17h30

CAPA PARA CONTO 17H30

UM

Numa cidade pequena de rotina invariável, a música e a musculação tomavam o tempo de Fábio longe da fábrica. Frequentava sem compromisso os aparelhos do parque próximo da Brigada Militar depois do horário, até o dia que conheceu Marina, num encontro desastrado perto das barras de flexões.

— Desculpe.

— Desculpe também. Que tonta eu sou.

Azuis e verdes colidiram naquele final de tarde de verão e o lugar ganhou uma dimensão muito maior.

— Meu nome é Fábio.

— O meu é Marina.

Desse momento em diante, os finais de semana perderam a graça. A semana transformou-se num suplício. A sexta-feira nascia com pressa. O almoço, atropelado pela urgência da tarde. E na corrida até o parque seus pés ganhavam asas.

Houve um dia em que o mundo parou por completo. O encontro foi além da troca de olhares e sorrisos breves. A regata e o calção deixaram o universo irretocável. Ela reparou na serpente da perna e no lobo e tigre dos braços.

— Tatuagens! Sempre quis fazer uma.

— Foi por impulso.

— São bonitas.

A despedida foi um misto de “fica mais um pouco” com “vamos nos ver de novo” presos no olhar. Porém o silêncio comeu as palavras e comprometeu o futuro. A semana passou. E outra a seguiu. O suspiro vinha junto com um gesto quase que mecânico.  Segurava o crucifixo buscando alento.

 

A sexta-feira aconteceu como sempre. O exercício foi interrompido no instante em que Marina cruzou o lugar. Mesma hora, mesma direção. O sorriso discreto oferecido por ela cobriu de rosa a brancura do rosto. O lobo e o tigre saltaram dos braços e a serpente apertou a perna. Sentiu o calor de um veneno perigoso tomar o corpo e seguiu a silhueta que sumiu na curva da esquina. Desta vez a insegurança não o nocautearia.

Saiu do parque na corrida. Passou pela frente do prédio da Brigada. Diminuiu os passos. Viu Marina na parada de ônibus. Tinha mais alguém com ela.

Fábio acelerou a corrida querendo acompanhar o coração que saltava da boca. Passou por Marina e tentou ser discreto. Seu olhar, contudo, não o perdoou. Entalhou cada pequeno detalhe da cena em suas retinas. O rapaz que a acompanhava abraçava-a pela cintura. Duas bocas mergulhavam uma na outra se esquecendo do mundo.
Aquela sexta-feira terminava de um jeito estranho. Driblou a vontade de acomodar-se. Parou na esquina, olhando para trás, fixando-se no casal. Teria que exercitar o cérebro, mais do que o corpo, se quisesse mudar aquela situação.

As nuvens encobriram o céu repentinamente e choveu.

 

 

DOIS

Ele sofrera com a traição. Não queria vivenciar os dissabores dos desenganos amorosos.

Lembrava-se de Marina e o medo e a dúvida cresciam.

— Como conquistá-la?

Fábio fazia a pergunta diante do espelho.

Júlia, cujo cabelo longo e negro lhe prendia em pensamento, foi a primeira a traí-lo. A segunda foi Elaine. Negra e de olhos castanhos reluzentes, fazia sua lógica dar voltas toda vez que lhe tocava a pele. Vera o trocara por Sheila. O charme da ruiva morava naquelas sardas imprecisas que o faziam sonhar.

A semana passou e a sexta-feira sobreveio no final de uma espera sofrida. Marina passava e carregava consigo a luz do dia.

— Oi.

Ele avançou numa dança imprecisa, no começo, mas paciente. Afastou os pensamentos negativos.

Perdera Júlia para Moacir, muito melhor de lábia. Naquele dia, nascera a vontade de ser mais esperto. Entendera que a força, nada significava, mas a perseverança o faria realizar grandes feitos.

Marina era meiga. Seu estômago contraiu-se. O peito doeu.

— Oi.

Ela retribuiu o cumprimento olhando-o fixamente. O tímido Fábio deveria esconder-se sob o disfarce perfeito. Ele ensaiara diante do espelho a semana toda. A fala, engasgada pela urgência, quase não saiu.

— Está atrasada.

A frase fisgou o movimento e o sorriso da moça. Ela parou para que ele a alcançasse.
Lembrou-se de Elaine que se encantara com a beleza de Paulo, vilão de seu segundo romance. Depois daquilo, desejou audácia e impetuosidade.

— Você é persistente.

Ela apontou para os aparelhos de ginástica. A voz de Marina traduzia-se como um coro celestial.

— Os exercícios me fazem bem.

Duas pérolas azuladas miraram a esquina em angústia, mas o corpo delicado dava sinais de querer ficar.

Com Vera, ele entendera a necessidade urgente de conhecer as sutilezas de quem o cercava. Precisava ser lógico e desenvolver um método. Quiçá, assim, pudesse vencer a angústia e a falta de confiança na própria ação.

— Compromisso inadiável?

O mundo girou ao contrário quando ela sorriu totalmente sem jeito. Fábio sentiu o ar sendo tirado dos pulmões. Ele estava apaixonado. Marina era encantadora.

— Espero que ele mereça.

As pernas fortes tremeram quando o rubor no rosto de Marina se fez visível. Precisava fazer algo ou perderia a oportunidade.

— Tenho inveja dele. O mundo não conspira a meu favor.

Ela afastou-se muito devagar, ainda sentindo as amarras do olhar de Fábio. Ele parou depois de segui-la até certo ponto.

— Tenho chance?

Recebeu um sorriso como resposta.

 

 

TRÊS

Marina não sabia explicar exatamente como tudo acontecera. A primeira vez, com pressa de encontrar Pedro, acabara distraindo-se e esbarrando no moço que corria em direção das barras de flexão. Naquele final de tarde, percebera a existência de Fábio. As tatuagens visíveis o diferenciavam de todos os outros rapazes que conhecia naquela cidade, pequena até no nome. Além disso, ele tinha um sorriso tímido e simpático.
Depois do esbarrão inesperado com Fábio, dera-se por conta que ele a seguia com os olhos. Todas as sextas-feiras, num marcar de hora preciso, estava ele lá, no parque próximo da Brigada Militar, exercitando-se nos aparelhos.

Sempre muito apressada para reunir-se com Pedro, nunca reparava com minúcia os detalhes do moço.

Naquele dia, porém, mesmo atrasada, ele a interpelou, surpreendendo-a.

O verde do olhar se mostrou mais límpido. Fábio pareceu mais alto e forte, e os cabelos se mostraram muito mais claros naquela luz do dia que terminava. A confusão instalou-se de súbito, depois daquelas frases pronunciadas, que lhe encantaram o ouvido pela suavidade.

“Espero que ele mereça. Tenho inveja dele. O mundo não conspira a meu favor.”
A cantada passaria insignificante, não fosse o que seguiu depois. Fábio interessava-se por ela, com certeza.

“Tenho chance?”

Foi então que se lembrou de Pedro. O ônibus passou.

Enquanto afastava-se de Fábio, o calor tomou de assalto o corpo. Sentia o rubor no rosto. Fábio despertara algo dentro dela. Perguntou a si mesma se o que tinha com Pedro. Não conseguiu elaborar uma resposta. Alguma coisa apertava dentro de seu estômago. Olhou para trás sem parar sua caminhada. A esquina tornou-se uma longa curva sinuosa para dentro de toda aquela vibração que sentira. A angústia cresceu.

Pedro esperava na parada do ônibus, andando de uma lado para outro. Não a abraçou como de costume. Nem a beijou.

— Você se atrasou. Onde diabos estava? Eu perdi o ônibus.

— É só um jogo de futebol, Pedro. Você joga todas as quartas e sextas-feiras.

— É só um jogo para você!

Marina estarreceu.

— Vai haver uma seleção, hoje — ele explicou. — E eu quero estar dentro. É minha chance de ir para a capital.

— Você não me contou sobre isso.

— Não contei porque sabia que seria contra.

— Pensei que eu fosse importante para você.

— Essa seleção pode decidir meu futuro.

Viu Pedro dar meia volta e seguir em direção ao ponto de taxi, deixando-a sozinha na parada do ônibus.

Ela prendeu o ar no peito e o mundo foi engolido por uma dor estranha e malvada.

 

QUATRO

A ciranda se formava. A vida brincava de roda.

Na saída de casa, juntou coragem e seguiu, marcando os passos, certa do que deveria fazer: uma conversa franca com Pedro, o amor de infância que jogara poeira em seus olhos. Ela não se via na posição de substituta. Entre o futebol e ela não deveria haver contenda.

Ensaiou o discurso enquanto descia a rua. Coração aos pulos apertava o estômago e a garganta. O peito, numa contração involuntária, esmagava cada centímetro de confiança. O mundo todo a observava, aguardando o final.

Lembrou-se de quando se conheceram. Festa de aniversário de amigo em comum. As brincadeiras, a escola, as festinhas de final de semana, o futebol. Descia a rua e as memórias a levavam, assim como ela havia sido levada por Pedro em cada momento até o término do ensino fundamental. A festa de quinze anos. O ciúme, as outras e o primeiro beijo. A primeira paixão. A vontade pulsante de abraçar-se a ele. O ensino médio. Novos grupos e o cursinho pré-vestibular.

Ao cruzar as ruas mais lembranças arrancavam suspiros e enchiam o arcabouço da alma de uma certeza maior: amava Pedro, seu primeiro amor.

— O único! — afirmou em voz alta, tendo como testemunha a mudez do muro do Estádio Municipal.

Ao passar pelo parque, avistou Fábio.

Dia errado, pensou. Ele se alongava, e nem era sexta-feira.

Fábio sorriu ao avistá-la. Parou de se exercitar.

Ela sorriu com a discrição do vento naquela tarde de estio. Não diminuiu o ritmo. Não daria chance ao azar.

Olhares cruzados. Bocas silenciosas. Ela se deixou conduzir pela imagem de Pedro. Queria chegar a tempo de ver o namorado antes de o ônibus chegar. Baixou a cabeça e apressou o passo, deixando a imagem de Fábio perder-se em sua memória.

Não era hora, afirmou para si mesma, não era hora.

Avistou seu amado assim que contornou o parque. Diminuiu o passo ao aproximar-se do grande plátano. O chão foi se abrindo e seu amor, engolido pela visão de Pedro com outra. Laís… A jogadora de vôlei do clube recreativo.

Pedro a segurava pela mão e Marina agarrava a surpresa e o nó na garganta. Parou a três metros do casal. A voz não saiu.

Junto com o casal, o ônibus carregou a alegria. A tarde terminava em azul deprimente, invadido por tons rosados e delirantes lilases. Marina acompanhou com o olhar a partida. Permaneceu alguns minutos na parada, ainda perplexa e atrapalhada.

Quando Fábio surgiu ao seu lado, não sabia muito bem em qual compasso batia o coração. O moço das tatuagens e dos músculos bem definidos ofereceu a mão e ela estendeu a sua em aceitação muda.

Seguiram juntos contornando o parque, subindo a rua do estádio, em cadência lenta e sincrônica. Marina segurava as lágrimas sem perceber o leve sorriso de Fábio.

2 pensamentos sobre “17h30

  1. Excelente! Um texto que permite ao leitor um envolvimento por ser bem descritivo. Leitura fluida e deliciosa! Um final sugestivo que fecha com chave de ouro. Parabéns, Evelyn! Achei maravilhoso!

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