Nara

CONTO NARA

 

— Vem, Nara! Vem! — Ele a puxava pela camiseta, insistente. — Vem brincar! Vamos subir.

Aquele garotinho, conquista recente do parquinho e dono de um sorriso irresistível, não tinha mais do que oito anos e ela, mesmo não sabendo nomear, entendia a impetuosidade a bater no peito do amigo, incitando-o a explorar, porque o mundo, embora desconhecido, mostrava-se sedutor.

— Não! É perigoso. Você vai cair.

— Deixa de ser medrosa. Vem! Vamos subir e alcançar o galho pra balançar.

O garoto a instigava, querendo parceria para o empreendimento.

— É fácil. Vem!

Olhava-a, já longe, mas ela não conseguia ver senão a imprudência e a cena apavorante: ele, vencendo a subida pelas irregularidades, saltando do muro e agarrando-se ao ramo mais espesso. As mãos soltando-se do galho, não conseguindo segurar-se. Ele, despencando num baque surdo sobre a terra coberta pelas folhas da mangueira. A mãe, de olhos esbugalhados, gritando alto por socorro, enquanto erguia o pequeno do chão, cercada pela vizinhança. As outras crianças atônitas.

Viu tudo de forma estanque. Como se a cada piscada, um novo quadro se configurasse. Prenúncio de uma curta existência.

— Não sobe aí, Gui!

Puxou-o para baixo do primeiro patamar, meio arrastado, pelo braço, derrubando-o. A urgência em fazê-lo desistir da ideia de balançar-se falando mais alto.

Ele levantou-se movido pela raiva.

— Medrosa!

Foi de encontro a ela, as mãos batendo no peito, uma, duas vezes. Empurrou-a com tanta força na terceira vez que ela sentou de bunda.

Não se moveu do lugar. Olhou para os acontecimentos como quem relê a história de um livro, conhecedora do roteiro.

— Desce daí! — Advertiu mais uma vez. Quando ele subiu ao último patamar, ela virou-se para a Marleuze. — Mãe! — A mãe sorriu. — Mãe!

A mãe de Guilherme, sentada ao lado de Marleuze também sorriu, mas logo o pânico a tomou de assalto.

Imóvel, Nara apertou os olhos esperando o destino enganá-la. Abriu-os outra vez, desejando ter sido só um sonho.

Em choque, presenciou Guilherme despencar. Apenas os sons eram piores do que aqueles da visão. Os gritos amplificados da mãe de Guilherme fizeram-na tremer de uma maneira muito diferente. Aquilo era a realidade.

*  *  *

De longe, atrás da pilha de livros, não era possível distingui-la. Cabisbaixa, cabelos caídos sobre o livro, mergulhada na leitura como se o tempo houvesse parado.

— Nara! O que tá fazendo aqui? Procurei por você na escola inteira!

Maria Eulália se sentava ao seu lado, puxando a cadeira, jogando a mochila no chão.

A bibliotecária cerrou as sobrancelhas e ficou encarando as duas.

— Sobre o que está pesquisando? Não me lembro de termos alguma tarefa.

— Curiosidade. Apenas isso.

— Deixa eu ver. — Tirou o livro das mãos de Nara e leu em voz baixa. — Hécate, também chamada de Perseia, deusa da terra, das encruzilhadas, da magia, blablabla… — Abriu um sorriso maroto. — Foi criada por Perséfone, a rainha dos infernos… — Fechou o livro, batendo a capa dura e encarou Nara. — Sério isso? Tá estudando magia ou algo assim?

Nara puxou o livro de volta e tornou a abri-lo.

— Eu já disse. Curiosidade. Quero saber mais sobre Mitologia Grega.

— Não é a toa que você tem aqueles apelidos estúpidos. — Deitou-se sobre os braços, em cima da mesa, empurrando os livros, esticando-se. — Vai demorar?

— Só mais um pouco.

Vinte minutos depois, Nara fechou o caderno de anotações. Alinhou os livros e cutucou a amiga.

— Até que enfim… — Maria Eulália ergueu-se, arrumando a cadeira e juntando a mochila. — Esse lugar tem cheiro de passado.

Nara seguiu em silêncio. Era melhor não retrucar.

*  *  *

O jeito sério vinha desde o nascimento, muito embora ninguém pudesse afirmar. As pálpebras mal se mexiam e duas pedras luminosas castanhas mergulhavam no outro. Sabia do passado – conseguia ver o que o sujeito tinha feito – e projetava as ações no presente. Então, e só então, vislumbrava o futuro. Era sua sina. Alguns diriam ser um dom, mas depois de alguns anos, a palavra usada por Nara era mesmo fardo.

─ Esquisita! Esquisita! ─ Os primos postiços pulavam ao seu redor e cantavam, como um mantra. Era isso ou outro adjetivo maldoso como toda a criança ‘diferente’ carrega ao longo da infância indefesa.

Crianças, por mais que queiramos encobrir com nossos discursos justificados, sabem ser cruéis com outras quando não há similaridade. E não havia criança igual a ela, nenhuma tão introspectiva e intrigante.

*  *  *

— Ela está conosco desde bebezinho — a freira apontou para a menina. — Foi encontrada em uma encruzilhada, no interior de Borda da Mata, dentro de uma caixa de papelão.

— Que crueldade. — O homem apertou a mão da esposa e lançou um olhar de ternura.

— Pobre criança indefesa! Ainda bem que cresceu junto da irmandade.

— Enrolada em um cobertor puído. Sobreviveu por um milagre — apontou a outra religiosa. — Nós a batizamos, mas poderão registrá-la com vosso sobrenome.

— Isso será maravilho, não é amor?

— Ela já sabe ler e contar — acrescentou a freira. — Está adiantada.

Assim prosseguiu a conversa com as freiras da ordem de São José, de Pouso Alegre, um grupo respeitado na região. Depois de um tempo de da solução dos trâmites legais, foi resgatada do Orfanato do Coração Venturoso e cresceu como filha única na família modesta de Marleuze Montes e João Silvério Jobim.

Naquele ano, bem antes das outras crianças, mudou-se com a nova família.

*  *  *

Cheia de cuidados e carinhos, mas igualmente cheia de deveres, esse ficou sendo seu nome, no final: Nara Montes Jobim.

─ Você é nossa boa sorte.

─ Ele disse que eu sou adotada.

─ O destino a colocou em nosso caminho, Nara. Nós amamos você.

─ Eu sei, papai.

─ Esqueça os disparates das outras crianças. Elas pouco sabem da vida. Pode fazer isso?

─ Claro, mamãe.

Marleuze e João faziam tudo por ela e o amor acabou vencendo as grandes diferenças físicas que os separavam.

Adjacente à seriedade muda, cresceram a introspecção e um conhecimento peculiar, o qual não encontrava listado nas enciclopédias, ou livros de pesquisa da biblioteca do pai. Mergulhava dentro de si, buscando um conhecimento que, os ‘de fora’ jamais alcançariam. Pensamentos e sentimentos analisados, mesmo na tenra idade, naquela ingênua visão do cotidiano.

Nos primeiros anos, forçava a leitura das imagens vindas à mente ao se deparar com novos amigos.

— Você não vem brincar?

— Não! É perigoso. Você vai cair.

— Deixa de ser medrosa. Vem! Vamos subir e alcançar o galho para balançar.

O garoto a chamava, mas ela não conseguia ver senão a imprudência do menino, vencendo a subida pelas irregularidades, saltando do muro e agarrando-se ao ramo mais espesso. Via tudo de forma estanque. As mãos soltando, não conseguindo segurar-se ao galho e despencando, num baque surdo sobre a terra coberta pelas folhas da mangueira. A mãe, de olhos esbugalhados, gritando alto por socorro, enquanto erguia o pequeno do chão, cercada pela vizinhança. Nara, imóvel, perto do parque, esperava pelo tempo vir e tudo acontecer.

— Não sobe aí, Gui!

— Medrosa!

Não se moveu do lugar. Olhou para os acontecimentos como quem relê a história de um livro, conhecedora do roteiro.

Parada, presenciou a concretização de tudo. Apenas os sons eram piores. Os gritos amplificados da mãe de Guilherme fizeram-na tremer de uma maneira muito diferente. Aquilo era a realidade.

*  *  *

Os lampejos vieram mais intensos com a idade, carregados de gente e acontecimentos e, por mais que se esforçasse em não querer vê-las, voltavam insistentes e mostravam a reserva destinada a cada conhecido, amigo ou familiar a cruzar seu caminho em determinado momento.

─ Tia Júlia está doente.

─ Por que está dizendo isso, Nara?

─ Ela me parece doente. — Disfarçou, olhando novamente para as figuras da revista.

─ Não diga uma bobagem dessas.

Carregar a certeza da morte todos conseguiam, afinal. Vislumbrar a morte, no entanto, era tarefa árdua. Trabalhou com afinco para isso. Com o tempo, aprendeu a ler o mundo e aceitar a carga imposta. As lições religiosas davam-lhe suporte. A vida lhe dera aquela atribuição e esforçava-se no entendimento. Não questionava mais e passou a deixar acontecer, como se fosse algo natural, próprio dela.

A adolescência passava com rapidez. Chegar ao final do Ensino Médio fora uma trajetória solitária, mas ao longo da puberdade aprendeu a ler o mundo em sigilo ainda maior, e em todos os movimentos e flashes imagéticos.

As percepções de Nara lembravam o resultado das fotografias ou desenhos em um daqueles instrumentos antigos de girar, cujo nome driblava a língua. Mostrado pelo Sr. Cruzvaldino, homem de muitas letras e diretor da escola politécnica, aquele mecanismo continha o princípio da gravação das imagens pela persistência na retina. Ela parava, fixa em alguém, e as imagens saltavam, dançando à sua frente, num filme mudo e tenebroso. Ação e reação de um personagem do mundo real. O presente sendo lançado pelas decisões e o futuro, mostrado logo a seguir, em uma sequência de desastres mortais.

— Fenacistoscópio… — Eduardo, a paixão platônica de sua vida, pronunciou a palavra, intrigado com a construção.

— Sim! O princípio do cinema — concluiu Procópio, atuando naquele dia como professor substituto.

Enquanto o catedrático falava, admirava o jovem pelo qual o coração falava mais alto. Quase dezoito anos e paixões ausentes a não ser por ele.

Mantinha aquele sentimento contido desde a primeira vez que o avistara, dois anos atrás, junto dos colegas de classe. Rapaz vindo do interior. Tímido, mas de caráter firme, não participava das brincadeiras mal intencionadas do grupo.

Naquela aula da metade do semestre viu Eduardo em grande resolução, como em uma tela de cinema, em outro lugar e tempo. Uma discussão, ele segurando uma chave, o cronômetro marcando, Paulo e Fernando, outros rapazes do grupo, acompanhando-o. Depois, ele dentro de um automóvel em grande velocidade, em uma rodovia qualquer. A corrida, a curva e mais uma reta. Ele, dentro do veículo a rodopiar no ar, batendo contra um barranco e deslizar faiscante sobre a pista.

Nara sobressaltou-se com a visão do professor, encarando-a. A turma toda a rir da cena.

— Está sonhando acordada, senhorita?

— Desculpe, professor.

— Como eu dizia…

As explicações sobre a matéria continuaram ecoando pela sala. Apenas Nara não conseguia mais acompanhar a dissertação. Pensava em Eduardo e nas visões. Pensou na injustiça da vida e ponderou, dessa vez, alertar o rapaz. Talvez Maria Eulália, amiga do colega, pudesse ajudar. Maria Eulália era uma amiga especial, a única.

*  *  *

Diante de Nara, encontrava-se uma melhor amiga muito mais incrédula do que compreensiva. Depois de contar sobre a ‘visão’, recebeu o silêncio e um olhar de estranhamento. A amiga sequer piscava, incapaz de aceitar aquilo como algo verdadeiro.

— Diga alguma coisa, Lalaia. — A preocupação já batia na garganta de Nara. — Você é minha amiga. Nunca contei isso para ninguém.

A moça fechou a boca e estreitou os ombros.

— Quer que eu diga o quê? — Ela continuava parada, em frente de Nara, no meio do pátio da escola. — Isso é…

— Loucura. Eu sei. Mas não é a primeira vez. E é a pura verdade.

— Quer que eu acredite que consegue prever o futuro das pessoas só olhando para elas?

— Só olhando para as pessoas? Não. Não é bem assim.

— Então, explica como acontece. Porque até onde eu sei, o Eduardo está bem aí — apontou o dedo em direção do garoto. — Ele não me parece doente ou…

— Eu não o vi doente. Eu o vi envolvido em um acidente. É bem diferente. E eu não sei como acontece. Apenas, acontece. Não é sempre e não é com todo mundo.

— Eu não acredito nessa história de premonição. Isso é coisa de filme, sabia? Sem falar do perigo.

— Perigo de que jeito?

— Você pode acabar em um hospício, em alguma instituição psiquiátrica, igual ao meu tio. Presa para sempre. Eles vão colocar uma camisa de força em você e nunca mais vai sair.

— Seu tio também tem essas premonições?

— Premonições? — Maria Eulália a encarou. — Não! — Ela sorriu. — Meu tio fala sozinho. Vê espíritos por todo canto. Ouve vozes. Tem delírios de não saber onde está.

— Não é o que acontece comigo. Eu só… — Buscou as palavras certas para reforçar — Tenho essas visões do que vai acontecer com as pessoas.

— Pare de inventar essas coisas! — A amiga adolescente abria a embalagem e oferecia parte do lanche para Nara. — Essa coisa de enxergar os mortos, não é normal.

— Eu não enxergo os mortos. Não é isso.

— De qualquer maneira, não dê chance ao azar. — A amiga a cortou, enfática.

A possibilidade de ser considerada maluca fez Nara estancar. Sequer considerou, em algum momento, ser trancafiada em alguma cela para loucos. Ela não era maluca. As visões eram reais.

— Talvez tenha razão – concluiu. — Talvez eu tenha sonhado acordada.

— Eu tenho razão. Quem acreditaria nisso, afinal? — E ainda acrescentou: — Pare de falar essas coisas. Você já tem poucos amigos e eu não gostaria de ser chamada de maluca por tabela.

A conversa terminou ali, no intervalo, entre as aulas, dissipada por risos e conversas amenas e troca de olhares com os colegas de turma, numa paquera de pouco resultado para Nara.

Enquanto a manhã findava, os pensamentos se voltavam para como as pessoas teimavam em considerar o mundo como um lugar lógico, estanque, fechado para outras possibilidades. Nada de visões, nada de premonições, nada de coisas do mundo fantástico ou do sobrenatural. Existia um porquê de tudo existir.

*  *  *

Como ignorar o coração? Perguntava-se enquanto seguia para casa. Como deixar Eduardo seguir para um destino cruel? As dúvidas faziam a cabeça doer. Respirava ofegante e segurava os livros apertados no peito. As palavras de Maria Eulália ecoando a cada passada.

Ela seria considerada louca? Fora de si? Uma desvairada que saía por aí a prenunciar acidentes e mortes, como se pudesse antever essa sombra macabra sobre os ombros das pessoas? O fato é que ela via mais ou menos desse jeito. As imagens não escolhiam data ou hora. Elas vinham até ela de uma maneira pungente. Não havia escapatória.

Mas era Eduardo na visão, e não qualquer pessoa. Era aquele garoto que a olhava de forma discreta e cujas palavras saiam tímidas quando junto das meninas. Aquele pelo qual nutria uma afeição verdadeira, apesar da timidez.

Pensou nos ensinamentos das freiras. Pensou em Marleuze e João. O que diriam seus pais dessa história toda? Como explicar para eles o que acontecia com ela? E o hospício? Será que ela seria arrancada de sua vida mesmo dizendo a verdade?

Aquilo poderia ser considerado um superpoder nos quadrinhos, mas naquele momento, a agonia martelava a palavra infortúnio. Sentia-se desgraçada por carregar aquele fardo que mal dominava ou sabia como teria fim. Se é que teria um fim.

O rosto de Eduardo emergiu às avessas. A saliva escasseou. Sequer as pessoas apressadas fizeram-na se mover do lugar. Estacou lá, no meio da calçada, por alguns minutos, decidindo a próxima ação.

Jamais uma decisão fora tão difícil.

Não poderia esperar mais. Tomou a direção contrária e seguiu apressada. Sabia da espera de Eduardo pelo ônibus escolar em frente à escola. Ao avistá-lo sozinho, agradeceu aos céus. Talvez conseguisse se explicar e evitar uma tragédia.

O rapaz sorriu ao vê-la e Nara não hesitou um segundo. Despejou as palavras sem preocupação, contando sobre as visões e, em específico, sobre as visões a respeito dele. Viu o semblante de Eduardo mudar aos poucos, à medida que a revelação acontecia.

O sorriso do jovem foi fechando. Nara sentiu o calor subindo pelas pernas. O estômago apertou. A sensação de vermelhidão na face tornou-se cada vez mais intensa.

Não o deixou falar. Foi despejando palavra após palavra. E a última frase, soltou-a decidida.

— Só peço para não entrar naquele carro.

Deu meia volta e correu.

*  *  *

À noite, após o jantar com os pais, as visões da manhã a assombraram. Ainda sentia-se chocada com a reação da amiga e com a advertência de ser considerada maluca. Ela não desejava, em hipótese alguma, ser acusada injustamente.

Também dançavam à frente imagens de um Eduardo pasmado e, com total certeza, incrédulo. Era preciso enterrar o assunto para sempre e jamais mencionar as visões ao recordar a expressão no rosto daquele por quem se sentia atraída.

Carecia de uma boa noite de sono, porque tudo estaria diferente pela manhã. Suspeitava do afastamento de Eduardo. Talvez ele passasse a considerá-la esquisita, assim como alguns outros da turma. E Maria Eulália…

— Nara!

Ouviu a voz do lado de fora.

— Nara!

Largou o livro que mal conseguiu ler sobre a cama e correu para a janela.

— Desce! — Maria Eulália berrava do lado de fora do portão. — Desce!

Vestiu-se o mais rápido possível e desceu as escadas. Olhou para o relógio. Era tarde da noite, mas àquela altura, movidos pelos gritos da amiga, os pais já estavam de pé também. Passou pela mãe com um aceno rápido. Correu até a garota e abriu o portão para encontrar a amiga em prantos.

— Aconteceu um… Um acidente… Um acidente! — Ela repetia a mesma coisa. Tremia, e o choro fluía sem embaraço.

Nara a acolheu, levando-a para dentro.

— Do que está falando?

— A sua… Visão…

— Que visão? — perguntou a mãe, direcionando o olhar.

— Não é nada, mãe. Foi um sonho, e não uma visão. — Enquanto a desculpa sobreveio, a palidez brotou no rosto de Nara como as cebolas cresciam na horta cultivada pela mãe. Sentiu as pernas oscilarem e um calor anormal subir pelo tronco. — Só um sonho ruim.

— Eles perderam o controle do carro e agora…

— Querido, pegue um copo com água e açúcar — Marleuze dava as ordens. Ela fez a amiga sentar-se. Nara agachou-se ao lado dela, segurando-lhe as mãos.

— Eles m-morreram… — O choro vertia. Só os soluços cabiam naquela sala. — Eles… Todos morreram.

— Todos quem?

— Davi… Fernando… — A cada nome uma interrupção na fala na tentativa de conter o pranto. — Felipe…

— Como? Quando? — Nara não se conteve. Queria saber.

João Silvério trouxe o copo com água doce.

— Eles apostaram uma corrida. Eles…

Os pais de Nara mal respiravam.

— Eles derraparam na altura da encruzilhada… — Falava ao poucos, limpando as lágrimas das bochechas. — Depois da curva grande…

— E o Eduardo?

— Ele não estava junto. Ele não quis participar.

Nara emudeceu.

*  *  *

As aulas foram suspensas. O luto se abateu sobre os colegas e amigos. A cidade vestiu as cores da tristeza.

Nara acompanhou cortejo de longe. Maria Eulália caminhava junto dos pais, inconsolável. Ao passar, não conseguiu sustentar o olhar.

Pais, parentes e amigos serpenteavam pelas ruas, da quadra da escola até o cemitério. Apenas o barulho das passadas contra o calçamento adornava a manhã daquela quarta-feira, como se fosse um fundo musical para a dor.

Assim que os carros pararam nos portões do Cemitério Municipal, Eduardo colocou-se ao seu lado. Quieto, segurou-a firme pela mão. Em silêncio, aguardaram a retirada dos caixões, levados para direções diferentes, dividindo o séquito fúnebre.

Nara aceitou o gesto. Ter Eduardo por perto significava muito.

Enquanto observava a entrada das pessoas, pensava na grande responsabilidade que tinha e em como aquele dom inexplicável implicava na vida das outras pessoas. Talvez não fosse justo escolher. Ela poderia ter sido menos egoísta.

Nesse momento, Eduardo falou.

— Na última hora, eu me lembrei de você. Não quis encarar o desafio. Aquela disputa era uma bobagem.

Seus olhares se cruzaram.

Mesmo sabendo que Eduardo estava inteiro, três vidas haviam se perdido. Interferir no destino implicava em um preço e ela não sabia se conseguiria suportar o peso das escolhas. A vida parecia testar sua capacidade a toda hora.

Talvez não devesse entender aquelas visões como a sombra pesada de sempre.

Até aquele momento viver aquelas visões desequilibravam-na, tinha tiravam-na do eixo, destruído a rotina de normalidade de alguma forma. Porque pessoas têm rotinas e aquilo a fizera buscar formas de isolamento, seja na pesquisa, no silêncio, na busca de atividades solitárias, na leitura, como uma distração para não refletir sobre si mesma. Até então, rejeitava aquela condição que tinha desde o nascimento. Não só pelo pavor que lhe causava, mas porque só conseguia supervalorizar o ruim, a dor e o sofrimento como extensões de seu dom.

Ela não era diferente das pessoas. Sua capacidade de perceber o que estava por vir bem poderia ser explicada por todos aqueles estudos que ela mesma fizera sobre o desenvolvimento do cérebro, sobre pré-cognição, percepção consciente do futuro, ou mesmo premonição como uma apreensão afetiva do futuro.

— Você chegou em boa hora, Nara. — Ele segurou mais firme sua mão.

Talvez conseguisse encontrar alguma utilidade para aquele, até então, ‘fardo’ e, de alguma forma ajudar as pessoas.

─ Temos escolhas, afinal. Você escolheu bem. ─ Ela também segurou mais firme na mão dele.

Eduardo esboçou um sorriso tímido.

6 pensamentos sobre “Nara

  1. Já conhecia esta pérola e agora aumentado ficou ainda mais legal. Muito bem, cara amiga. Continue escrevendo. Não sou a Nara mas vejo sucesso em seu futuro. Beijão.

  2. Um conto bem trabalhado. As idas e vindas da vida de Nara deixam mais claro como ela se sente com as visões e como a vida dela foi até o momento final. Arrisco dizer que poderia se transformar em uma história maior.
    Muito bom.

  3. Simplesmente indescritível, não consigo ordenar a linha do meu raciocínio, afinal, acabo de ler um conto maravilhoso. A trama é absurdamente envolvente, e foi capaz de me deixar com aquele “gostinho” de quero mais. Meus sinceros parabéns.

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