Jazz

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A primeira vez que o vi foi perto do beco onde ele supostamente morava. Não no bairro mais perigoso da cidade, segundo as estatísticas, mas beirando esse índice. Meus amigos me advertiram sobre circular por lá, mas a bem da verdade é que eu não ligava a mínima. Vivia uma fase conturbada e rebelde. Aos vinte e oito anos, pronto para assumir uma posição na empresa de meu pai,  queria sentir os últimos momentos de liberdade, porque sabia que, ao entrar por aquelas portas de vidro e aço, e assentar meu traseiro naquela cadeira confortável, todas as cores do mundo se perderiam no escuro daquele couro.

Eu percorri as ruas daquele arrabalde desprezando a mediocridade daquela paisagem. Janelas fechadas, fachadas sombrias, luzes tênues. O lugar não era senão o retrato do desprezo que seus habitantes tinham por ele. Isso eu pensava. As ruas, o a imagem do abandono, da pobreza e da depravação. Garotas e garotos oferecendo os corpos para os carros que por ali circulavam sem vergonha em satisfazer as carências. Coisas que o dinheiro comprava. Corpos que o dinheiro ganhava. A escuridão das vias refletia as almas. E eu queria embrenhar-me por aqueles recantos e deixar-me corromper também.

Passei os olhos com desinteresse mesmo. Prostitutas, transexuais, agrupados nas esquinas, trocando preservativos e drogas, em cantos de prédios, iluminados e transfigurados pela maquiagem, exagerados demais ou totalmente rasgados. Cafetões escorados na surdina, mirando as presas.

A música que passava por minhas veias me fazia pulsar também, em busca de algo que nem eu mesmo sabia, mas procurava. Circulava por aqueles caminhos há algumas semanas, desejando algo mais, ansiando algo que me pudesse sentir socando meu destino. Porque eu me tornaria o que meu pai representava. O dinheiro me faria vestir o terno, cinza e sóbrio. A posição me faria agir de acordo com a ocasião. Eu seria mais um dentro daquela empresa. Um nome em cima da mesa. Apenas uma ordem, um pedido, uma reunião. E, propenso a abraçar meu destino, sabia como me reconhecer dentro daquilo.

(Exercíco 2 – Narrador 1ª pessoa protagonista)

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