Um céu diferente

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Sonhava com a Terra e lá estava, em meio a terráqueos, em um disfarce perfeito, em integração harmoniosa com engenheiros, técnicos aeroespaciais, toda a sorte de cientistas, pesquisadores. A cereja do bolo. Já pensava em expressões usadas pela raça humana. Interagia como se um deles fosse.

— Como consegue? — A voz de Marco fez o silêncio se dissipar e a atenção voltou-se para o jovem homem, vestido em um macacão inteiro, cujo distintivo colado do lado esquerdo do peito indicava pertencer à Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço. Tudo o que sempre desejou. NASA. Estar lá. Vivendo a emoção dos filmes.

— Como consegue o quê?

— Consertar e fazer essas engenhocas funcionarem, Adriel.

— É um motor de propulsão por reação. Esses circuitos estão integrados, percebe? — respondeu com sinceridade, porque considerava todo o sistema construído pelos cientistas da Agência de extrema simplicidade. Estavam muito longe de desenvolverem tecnologias iguais às de Agra. Se conseguisse infiltrar-se sem chamar muita atenção por mais tempo, talvez pudesse desenvolver algumas melhorias, apresentando algum estudo despretensioso para algum cientista de renome e, dessa maneira, proporcionar um avanço significativo dentro dos anseios daquela raça sonhadora. Porque, desconsiderando todas as demais necessidades humanas de sobrevivência, os terráqueos queriam mesmo era um CI-4, não importava muito com que civilização. Muito acima de vencer os limites do espaço, de desenvolver viagens seguras e rápidas, da exploração de novos mundos, estava a comunicação com raças extraterrestres. — O mecanismo é simples. — O que mais poderia dizer sem parecer pretensão de alguém novo, admitido sabe-se lá por qual empregado descuidado.

— Simples? Tá de brincadeira? Isto aqui é um foguete — bateu na lataria. — Vai levar um ônibus espacial.

— E é aí que pergunto. Você dirige esse ônibus espacial. Como consegue?

— É simples.

— Viu? É exatamente disso que falo.

Ambos riram. O trabalho não era fácil, mas compensador. Além do mais, estava na América, na tão sonhada América, muito perto dos hollywoodianos! Perto daquela cidade maravilhosa cujo objetivo era criar mundos imaginários. Os habitantes de Agra não tinham noção de diversão. O céu era azul, o mar era denso e o canto dos pássaros encantava seus ouvidos. Já estudara vários idiomas e falava fluentemente mais línguas do que tinha em sua boca, ao menos aquela que deixava visível.

— Está livre nesse final de semana? Estava pensando em fazer uma maratona de filmes de ficção científica. O que me diz?

— Tô dentro.

— Junte o básico. Serão três dias inesquecíveis.

Adriel alargou o sorriso só depois que Marco se afastou. Aquilo era mesmo um sonho.

 

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Sonhava com a Terra, com aquele distante, insignificante e pré-histórico corpo celeste de tonalidade azul, orbitando uma estrela decadente, habitado por seres estranhos e pouco sensíveis, cujo único prazer parecia ser a guerra. Definição dada pelo Governo Central, da qual discordava com veemência. Esse era o fato desestabilizador na vida de Adriel Alix. Fator de desajustes mínimos, no começo, e de disfunções físicas e emocionais, no ciclo atual. Sonhar com a Terra era seu céu e seu inferno.

Em frente à máquina, com as mãos apoiadas em seu corpo roliço e confragoso, Adriel olhava para as peças de uniforme em cima do suporte horizontal e batia o desalento. Tantas mãos e nenhuma vontade. Talvez fosse aquele serviço subserviente. Vestimentas e mais vestimentas. Uma dúzia de trajes sujos, camisetas com o Pato Donald, bonés com a estampa de Laika, Gagarin estampado nos agasalhos de mão.  Pensava em ter menos pares de luvas para lavar, ou pés de meia. Ao menos isso. Mas não… À sua frente, dezenas de pares de meia e luvas.

A condição na qual se encontrava não era favorável. A música de fundo, a trilha sonora de 2001, não poderia ser mais deprimente. Nenhuma odisseia no espaço superava o serviço doméstico e o atual envolvimento amoroso: consorte de oficial do grupamento tático aeroespacial, um Tenente-Coronel, membro honorável de um departamento do GC. Seu copulador era um sujeito importante.

Passava os dias com insatisfação latente, e carregava consigo o perturbado pensamento de arrastar-se por outras paragens, tão veloz quanto uma daquelas naves intergalácticas, mudando de condomínio. Nem as chuvas de meteoros perenes reluzindo no Sul, nem os eclipses sequenciais, ou as explosões multicoloridas e visíveis da nebulosa de Ensis conseguiam encantar de forma tão pungente quanto a Terra.

— O que tanto pensa? — Merabe, a vizinha de área de serviço, do compartimento superior da estrutura Vega8, possuidora de olhar intenso e de andar mirabolante, escorou-se no parapeito. Esticou o pescoço e esperou por uma resposta. Dona de peitos volumosos e de fala macia, ela carregava a fama de encantadora de mentes no turno da noite, na agência de marketing intergaláctico, onde sustentava, com orgulho, recordes imbatíveis de venda.

O suspiro de muitos pulmões saiu junto com o cansaço de eras. Adriel imaginava ganhar o universo se saísse daquela área na encosta superior do hemisfério norte de Agra onde os luxuosos edifícios empinavam seu nariz para a estratosfera. Uma perda de tempo pensar que o cônjuge poderia querer tal feito, já acostumado às missões aéreas extra-atmosféricas de última hora e o trabalho na Agência de Contra Inteligência Cósmica.

— Em nada, não — disfarçou o desgosto e tocou os botões de luz, fazendo o engenho funcionar.

— Não pode mentir para mim, amor. Sou especialista na minha área e meus dezoito sentidos me dizem que você ou está infeliz, ou está infeliz — e abriu um enorme sorriso, estampado em uma face pálida translúcida de olhar faiscante.

Adriel puxou o ar como se quisesse lançar toda a área de serviço em um vácuo silencioso eterno. Poderia continuar com a mentira, dizendo ser insatisfação pelo tanto de serviço. Não seria de todo uma mentira, porque odiava com todos os tentáculos lavar aquele tanto de roupa, mas de nada adiantaria. Até porque Merabe saberia.

— Estou infeliz e não há nada mesmo a ser feito. Você, provavelmente não entenda os motivos, mesmo lançando mão da empatia automática, porque eles dizem respeito a toda uma situação irreversível.

— Nada é irreversível no universo, meu bem. Isso já é matéria comprovada. E sou uma boa ouvinte. Talvez minha farta audição possa lhe trazer algum ânimo.

O som agudo do mecanismo a fez apertar o temporizador. Tempo suficiente para encontrar alento naquelas palavras e considerar a possibilidade de se abrir com a nem-tão-completamente-estranha vizinha.

— Sou uma criatura insatisfeita. Nasci no lugar errado. Meu mundo não é esse. Não gosto desse marasmo, dessa falta de aventura ou qualquer emoção; não pertenço a este lugar isento de ousadia, de paixão.

— Já entendi. Você quer é movimentar suas entranhas. — Merabe suspirou também, lembrando-se de quando a juventude a fazia estremecer, arrepiar as escamas, e pensar na eternidade sendo muito mais divertida com o passar do tempo. — Minha amiga Leonor, que morava na segunda lua de Myra, mudou-se para o interior da lua seguinte, para viver uma aventura nas profundezas da terra. Estava assim, igual a você. Desgostosa. Agora, copula com um único escavador há três ciclos e parece satisfeita. Talvez você deva fazer o contrário: encontrar vários copuladores.

— Não acredito que seja isso…

— Já pensou em inverter a polaridade do seu compartimento? Às vezes, funciona.

— Já completou dois ciclos da última inversão e nada mudou — disse e debruçou-se sobre a divisória e contemplou o horizonte. As muralhas e bolhas de proteção reluziam na passagem das luas.

— Você poderia trabalhar no setor de distribuição, onde teria acesso à reprodução dos produtos vindos de outras paragens. Armas analógicas, ajustadores de uniformes, aqueles incríveis capacetes de camuflagem do setor Sirius.  Esses dias andavam distribuindo gratuitamente uma cópia de um registro fonográfico, um disco de cobre folheado a ouro de 1.2 ESPs, com sons e imagens terráqueas. Eu considerei arcaico, mas os estudiosos apontam aquilo como uma raridade, pela variedade de combinações sonoras e ao pelo que denominaram idiomas.

— Interessante.

— Talvez, até, pudesse trabalhar no setor de arquivamento, na última lua — sugeriu, por fim. — As patrulhas cósmicas trazem coisas de todo o universo. Não sei se o seu copulador conta, mas meus clientes governamentais dizem que nunca se trouxe tanto objeto não identificado. Exploram os setores do leste e sul simultaneamente e em grande escala com espectógrafos e lançam as patrulhas de reconhecimento quando confirmam a existência de vida inteligente. Meu amigo Mical disse que a última leva foi trazida em caixas, e adivinha de onde? Da Terra. Centenas delas. Dessa vez, ao invés de estampas do pato falante, todas continham os tais objetos retangulares de um material identificado como C6H10O5, um tanto frágil em nossas mãos, com códigos gravados, e variados, alguns chamados de ideogramas, os tais livros.

— O pessoal da tradução sempre leva dois ou três ciclos para transcrever.

— Mas ele decodificou um a meu pedido e emprestou para mim. Não é nada demais. Uma história de um terráqueo solitário, um engenheiro especializado em consertar estações de locomoção, apaixonado por máquinas analógicas e digitais que correm sobre trilhos. Segundo Mical, uma viagem rumo à autodescoberta, uma espécie de história de nível psicológico avançado.

— Seu amigo deve gostar mesmo disso…

— Se pensar bem, cada um tem seu lugar nesse tempo-espaço, mesmo se considerar os desdobramentos e as camadas dimensionais. Impossível não haver um ponto específico para cada uma das criaturas existentes nesse mundão sem fim.

— Ainda não encontrei o meu lugar, então…

Comunicação para Adriel.

Uma tela transparente materializou-se bem à frente e, à medida que os pontos digitais uniram-se em tríade após tríade, a imagem de Alix, seu consorte, foi se completando.

Ainda estou distante, Adriel. Missão de averiguação. Não me espere para as trocas.

Fim da comunicação.

A tela se desfez e um tom escuro assombrou o semblante de Adriel. Imergindo no pensamento, esqueceu-se de Merabe e divagou sobre as distâncias entre seus desejos e a existência, ali, em Agra, um planeta de muitas luas, ao redor de uma estrela anã vermelha.

— Talvez esse anseio por mudança seja decorrente da nossa posição solar, da palidez da luz de nosso astro.

— Pode ser, mas mudar-me para uma das luas ou para outro sol não me fará mais feliz. Quero ares novos, cores novas, um céu diferente. Não quero ser mais um número, mais uma estatística, mais do mesmo. Pouco a pouco, fui percebendo essa despersonalização. Somos peças iguais de um mesmo tabuleiro. Ou seja, todas as nossas características são suplantadas pelo GC.

— O Governo Central faz o que pode.

— Mentira! — exaltou-se e, no mesmo minuto arrependeu-se e se recompôs. — Eu quero dizer… Veja por você. Quem realmente conhece você? Quem sabe exatamente o que faz, o que sente, o que deseja? É suportável se somos nós mesmos, então, mudar deve ser natural. Eu quero mais!

— Não me diga que andou fazendo maratona de filmes terráqueos. Isso não é bom, sabia?

— Por que diz isso?

— Você assistiu ao último filme do que eles chamam de ficção científica terrestre? Aquele sobre um primeiro encontro, onde lançam uma teoria na qual a estrutura e o vocabulário de uma língua são capazes de moldar os pensamentos e percepções de seus falantes e, por consequência, a cognição e a língua são inseparáveis? — Merabe ficou verde depois da longa fala. Logo, puxou o ar de forma barulhenta e soltou: — Que viagem!

— É por isso que quero mudar.

— Por causa da língua?

— Não, oras! Por causa da emoção.

— Não se iluda. Terráqueos são uma raça destruidora. Não conseguem sustentar o equilíbrio entre as naturezas. Não são pacíficos, tampouco tolerantes. Por que acha que nossos líderes apenas se divertem com as ideias tidas por eles sobre seres vindos do espaço? É só diversão. Seria uma perda de tempo interagir. Além do mais, nenhum dos que ousaram se misturar com eles voltou.

— Porque devem estar felizes — Adriel respondeu com a ansiedade apertando um dos compartimentos do estômago.

— Ou mortos.

Fim de discussão. Merabe retirou-se alegando compromissos inadiáveis e Adriel ficou a olhar para as roupas através do visor líquido da máquina sendo descontaminadas pelo plasma e, a seguir, pela luz de gás de núcleo de estrelas, de reação termonuclear, a iluminar cada partícula do material liberando o uso. Talvez não houvesse mesmo como aplacar seus desejos, e não poderia esperar que qualquer morador de Agra entendesse. Se tivesse vários copuladores, um deles poderia se sensibilizar com suas ambições, mas Alix não condescendia com suas ideias de viajar pelo universo ou instalar-se em qualquer planeta outro que fosse.

 

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A ajuda recebida de um subalterno de Alix traria consequências desastrosas para o consorte. Isso não intimidou a vontade. Tampouco a tremedeira inicial, advinda do medo de não conseguir camuflar-se o bastante e passar pelos detectores do campo de aterragem da base aérea militar, quando a espaçonave cruzasse o espaço, afugentou a emoção de seguir em frente.  O corpo se moldava ao ambiente apertado daquele compartimento. Contava com a ajuda de seus braços e pernas flexíveis.

Com um dos olhos grudados na pequena abertura circular, viu Agra em sua plenitude, com suas mechas de nuvens brancas cintilantes adornarem a extremidade oeste. Observou como a luz da estrela anã moldava a superfície em tons claros e escuros.  As luas surgiam enfileiradas, gasosas, sólidas, exuberantes em suas diferentes formas, com seus anéis, mantos gelados, crateras e partes brilhantes pela formação de compostos metálicos.

Não se esqueceria daquele cenário, afinal, era sua casa. Porém, a imagem da Terra e as possibilidades de existências e experiências suplantavam os muitos ciclos vividos aí.

— Hasta la vista, baby — pronunciou, imitando a voz de T-800 ao perceber que o piloto acionara a sequência de pulsos. A nave sairia daquele setor em questão de segundos.

Daquele momento em diante estava por sua conta e risco, como diriam os personagens. Não havia ponto de retorno. Sentiu o alívio esquentar suas entranhas. Não conseguiu pensar em nada mais cliché do que aquela frase da última projeção:

— Despite knowing the journey… and where it leads… I embrace it… and I welcome every moment of it.

Depois de algum tempo, parou completamente suas funções, entrando no modo de reposição de energia.

Sonhou com a Terra.

 

*  *  *  *  *  *  *

Referências (sem ordem):

1 Símbolo astronômico da Terra.

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2 Carl Sagan e o Voyager Golden Record, 1977.

3 Haruki Murakami – O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação.

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4 A Chegada, filme de 2016.

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5 O Exterminador do Futuro 2, filme de 1991.

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6 Alix, personagem de Jacques Martin, desenhista francês.

7 Adriel, na tradição judaica é um dos Anjos da Morte (ou destruição): Yetzerhara, Adriel, Yehudiam, Abaddon, Sammael, Azrael, Metatron, Gabriel, Mashhit, Hemah, Malach Mavet, Kafziel, Kesef e Leviatã. Fonte1.  Não obtive outras fontes confiáveis.

 

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