Microcontos 71-75

71

MC71

Enquanto escrevia o capítulo final, o cheiro almiscarado perpetuou a lembrança da visita à catacumba do pai. Em gesto iracundo, totalmente avesso ao que pretendia, matou outra vez. Dessa feita, o personagem principal. Sentou-se à janela, para contemplar as nuvens da paisagem.

72

MC72

As crianças escapuliram depois da travessura. A horta era  novidade. Em suas carinhas angelicais não entendiam o emaranhado mundo adulto. A prova do crime foi um pedaço de estrume no tênis de Ariovaldo.

— De hoje em diante, Ariovaldo, só alimentos saudáveis.
Como castigo, a mãe o privou do glúten. A vida seria um inferno.

73

MC73

O equinócio o trouxera para a Biblioteca de Amara. A prateleira diante dele carregava o conhecimento de um dos séculos mais valorosos. Subdividida em fios de prata, revelaria a produção cultural de centenas de milhares de mentes. Refestelou-se. O primeiro fio tinha nome. Um palíndromo perfeito: SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS.

O lavrador diligente conhece a rota do arado.

74

MC74

Pescaria, momento sagrado, descanso, paraíso. Para ele essas palavras eram uma sinonímia. Enquanto requentava o tucunaré, limpava a outra panela com amônia e pensava na peregrinação dos colegas de escritório, um querendo passar a perna no outro para ocupar a vaga que ele deixara em aberto.

75

MC75

O som do disparo fez as pombas revoarem abobadas. O grito estridente quebrou a monotonia da, até então, olvidada praça. Depois do caos, um perpétuo silêncio. Por longas horas, ela permaneceu lá, ao lado do corpo estendido.

 

 

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