Promessa

ooh I need
the darkness,
the sweetness,
the sadness,
the weakness,
ooh I need this.
Need a lullabye,
a kiss goodnight,
angel, sweet love of my life
ooh I need this¹

Irmãos caríssimos, reunimo-nos com alegria para participarmos nesta celebração…

Sorrisos em faces serenas. Sorrisos e alegria. Lágrimas caindo dos olhos dos mais emotivos. Vestidos, cores, fraques. Gravatas combinando com os ternos. Sapatos, brilhos, flores. Música suave e pacífica. Música… Música para embalar o sonho que a vida tornou real. Todas as atenções voltadas para os noivos. Os amantes. Não existe outra cerimônia mais tocante para dois seres do que esta. O casamento é sempre um momento único para dois corações que se amam.

Eles deixavam tudo isso aparecer. Seu amor, sua dor, seu querer. Sem pudor, sem rancor, sem qualquer outra culpa.

Senhor nosso Deus, que, desde a criação do gênero humano, quereis a união do homem e da mulher, uni pelo vínculo santo do amor estes vossos servos…

Era a imagem mais feliz, a mais eterna, a mais sentida. Dois olhos se encontrando e tentando responder as questões mais simples. Seremos felizes? Podemos continuar? O silêncio vai crescer dentro de nós? As distâncias vão nos carregar? Qual a música que vai embalar cada passo de nossa existência? Somos um? Somos nós? Seremos cada dia mais sós?

Feliz de ti que temes o Senhor e andas nos seus caminhos. Comerás do trabalho das tuas mãos, serás feliz e tudo te correrá bem. Tua esposa será como videira fecunda no íntimo do teu lar; teus filhos como ramos de oliveira, ao redor da tua mesa.

De qualquer forma o “pra sempre” estava lá, preso nas bocas de dois amantes, solto na imagem de um casal, estampado nas vistas de todos. Estava lá, no coração gravado, para a eternidade, como se cada alma estivesse à outra ligada. Presa por laços invisíveis, por cordões celestiais, eternos e firmes, capazes de perdurar até a inexistência do outro e além, muito além do respirar nessa vida. Pulsava enlouquecido tentando ressonância em algum ponto entre um olhar e outro.

Misteriosa unidade do casal: ser um só. Isto não é apenas um desejo nosso, é o projeto de Deus, é o horizonte que Ele nos apresenta e que se realiza eficazmente. No matrimônio, a fidelidade de Deus é a fonte da nossa fidelidade.

Felicidade… Eles eram felizes, afinal? Porque felicidade é poder pensar que as distâncias não mais existiam. Felicidade era poder imaginar o outro sempre presente, em todos os momentos, o tempo todo, por todo o sempre, até não haver mais possibilidades de fim. Porque a separação é sempre algo impossível. O concreto da união está mais do que presente. Nenhuma ausência mais se faz adormecer nos braços de quem cai no sono do amor correspondido, dos afetos divididos, das carícias trocadas sigilosas e ternas, em suspiros secretos de saudade. Era assim a união, não era? Porque o vazio é algo estranho de acontecer quando junto do outro.

É de vossa livre vontade e de todo o coração que pretendeis fazê-lo?

E o branco e o negro se misturavam e transformavam aquela cena em uma canção de eterna e saudosa melancolia. Não havia cor. Apenas saudade… Pelo vazio que deixaria, pelo nada que se fazia presente, nas verdades que trazia à tona nos olhos do outro, que ainda lutava para acreditar na veracidade da imagem diante de si. Estranho e confuso sentimento, que fazia os corações pulsarem de forma diferente. Um sempre atrás do outro, em um circo sem fim, para provar do que era feito esse grande e profundo sentimento amoroso. Para provar que tudo só fazia sentido junto do outro, na totalidade de ambos.

…prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida.

Enlouquecido coração do amante que perde a ilusão e o sonho de ser completo. Porque perdeu o amor que parecia profundo e verdadeiro. Perdeu o sonho de se fazer concreto. E seria assim, assim seria. Agora ele sabia. E a canção ficaria ali, tocando em seus ouvidos. E ele ficaria de pé, esperando pelo término do que acontecia. Como um anjo de asas partidas, sem rumo, mergulhado entre os homens e suas vontades. Porque aquilo tinha sido um desejo e não poderia lutar contra. Porque não era o dele. Nunca seria.

Well, is it dark enough,
can you see me?
do you want me?
can you reach me?
or I’m leaving…
you better shut your mouth
and hold your breath
you kiss me now,
or catch your death
oh I mean this…
oh I mean this…¹

Não separe o homem o que Deus uniu.

Uma vida inteira, ele havia esperado. Uma vida ele teria agora, para esperar outra vez. E lá estavam todos, felizes. Seus amigos, seus irmãos. Todos ao redor, sorrindo felizes igualmente. Dando sentido a tudo aquilo pelo qual morreria se pudesse. Só o seu sorriso saiu triste na fotografia. Triste como tudo o que jamais seria. Estava livre e ao mesmo tempo prisioneiro, porque seu coração estava marcado com o jeito de outra alma e com o que tinha aprendido. E doía mais do que tudo saber que não bateria mais da mesma forma, nem com a mesma intensidade.

…recebe esta aliança como sinal do meu amor e da minha fidelidade.

E nessa hora, nem uma canção para embalar sua necessidade de fuga, de encontrar-se com o que era antes de amar. Porque antes de amar era outro. Porque antes de amar não sofria, não chorava, não vivia. Não havia nada antes. Nem angústia, nem medo, nem dor. Mas não havia também a beleza da divisão do que era para juntar o que a outra metade oferecia. Doce e terna e palpável na carne dos corpos que à noite aqueciam-se na cama.

Deus, Pai Santo, que pelo vosso infinito poder fizestes do nada todas as coisas e, na harmonia primordial do universo, formastes o homem e a mulher à vossa imagem e semelhança, dando um ao outro como companheiros inseparáveis, para se tornarem os dois uma só carne, e assim nos ensinastes que nunca é lícito separar o que Vós mesmo unistes…

Suas mãos estavam vazias. Seu corpo estava vazio. Lembrou-se de cada toque e de cada promessa. Palavras não fazem o amor. Não derramam esperanças, não juntam dois pedaços, nem a compreensão de que se sente tão sozinho em momento tão singelo. As faces coradas e os olhos brilhantes não refletiam as noites quentes de encontro e abandono. E a voz travada na garganta, porque não há como gritar. Não haverá ninguém, afinal, para ouvir. E depois de um tempo, a doença que a ausência trará carregará os últimos suspiros de uma paixão que morre agora, para sempre.

Deus Pai vos conserve unidos no amor, para que habite em vós a paz de Cristo e permaneça sempre em vossa casa. Amém.

Doce amor da minha vida, eu preciso da escuridão, do amargor, da tristeza, agora, para celebrar a sua felicidade.”

Duas bocas se beijando, duas almas vibrando, e um coração partido.

Nota:

1   Lyrics – My Skin – Natalie Merchant

A alegria do encontro e a tristeza da despedida. Ao mesmo tempo, um começo e um fim, e um novo começo e um novo fim, nesse entendimento, porque amores são eternas idas e vindas – 22/02/10

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s