfiada em um lingerie vermelho segurando na boca uma cartela de camisinha e, nas mãos, uma echarpe de seda. A iluminação vinha de um amontoado de velas coloridas espalhadas pelo quarto. Todas acesas. Senhor do céu…

Permaneceu calado e se aproximou indeciso. Tinha esquecido alguma data? Que dia era mesmo? Tudo o que não queria era iniciar uma discussão. Dalila nunca fizera extravagâncias. O sexo era contido. Os desejos, camuflados.

Ela jogou a echarpe, enlaçando-o pelo pescoço, e o puxou para perto da borda da cama. Largou a cartela de camisinhas e puxou-o para perto.

— Oi, amor…

Ela abocanhou sua boca. O beijo que ele devolveu foi tímido. Ela sequer reparou no cansaço cobrindo sua face, decorado pelas olheiras fundas e olhos caídos.

— Hora da diversão — disse num cantarolado de pura desarmonia. — Hoje é uma data especial.

Concordou com a cabeça e buscou na memória. Primeiro beijo em fevereiro. Namoro de anos. Noivado em maio. Pressão dos pais. Casamento em outubro. E estavam em julho. Alzheimer precoce. Só poderia ser isso.

— Está preparado?

Claro que não! Entreabriu a boca. Ele não estava preparado para aquilo. Quem estaria preparado para uma situação inédita? Não depois daquele dia. Um dia estafante. Nem sabia se estava no mundo. Tudo o que queria e precisava era descansar. Dormir. Dormir o sono dos justos. E quem era aquela mulher? E o que queria? Sexo. Orgia. Sua mulher nunca havia feito movimento algum em direção de uma noite mais… Erótica. Pensou naqueles livros que ela lia. Só pode ser isso. Não havia outra explicação.

Dalila retirou a gravata.

Ela cantarolou Slave to Love. Nove e meia semanas de amor. O pensamento vagou pelos idos noventa. Sequer tinha a lataria de Mickey Rourke e Dalila precisaria de muita plástica para chegar aos pés de Kim Basinger. Como você é arcaico… Estava perdido.

A esposa desabotoou a camisa e jogou-a ao chão. Trouxe-o para mais perto e desafivelou o cinto. Ela desabotoou a calça com a morosidade de Jurema, a tartaruga de estimação da sogra.

— Lila… — implorou, mas não pelo que ela queria.

O sorriso escapou dos lábios vermelhos. Desde quando ela usava batom daquela cor? Vasculhou na memória mais uma vez. Ela era de escorpião. Enfatizava isso o tempo todo. Como esquecer? Não fazia sentido. Novembro estava mesmo distante. Que caralho…

Cansado demais para lutar, ele decidiu retirar os sapatos.

— Vem — ela o conduziu para a cama e amarrou suas mãos com a echarpe. Ele não disse não, mas como dizer? — Preparei tudo isso para você. — Aí, morava o perigo. De fato. Ela prendeu a echarpe na cabeceira entalhada, onde havia o vazado da madeira.

Tarde demais. Sim. Tarde demais para ele. Dez minutos para morrer. Lá estava. Atado à cama e Dalila sentada sobre seu abdômen.

Olhos fixos nele. Abriu o zíper. Puxou a calça para baixo junto da cueca. Olhou com um misto de carinho e pena para o pênis murcho e Dorival sentiu-se o último dos homens na face da terra.

— Oi, pequeno! — ela exclamou.

— Pequeno, mas cavocador — tentou uma reação e depois se arrependeu de ter dito. Como, em sã consciência iria tornar aquela peça enrugada em um exemplar másculo e potente naquela noite especificamente? Se seu pênis tivesse nome de filme não seria ‘Duro de Matar’. Duro de erguer.

Ela sorriu. Lançou as calças para trás e escorregou por cima dele imitando os movimentos de uma cobra. Beijou a sua pele, próxima da virilha. Tocou em seus músculos tensos. Vez ou outra, Dorival percebeu Dalila contemplar o pênis. Aquela massa mole e sem força.

Ela seguiu beijando o abdômen, o peito, o ombro, o pescoço, até ficar com o rosto bem próximo do seu.

— Ele não se mexeu, Dodô.

— Não sei se dará sinal de vida, Lila. — Resolveu matar a fantasia, aí, naquele começo. — Me sinto um trapo. Mas pense pelo lado bom. Ainda estou aqui, ao seu lado.

— E você acha que isso é viver?

— Nem tudo, na vida, são flores, meu avô dizia. É preciso aceitar os espinhos.

— Seu avô morreu sozinho e na miséria, não se esqueça disso.

— Tive um dia insuportável, Lila — argumentou com voz lamentosa. Talvez o dengo causasse compaixão. — O Fagundes está reorganizando todo o sistema de cadastramento. — Suspirou. — Eu estou lutando para manter o emprego.

— Tanto quanto luta para me presentear com um orgasmo? Sei…

— Não seja tão ingrata.

Ela não respondeu. Levantou-se e seguiu para a penteadeira. Juntou o hobby de seda e enfiou-se nele. Calçou os chinelos e seguiu para o closet.

Dorival observou a cena, calado, com o medo estrangulando a garganta. Depois, olhou para o teto e refletiu sobre os infortúnios daquele dia. Talvez devesse tentar. Fazer um esforço maior.

— Por que não volta aqui, Lila? —Foi rápido em entoar um pedido impulsivo. E se não conseguir? Paciência.

Ela surgiu na porta. A languidez do olhar o fez sorrir da desgraça. Ela segurava um chicote curto em uma das mãos e na outra um par de algemas.

Que merda. Se arrependeu.

Em movimentos lânguidos, ela substituiu a echarpe pelas algemas e ele não ousou demonstrar desconfiança.

— Por que está fazendo isso? — Desconhecia a mulher dentro da pele da esposa. Dalila tinha sido abduzida.

— Não podemos inovar?

— Nosso relacionamento não corre tanto perigo, corre? — Corria, mas não via a necessidade de se fazer algo tão fora da rotina. A rotina que ele amava e que o jogava em uma posição confortável.

Ishtááá. O chicote crepitou no ar interrompendo seu pensamento e, na segunda vez, estalou perto de seu insubstituível e enrugado membro copulador.

— Dalila!

— Você devia prestar mais atenção às entrelinhas — a voz da mulher soou ameaçadora. — Nossa vida precisa de um plus.

Aquilo vibrou como frase de seu chefe e a indignação desatou o nó da garganta.

— Eu nunca entendi essa coisa de entrelinhas e você casou comigo sabendo disso.

— É verdade, Dodô. Talvez eu tenha escolhido mal.

— O que está querendo dizer? Depois desses anos todos? — Sentia a boca seca. — Nosso casamento não é nenhum conto de fadas, mas não pode ser considerado ruim. Eu não o considero ruim. Eu gosto do que temos.

— Mas não temos nada! Não há emoção. Não há diversão. Não há perversão.

Então era isso? Dorival, boquiaberto, mal conseguia ver, em Dalila, a suave e charmosa criatura pela qual se encantara sete anos atrás. Depois desse tempo de convivência, era isso que tinham? Um aborrecido e insosso casamento?

Ela tomou uma das velas do criado mudo.

— Mas sempre se pode consertar, Dodô. — Os olhos brilharam como se a esperança a visitasse. Largou o chicote e pingou a cera quente no peito de Dorival. Ele não conseguiu abafar o grito.

— Que merda! — Puxou o ar. — Pelo amor de Deus, mulher. Isso não!

— Vamos lá, amor… — Ela acavalou-se sobre a barriga. A vela dançando sobre o peito peludo. — Faça um esforço. — Ela pingou mais uma vez. — Grite que me ama. Que me quer… — Arranhou o peito dele com as unhas. — Vamos viver um momento de êxtase. Quero sentir como nunca. — Ela se pôs afoita, massageando o seu último reduto de masculinidade.

Ele sentiu as mãos da esposa, sua amada e tão recatada Dalila, mas não conseguiu visualizar seu pênis. A barriga se punha no meio como uma terrível inimiga.

— Lila…

Ela parou.

Percebeu a encrenca quando ela saiu de cima dele e largou a vela no criado mudo. “Terapia de casais. Já considerou isso?” Lembrou-se do que a amada tinha sugerido uma noite qualquer, em um jantar a luz de velas. Então, lembrou-se da data. Meu aniversário! Era tarde demais.

— Amor…

Dalila não respondeu.

Ele chamou outras vezes.

— Lila…

Só o barulho costumeiro. Cabide no varal. Gaveta de bijuterias. Caixa de sapato.

Dalila saiu vestida do closet.

— Onde vai?

— Cansei, Dorival. Vou comemorar o seu aniversário. Sozinha — ela deu ênfase. — E não me espere para o almoço de amanhã. — A voz foi se perdendo perto da entrada.

Era sexta-feira. Fechou os olhos. Mas que m… Ouviu a porta da frente se fechar. Suspirou. Foi, então, que se deu por conta das algemas prendendo os pulsos.

— Dalilaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

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8 pensamentos sobre “Pra baixo todo santo ajuda, pra cima a coisa toda muda

  1. Amei. Muito bom. Leve, solto. Amarrou bem a história. Parabéns. É muito bom ler sangue novo na literatura. Agora, ficarei a espera de mais material. Deu um gostinho de quero mais.
    Quero mais, viu???!

  2. É um conto curto, porém, com um leve toque de humor e vários acontecimentos inesperados. Esta cena final que o diga.Gostei deste estilo que está adotando. Hahaha

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