Os anões, o alemão e o azulejo de Athos Bulcão

OS ANÕES o alemão e o azulejo de athos bulcão cópia

— Eu já disse: prrecisa me soltarrr, investigadorrrr Almirrr.

Eu sentia uma puta vontade de tocar uns petelecos na raiz do ouvido do alemão. O meliante não parara um só minuto de se remexer na cadeira. A cada segundo olhava para trás, onde a janela gradeada ficava.

— Eles estão atrrás de mim.

— E eu já disse: não há nenhum anão atrás de você.

Deixei-o falando sozinho na sala de interrogatório. Passei a chave e segui para minha mesa a espera do chefe. Estava precisando de um banho e por causa do filhodaputa do estrangeiro, tinha perdido a noite e parte da manhã.

O ventilador fazia o backing vocal do ambiente e isso ainda me incomodava bem mais do que com aqueles malucos que recolhia das ruas. A 10ª DP fervia  naquele verão de 89 e as pás, imperceptíveis não fosse pelo som de velharia, moviam o ar sem muita eficácia numa tentativa, eu tinha certeza, de matar lentamente o pessoal que fazia turno naquele horário.

O demônio tinha escancarado as portas do inferno que davam para a capital. Brasília era a Geena a céu aberto.

Ouvi a voz arrastada de Dalmás perguntar o que estava acontecendo ainda antes de passar pela porta.

— O sujeito  fala muito mal o português. É turista. Veio de Munique.

Respondi num misto de cansaço e insatisfação e joguei a pasta em cima da mesa de Dalmás. Arremessei meu corpo de volta para a cadeira, de frente para ele, não querendo mover um só músculo até o final da tarde.

— Então, chama alguém da Embaixada, caralho. Alguém vai ter que traduzir o alemão.

— Já chamei, mas sabe como são as coisas quando é para a polícia. Tudo anda na lenta igual Fusca velho de quinta mão.

Dalmás abriu a pasta e passou os olhos sobre a escrita. O sujeito estava preso, assim também eu, desde a noite anterior.

— O que o alemão queria com aquela pedra? É um simples azulejo.

— Não é um simples azulejo, chefia. É um azulejo de Athos Bulcão e pertencia ao monumento.

— Um monumento que ninguém vê. — Ele não deixava de ter razão. — Se não tivessem colocado bancos para sentar debaixo daquele teto, as pessoas sequer olhariam para os azulejos.

Algumas pessoas não tinham noção do museu a céu aberto contido em Brasília. Eu não ia explicar minha ideia de deixar o coitado levar a pedra para a sua coleção. Afinal, se ele dava tamanha importância para o ladrilho, tinha mais consideração do que aquele amontoado de gente sem noção sobre a arte.

— Então, apreendemos o pedregulho e deportamos o sujeito.

— Basicamente, mas ele insiste nos anões.

— Anões?

— Disse que se não chegar até o relógio de sol do parque da cidade e fizer o mecanismo funcionar, vamos mergulhar no caos. Um mundo de trevas se erguerá. Seremos engolidos.

Dalmás gargalhou alto. Os outros policiais se viraram em nossa direção. O que eu podia fazer? Nada tinha para dizer a não ser confirmar a história maluca que o loiro contava , mesmo com dificuldade, em replay automático, misturando um português sofrido, com inglês e a língua-mãe.

— E você está inclinado a acreditar nas drogas, não é Almir? Afinal, você tem um curso de Artes escondido tão bem no seu currículo que chego a duvidar do seu diploma de Matemática.

 

(Exercíco 1 – Narrador 1ª pessoa testemunha)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s