O que é uma gripezinha para quem está terraplanado?

Texto de FÁBIO SHIVA (acompanhe o autor no INSTAGRAM, FACEBOOK, SKOOB, BLOG)

Resenha do livro “NÃO SEREMOS OS MESMOS JAMAIS” (vários autores – organização de Bia Machado)

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Em meados de 2020, quando estávamos vivendo os apavorantes e inesquecíveis primeiros meses da pandemia, recebi de minha querida amiga Bia Machado, da Caligo Editora, o convite para colaborar na Coluna Asas (https://www.caligopublica.com/p/coluna-asas.html), escrevendo sobre literatura. Nem preciso dizer que abracei esse convite com muita alegria e gratidão pela oportunidade de vibrar algo luminoso e feliz em meio a tantas trevas e sofrimentos. Mas eu já devia saber que minha irrequieta amiga não iria ficar só por aí. Pois alguns meses depois, Bia chegou com um novo convite: “Vamos fazer um livro com textos dos colunistas da Caligo refletindo sobre a pandemia e fazendo prognósticos para o futuro. Topa?”

Claro que sim, Bia. Pode-se dizer que o texto já estava praticamente pronto dentro de mim, moldado que foi por “Dois sonhos esquisitos” que tive. O primeiro foi um sonho em formato de histórias em quadrinhos (alguém mais já teve um sonho assim?) e o segundo veio como a proclamação de um arauto celestial (mais alguém?). Juntando as mensagens desses dois sonhos, mais uma abordagem sistêmica para esse momento excepcional que estamos vivendo, alguns exemplos bizarros da vida real e duas ou três piadas de quebra, e estava pronto o meu artigo. Fiquei bem satisfeito, especialmente ao relê-lo agora. Uma de minhas preocupações foi tentar evitar que o texto ficasse datado muito rapidamente. Acho que consegui.

E agora, finalmente, pude ler os textos de meus colegas colunistas. Gostei muito da leitura e, ao mesmo tempo, fiquei surpreso por ter sido muito mais impactado do que eu esperava. Não é moleza mesmo o que estamos vivendo, e travar contato com oito versões diferentes de minhas próprias angústias e temores, cada qual focando com muita habilidade e talento em alguma questão, foi simultaneamente reconfortante e aflitivo. Reconfortante por eu não ser o único que está vendo tais coisas ameaçadoras. E aflitivo exatamente pelo mesmo motivo!

O livro abre com o texto de Bia Machado que dá nome à antologia, “Não seremos os mesmos jamais”, pungente desabafo que em minha leitura pessoal teve uma luminosa continuidade no texto de Giselle Fiorini Bohn, “A grande lição”. Curiosamente, encontrei conexões também entre outros pares de textos, o que me sugeriu talvez uma inconsciente e involuntária tônica da obra (uma vez que os autores não conversaram previamente sobre o que escreveriam).

“Manual inconclusivo para criar ficção no isolamento”, de Davenir Viganon, e “Sobre telas e tolos”, de Bruno de Andrade, conectam-se pelo diálogo com a ficção científica e com o cinema para refletir sobre a distopia nossa de cada dia.

Já “Sons em movimento”, de Catarina Cunha, e “A difícil missão”, de Renata Rothstein, apesar de serem narrativas totalmente diferentes, impressionaram-me pela estratégia comum de focar em um detalhe para falar do todo: a crônica de um momento específico (uma corrida na rua), no caso de Catarina, e o recorte de um problema específico (a educação) no caso de Renata.

E finalmente, entre os dois textos com os maiores títulos, “O Brasil na briga entre o semicadáver e o quase vivo”, de Eduardo Selga e “O amor caminha com passos leves sobre o coração do mundo”, de Evelyn Postali, descobri uma interessante complementaridade dos opostos. O texto de Eduardo é ácido e de cunho fortemente intelectual, mas surpreende com seus laivos de esperança. E o texto de Evelyn é quase diametralmente oposto: poético e carregado de esperança, com surpreendentes travos amargos aqui e ali.

Considerados coletivamente, os nove textos de “Não seremos os mesmos jamais” oferecem muitas possibilidades de refletir, se emocionar, vivenciar catarses e até dar algumas boas risadas. Algo que me surpreendeu (e impactou) foi o quanto para nós, brasileiros, está profundamente arraigado o trauma do pandemônio político e ideológico que estamos vivendo junto com os dilemas da pandemia, comuns ao resto do mundo. Eu não serei o mesmo jamais após a leitura desse livro, que me fez sentir visceralmente o quanto será pesada e maldita a herança do atual (des)governo.

Isso acontece de vez em quando, desde as fatídicas eleições de 2018. Temos subitamente um vislumbre de lucidez e nos damos conta do quanto tem sido bizarro e inominável tudo o que temos vivido sob um regime de pessoas moralmente e espiritualmente perturbadas. Creio que a ascensão do Talibã trouxe horrores semelhantes. Em algum momento da história, pareceria absurda a ideia de mulheres cobertas com um pano preto da cabeça aos pés “para não ofender a Deus”. E no momento seguinte, após enxurradas de absurdos terríveis, mulheres usando burca virou algo comum (ao menos para as pessoas submetidas ao Talibã) e, aparentemente, inevitável. Quantos e quantos horrores não temos vivido cotidianamente, como se fossem acontecimentos normais?

A coisa é tão feia que me dei conta de uma situação recorrente: muitas vezes, para tentar expressar a abominação desses tempos, citamos um, dois, dez exemplos de atrocidades cometidas pelo Inominável e por sua horda de nazifascistas. E o efeito é sempre anticlimático: são tantos pecados cometidos aos montes, que citar mesmo que só algumas dúzias deles equivale a diminuí-los. Quando falamos de Hitler, a imagem-símbolo que nos ocorre é a dos fornos de cremação. O pesadelo da era Bolsonaro se dilui em uma infinidade de fétidas mesquinharias.

Isso não é motivo de desânimo, mas de confiante espera. Não é por acaso que estamos vivendo isso tudo, a pandemia e o pandemônio juntos e misturados. Creio na profecia de Chico Xavier, de que o Brasil será a Pátria do Evangelho e o Coração do Mundo. Para alcançar esse destino luminoso, primeiro precisamos nos defrontar com nossos piores abismos e trevas. Que assim seja!

Confira o livro “Não seremos os mesmos jamais” na Amazon:

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