Incondicional

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Eu subo na bancada da janela lateral e espio pela fresta da cortina. O gramado é viçoso e a saída lateral do carro do meu patrão está fechada. A vizinha estende a roupa e vejo as crianças passarem com as bicicletas. Se não estivesse preso aqui já estaria lá fora, querendo seguir com elas. Já estou acordado há um bom tempo. Não vi Julia e Kadu chegarem. Eles não coçaram minha barriga. Nem me chamaram para jogar com meu brinquedo favorito. A bolinha ainda está ao lado da minha cesta. Olho para ela e não sinto a menor vontade de brincar sem eles.

Eu faço o que normalmente faço o dia inteiro. Percorro a casa reconhecendo os lugares pelo cheiro peculiar de cada parte. Subo as escadas e me deito em cima da cama dos que me amam. Cheiro os travesseiros. Vou até o ateliê e dou uma volta. O cheiro das tintas faz meu focinho coçar. Quando eu me canso, eu desço. Faço minhas necessidades na área de serviço, em cima do tapete de plástico porque fui bem treinado.

Espero na porta, sentado. Estão demorando.  Já passou da hora do almoço e ninguém ainda chegou. Eu dou uma volta pela sala e subo novamente na bancada. Espio. Enxergo o cão que sempre circula naquele horário e dou uns latidos. Ele não escuta porque está sempre do outro lado da rua. Não ouço o barulho do carro. Julia e Kadu estão demorando e eu não ganhei biscoito.

Eu sei onde é que a minha ração está. Paro diante do balcão e espero. Não sei abrir aquela porta. Eu raspo a minha pata, mas ela não arreda e eu choramingo. Resolvo tomar água para aquietar meu estômago. O telefone toca e eu corro para a sala e me ponho ao lado da estante abarrotada de livros e discos. O som do aparelho insistente me irrita e eu uivo. Depois de alguns toques o silêncio retorna.

A sala não é meu lugar preferido, mas o sofá é confortável, então, pulo para cima dele e fico por um tempo quieto. Tem almofadas e uma manta impregnada com o perfume adocicado de Julia.

Quando eu vou para a bancada outra vez, já está escuro lá fora. A casa também está na penumbra. Julia e Kadu não voltaram e sem opção, volto para o meu cesto e fico olhando a cozinha do nível mais baixo. Tudo é tão triste sem eles… A luz da rua desenha a janela no piso.

Passo a noite no silêncio. Sinto falta da televisão que Júlia sempre liga. E Kadu não tocou violão. Eles não se beijaram e também não me chamaram para brincar.

A manhã chega. Alguém abre a porta e eu penso em meus patrões. Meu rabo já balança, mas é Fernanda, irmã de Julia. Ela está chorando e os olhos estão vermelhos. Junto dela tem alguém que não conheço muito bem. Mas eu pulo para festejar a sua vinda porque a solidão é ruim. Ela não retribui com festa. Apenas acaricia meu pelo e continua chorando, colocando comida no meu prato. Troca a água da minha tigela e recolhe o cocô do tapete de plástico. Ela coloca em mim a guia.

— Precisamos resolver isso também, Artur.

— Eu sei, mas agora não. Deixa passar tudo. Tem tempo.

O homem me leva para caminhar pela quadra.

— Vamos lá, peludo!

O exercício me faz bem e meus músculos se aquecem.

Sinto os cheiros novamente. As flores do quintal do outro vizinho. A comida da senhora de idade da casa gradeada. O poste carregado de cheiro dos cães de rua. E nem sinal de Júlia e Kadu.

O passeio é longo. Ele para e fuma. O cheiro não é agradável. É semelhante ao que o amigo de Kadu traz com ele todas as vezes que tem futebol. Somente ele fuma e, fuma no lugar indicado pelos patrões: na parte de trás da casa.

Ao voltarmos, ele pendura a guia no lugar e Fernanda desce do andar de cima carregando uma sacola. Eu farejo coisas de Julia e Kadu. Ela vai levar e eu seguro a sacola. Não pode levar embora o que é da casa.

— Tudo bem, amigão. Está tudo certo. — Ela afaga o meu pelo outra vez e continua chorando. — Você não compreende, não é? Não tem noção do que aconteceu, mas vai ficar tudo bem.

Ela me olha de um jeito diferente. Sinto o cheiro de Madalena, a mãe das duas. Eu dou uns latidos. Madalena não gosta de mim.

O homem enxuga as lágrimas de Fernanda.

— Precisa ser forte, Fê. Sua mãe precisa de você.

Não entendo o que está acontecendo. Eles vão embora e eu fico sozinho outra vez. Pulo para a bancada esperando ver Julia e Kadu chegarem, mas eles não vêm. Eu choramingo, me angustio. A noite chega. Meu instinto diz que devo me preparar. Algo não está certo.

~~~~~~~~~~~~

Quando eu cheguei nessa casa, era pequeno. Meus irmãos ficaram no canil junto de meus pais. Eu ganhei uma coleira. Nela tem uma medalha. Tem meu nome gravado e um número de telefone para chamar caso eu me perca.

— Ficou linda, Kadu!

— Que tal um passeio agora, amigão?

Eu não me perderia nessa vizinhança. Sou muito esperto e bom farejador.

Nas primeiras três semanas já sabia tudo desse lugar. Conheço cada cheiro que a casa possui.

No andar de cima, no ateliê, o cheiro de óleo e terebintina são minha aflição. Os espirros começam cinco minutos depois de eu entrar naquela sala, apesar de eu gostar do cheiro dos lápis de cera da caixa que fica ao lado dos tubos cheios de pincéis.

Eu já estraguei alguns pincéis da Júlia. Mastiguei os cabos, esfacelando a madeira frágil, mas o cheiro doce me conquistou. Ela ficou triste, mas não bateu em mim. Repreendeu-me, alterando a voz. O castigo foi severo. Durante uma semana não joguei bola com Kadu.

Já comi o calcanhar de um chinelo, também. Salivei e não resisti. A borracha tinha cheiro apetitoso.

— O que pensa que está fazendo, seu danadinho? Onde já se viu comer meu chinelo?

A cozinha é o lugar mais cheiroso da casa. Cheiros doces e salgados se misturam a outros. Na hora das refeições eu compareço, mas sou, quase sempre, ignorado. Mesmo que eu peça, não ganho nada da mesa e o jeito é contentar-se com a ração.

Agora estou aqui, na bancada da janela da sala outra vez, esperando por Júlia e Kadu. A comida, intocada, não me apetece. Estou triste e sozinho faz tempo e a chegada do carro me alerta. Não reconheço o veículo. Talvez eles tenham chegado, finalmente.

Eu desço com pressa e me apronto na porta. Fico atento, a esperar por quem entra. Uma ansiedade que faz meu coração pular. O desapontamento é grande. É Fernanda e ela vem acompanhada do mesmo moço do outro dia.

— Deixe tudo lá em cima.  As caixas só chegam depois de amanhã.

— Quer mesmo ficar com essas coisas?

Eu estou sentado em cima do tapete e minha cabeça segue de um para o outro.

— Sim. Com a maioria delas.

— Incluindo o cão?

— Isso é algo que terei que discutir com ela, Artur.

Eu os acompanho. Eles circulam pela sala. Fernanda para em frente da estante. Puxa um livro. Coloca no lugar. Ele mexe nos CDs. Depois, mostra um vinil para ela.

— Esse é bom.

— A maioria é.

Ela recolhe o porta-retratos. É onde eu estou junto de Júlia e Kadu. Nossa primeira foto, feita por um amigo, num dia cheio de brincadeiras no pátio.

Depois, ela vai até a área de serviço.

Minhas coisas são recolhidas. O tapete de plástico. O pote da água. A tigela. O saco com a ração é retirado de dentro do armário e é levado para fora. Nunca saíram de onde estavam. Júlia não costuma mexer as minhas coisas de lugar.

— Isso é tudo?

— Sim.

Ele apanha a guia e eu mexo o rabo. Penso no passeio sem ter muita certeza de como será.

— Que tal dar uma volta, peludo?

Meu nome não é peludo.

~~~~~~~~~~~~

A casa é grande. Tem dois andares. Muitas janelas. Teria lugar para mim. Tudo poderia ser como costumava ser, se Madalena, ao menos, gostasse de cães, ou tolerasse minha presença dentro de seus espaços.

Logo que cheguei, escutei Fernanda interceder por mim, em vão.

— Eles amavam esse cão, mãe.

No começo pensei que ela me levaria até Júlia e Kadu, que este era um lugar de passagem. No entanto, amarraram-me a essa corrente. Estou preso perto dessa casa minúscula de um tom desbotado de marrom, em uma condição permanente. Tenho um cobertor, aí dentro. Puído. Com cheiro de velho, de coisa mofada e úmida.

Outro dia, ouvi outra conversa entre elas. Arthur, como sempre, não interferiu

— Precisa se recuperar, mãe. Não pode agir desse jeito.

— Filha…

— A vida precisa seguir em frente. Nesses três meses só vejo a senhora chorar.

— Você pensa que é fácil?

O tempo passou arrastado. Três meses nos fundos da propriedade de Madalena. Três intermináveis meses. Já estou aqui há muito tempo e a saudade cresce. Eu me lembro de onde vim. As imagens vêm em flashes. Elas me abraçam e fazem me lembrar de como as coisas eram antes de chegar aqui.

Chorei muitos dias e noites. Não dormi. Implorei para ela me acolher. Tudo o que quero é carinho e um pouco de respeito. Quero me sentir amado. Ela não entende o meu olhar.

Durante as primeiras semanas, nas poucas vezes que alguém abriu o portão, eu fiquei em alerta, esperando Júlia ou Kadu aparecerem para me resgatar daquele lugar tão sem alegria, tão cheio de dor. Depois de perceber que eles não voltariam, o portão abre e eu não me importo, mesmo guardando na lembrança a imagem dos dois. Eu me pergunto onde eles estão, o que estão fazendo, e por que me abandonaram. É um sentimento estranho e terrível.

Vejo Madalena chorar, enquanto estende a roupa. Suas mãos tremem. Ela não é tão velha, mas as pernas vão devagar. Ela não parece bem. Desde que cheguei, uma escuridão enorme brota de dentro dela e se lança por todos os cantos.

Também choro a falta dos que amo, mas meu choro não a comove e tampouco tenho a chance de aplacar seu desgosto com minhas lambidas.

Fernanda chega sempre carregando livros. Ela vem me ver uma vez por semana. Afaga meu pelo. Ensaia uma brincadeira ou duas, mas já não faço festa para ela. Nem para ela, nem para ninguém. Tudo o que sinto é solidão. Uma solidão crescente e teimosa.

Talvez, se eu enxergasse a rua… Porém, não enxergo a rua, nem crianças, ou outras pessoas. Não vejo a vizinhança. Penso na janela e na bancada da casa onde eu morava e que, antes, eram minha distração. Tenho na lembrança o cheiro da grama e das flores, do perfume de Júlia e de cada cômodo daquela casa, especialmente da cozinha e do ateliê.

Esqueço-me deitado, aqui, porque é difícil me erguer. Minhas patas não parecem fortes para me suportar. O ânimo se perde de mim pouco a pouco. Faz alguns dias a ração não me apetece. Vomito a pouca comida que consigo por para dentro.

As noites são escuras. Os sons ao meu redor não me despertam atenção. Não tenho o aconchego daquelas cobertas macias. De dia, se chove ou faz sol, não importa. Eles são todos iguais. Não há música. Ninguém toca violão. Ninguém trabalha com as tintas.

Eu fecho os olhos. Quero dormir para sempre, imaginando a casa outra vez. Eu, percorrendo seus espaços e me encontrando junto de meus donos. O cheiro adocicado das roupas. O calor dos abraços. Os afagos.

Um acorde bem distante me chama. Kadu está tocando violão. É sua música preferida. Tenho a impressão de ter escutado a voz de Júlia a chamar meu nome. Ergo minha cabeça e meu corpo com a mesma força de outrora.

Minhas orelhas se erguem alertas.

— Vem, Jasper!

É ela!

Eu corro sempre em frente. Olho de relance para trás e a casa de Madalena vai desaparece em meio a um nevoeiro incomum. Tomo embalo. Sinto que vou como o vento, seguindo a voz de Júlia e o perfume que ela emana.

Vejo formas que se tornam nítidas. Eles estão além do portão. Eu o atravesso confiante e eufórico e me jogo em seus abraços em gesto de pura angústia dissipada. Pulo, lambo, balanço o rabo. Dou voltas ao redor deles. Respiro amor. Eles sorriem e Kadu faz a pergunta que eu esperava ouvir fazia tempo…

— Pronto para passear?

Créditos da imagem: CC0 from StockSnap ; photo by Pawel Kadysz

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