Conto

Créditos da Imagem: CC0 Pixabay

A ÁRVORE QUE EMOLDURAVA A LUA

Felixiana morava numa casinha no pé do morro da Benedita, beijando o céu, perto do córrego do Boca. Um lugar nada propício para alguém que viajava o mundo nas páginas dos livros juntados no lixão.

Livros jogados fora, cujas imagens encantavam e conseguiam movimentar aquela vida mínima quando a roubavam da cama feita de estacas e a levavam para passear, dissipando a agonia da vida dura de filha de catadora e estudante assídua da escola pública do bairro.

— Onde já se viu jogar livro fora? Gente mais sem coração!

Costumava subir a picada contornando os outros barracos. Assentava-se nos galhos da árvore frondosa, dona de uma vista invejável dos outros morros apinhados de gente e desgraças. A planta era uma das remanescentes da grande mata que sucumbiu à necessidade humana, chamada por uns de miséria, por outros de morte ainda em vida.

A farinha-seca de tronco irregular, com muitas galhadas, velha e imponente, apreciava a vista e também a companhia da menina. Não se relacionava muito bem com as outras poucas da espécie, nem com os cajueiros-japoneses, mas com Felixiana era diferente. Trocavam ideias nas horas livres e mergulhavam juntas nas palavras impressas nas folhas; palavras que ora saltavam para envolvê-las, ora subiam até o alto do céu, ou se entocavam na vegetação rala, de arbustos esparsos, a ka’a  uera.

— Capoeira — dizia a farinha-seca e a menina ria.

Ambas, em noites de céu claro, observavam os astros do céu noturno. Felixiana costumava abraçar a amiga e admirar a passagem da lua por seus galhos, roçando de leve, fazendo cada folha cintilar. O vento assoprava de mansinho o ano todo.

Assim,  liam juntas as contações de viagens mirabolantes. A cada nova página, nova imagem a ser vivida. Outra vida a ser vivida. Palavra dentro de palavra. Ela pulava para dentro das folhas, para perto das montanhas ou vales verdejantes, junto a praias e cais graçapés, próximo o bastante de sóis dourados, aquecida em céus azuis, e encantava-se com outras luas de pura prata que chamavam os gatos para brincar.

Depois, repousava o livro em algum galho, porque a árvore emprestava suporte de estante singular e perfeita.Ninguém, no entanto, subia na árvore e tampouco lia. Quem, naquele amontoado de gente importava-se realmente com os livros?

Felixiana não pensava muito. Pensava, mas não queria. Afinal, não conseguiria enfiar na cabeça daquela gente que livros também eram importantes. Antes, pensavam nas necessidades básicas. Antes, era preciso pensar na comida, na água, no teto, na luz elétrica, no esgoto encanado. Não havia como pensar em ler, muito menos empilhar livros no chão batido com o estômago rugindo.

No aniversário da menina,amanheceu chovendo. A chuva penteava os telhadinhos miúdos, batucando no zinco uma melodia intensa, lambia a vegetação grudada nas casas e serpenteava para baixo, em tons pastéis, caquis e marrons. A chuva nunca se apresentava daquele jeito. Parecia enlouquecida, numa tristeza sem dó.

Naquele dia, Felixiana não foi para o lixão. Afinal, mesmo esquecido da família pingada, o aniversários era data especial porque viver era evento caprichoso. Voltou da escola e, ainda dentro da capa plástica remendada subiu o resto do morro até a árvore. Sabia da demora da mãe, porque nas terças-feiras tinha faxina grudada uma na outra, e o irmão, mais velho, fazia turno dobrado no lixão todos os dias.

Ao chegar ao topo, subiu na farinha-seca e lá, protegida por um galho grosso, prestou atenção no verde viçoso, molhado de dar pena. Nenhum pio de ave alguma. Nem os bichinhos minúsculos, sequer abelha, mosquito também não. Só o barulho da chuva a despencar em cascata.

De tamanha chuva, um casebre por vez foi deslizando morro a baixo, como se surfassem sobre a terra enlameada. A água ia levando tudo. O morro desceu. Despencou, levando terra, água, gente.

— É aguaceiro, menina — disse a árvore e abraçou a pequena com seus galhos, querendo-a proteger do perigo. A menina apertou os olhos e devolveu o abraço.

Tudo deslizou. Menos Felixiana e a árvore que emoldurava a lua. Ambas subiram, ao invés de descer. Leves, carregadas pelas fantasias.

8 pensamentos sobre “Conto

  1. Pingback: E Por Falar em Imagem… | Tudo que se prende no olhar

  2. Uma bela estória carregada de contrastes e parábolas. Chega mesmo a beirar a dura realidade dos nossos tempos e confundir-se com ela. Poéticamente rica, a estória nos arremete á infância sem nos tirar da realidade. Parabéns menina Evelyn.

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