O Coração de Sayuri – Miniconto

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A floresta da Solidão é uma floresta fechada, com árvores frondosas e poucas trilhas internas. Existem muitas cavernas desconhecidas cujos caminhos se bifurcam fazendo os exploradores se perderem em seu interior.

Haiato, homem maduro, já experiente pelas inúmeras viagens exploratórias, conhece as florestas de muitos lugares como a palma de sua mão. Desde adolescente, mapeia a geografia de lugares misteriosos, cujas histórias estão envoltas em fatos extraordinários ou incomuns. É sua especialidade e sua única paixão.

Está prestes a empreender uma jornada pela Solidão enumerando as aberturas em torno da montanha que a acolhe. Os moradores dos arredores relataram as tragédias e atribuem os desaparecimentos a uma jovem, Sayuri.

― É a dama da Solidão. Se a vir, não a siga. Apenas deixe-a onde a encontrar – advertiu o homem grisalho.

― É um fantasma?

― Ela carrega o coração da montanha. Não se apaixone.

Haiato é corajoso e prudente. Não acredita em sobrenatural e inicia sua jornada pela trilha mais visível. Vai desenhando seu próprio mapa, fazendo anotações sobre o papel do último registro geográfico feito, coisa de mais de dez anos. O mapa, já amarelado, contém meia dúzia de linhas. Ele espera completar os registros e apresentar o mapa ao contratante em menos de um ano, média de tempo já calculada.

Os primeiros dias foram tranquilos. Saia cedo do acampamento próximo à vila, trilhava até atingir determinada distância e retornava à noite. A medida em que adentrava a mata, sentia as horas acelerarem. Suas marcações diárias eram sempre as mesmas, mas a escuridão da noite engolia o dia cada vez mais rapidamente.

Decidiu pernoitar, montar acampamento no ponto de parada do dia e seguir pela manhã para ganhar tempo. E foi na segunda noite que tudo aconteceu.

Créditos da imagem: Evelyn Postali

O Navegador – Miniconto

Créditos da Imagem: Evelyn Postali

William Eduard Phillip Kay III era navegador, assim como seu pai foi, e como o pai de seu pai, e os que o antecederam. Cruzar sistemas solares, passar por nuvens de meteoritos, atravessar a cauda gasosa de cometas o fazia estufar o peito e inflar o ego. Sua nave, carinhosamente apelidada de Bai, era um mecanismo híbrido, meio máquina, meio bicho, coisa antiga comparada com  as intergalácticas Reeves ou com as Elons. A vantagem de Bai era a capacidade de se metamorfosear, de acionar sua transluscência ajustando-se  convenientemente a qualquer ambiente ou situação. Não existiam naves iguais a ela – único exemplar construído pelo bisavô, lendário desbravador espacial – por isso, cobiçada por muitos. Fato exemplar: seu hibridismo estava associado ao DNA de seu criador e, portanto, apenas descendentes diretos ou indiretos de Kat I conseguiam comandar seus motores.

Billy Kay, como era conhecido, não se considerava mercenário; era apenas um homem com interesses vinculados à moeda de maior cotação do universo conhecido, o musk. Um único musk comprava meia dezena de intergalácticas. Como explorador, garimpava artefatos em planetas mortos, cujas civilizações haviam sido destruídas, ou por catástrofes naturais, ou por guerras entre seus habitantes. Guiava-se por cartas celestes, que continham as rotas mapeadas pelo pai e os registros de viajantes, historiadores de planetas onde a possibilidade de haver algum objeto  de valor era grande. Mantinha-se fora de confusões, muito embora elas o perseguissem onde quer que estivesse.

Quando Bai acionou os alertas e o modo transluscência estavam entre a Anã do Cão Maior e Andrômeda. Em seus radares holográficos multicoloridos, mais de uma centena de pontos móveis grandes e pequenos. A zona era neutra, contudo, a formação em V dos grupos de pontilhado indicava uma frota de guerra Centauro.

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A Flor de Tul’la – Miniconto

A flor de Tul’la

Circe conhecia o poder das plantas e minerais de Althea. Guardava o conhecimento de Ganan em um livro, de páginas amareladas, dentro de um baú, escondido em seus aposentos. Mantinha-o longe das vistas de todos, especialmente do soberano que a acolhera na juventude por amor à sua mãe, Shadall. O livro continha receitas cuja leitura apenas podia ser feita à luz da luz minguante, uma vez por mês, e apenas ela decifrava as inscrições, conhecimento adquirido em tenra idade. Os chás e temperos de Circe complementavam apenas os pratos servidos ao soberano. Enquanto ele renovava-se e mantinha-se com saúde plena e corpo vigoroso, a corte envelhecia em tempo real, dando lugar a sucessores ambiciosos. Circe amava Ronnin, seu rei e protetor, por isso, os inimigos do rei tinham vida curta.

O veneno preparado por Circe vinha de Tul’la, uma flor branca, emergida dos lagos ao sul do castelo, perto do mar. Para ter o efeito desejado, era preciso colhê-la entre o pôr-do-sol e a lua cheia e recitar o verso do livro.

Tul’la blóm,

Milli sólar og tungls,

Milli dauða og lífs.

Snúðu nóttinni,

Snúðu deginum,

Látum réttlætið ná fram að ganga.

O Olho de Abadiy – Miniconto

Manipulação digital a partir de uma fotografia. Créditos: Evelyn Postali.

“Contam os mais antigos que no coração da Montanha Azulada, no centro da Ilha de Dunya, existe um dragão. Seu nome é Abadiy.  Ele guarda a Eternidade. Controla o tempo e o que nele transcorre. Ele possui o poder de despertar o Fim. Por isso, dorme com um dos olhos abertos.

O olho, de azul turquesa cintilante, é multifacetado e é a segurança da Vida. Cada pedaço cristalino da orbe é a alma de alguém e, cada uma delas é única e possui um único nome. O conjunto, compõe o Infinito e é protegido pela criatura.

Quando o olho de Abadiy fechar, tudo o que possuir uma alma, toda a criatura, todo o ser vivo, fará parte dele e dormirá para sempre.”

— Existe um mapa para se chegar até essa ilha, vovô?

— Muitos procuraram, mas em vão.

— Abadiy possui a minha alma?

— A sua, a minha, a de todos.

— Quando eu crescer dominarei esse dragão.

O avô cobriu de peles o pequeno Nakhob, resmungou um ‘vá dormir’ e levou com ele o Fogo. Do lado de fora da tenda, as estrelas pontilhavam o céu e as luas se alinhavam no horizonte.

Histórias fantásticas (I)

I

Yris é uma pérola cristalina cercada de nada por anos-luz na imensidão do Universo conhecido. Situada fora de qualquer galáxia, é um universo dentro do Universo girando sobre si mesma. Assim como não se sabe a origem do Universo, não se sabe a origem de Yris. Alguns dizem que ela é o início de tudo e o fim.

Para se chegar até a esfera central, o Coração de Yris, deve-se escolher um dos doze Caminhos. Cada um com as mesmas características e com a mesma visão de seu centro. Do lado de fora, é possível ver as doze entradas cujas portas são elos cobertos por uma cortina multicolorida e translúcida. Os registros de quem chegou até uma das aberturas, sem adentrar, são vagos.

A Capitã Leyna está ciente que o caminho de qualquer viajante para Yris deve ser trilhado com cautela, mesmo em um transporte espacial igual àquele.

Ao cruzar os primeiros portais, o Cristal de Yris já é visível. A aura azulada espalha a luz pela imensidão. É um caminho luminoso em um túnel gasoso de linhas mescladas por cianos e lilases. Isso, no entanto, não significa segurança. A intensidade do brilho das Cadentes é determinante na indicação de colisão. As Cadentes transpõem a barreira aeriforme ao menor descuido. É preciso estar atenta à intensidade de brilho.

As vias gasosas se bifurcam e se cruzam e, no encontro, há turbulência perigosa. Desestabilizam os mecanismos de direção e travam a velocidade da nave dificultando o percurso. Um piloto experiente sabe manobrar e contornar as esteiras, sempre para o lado oposto da via que estiver sobreposta.

Vencer o caminho gasoso e turbulento ou as Cadentes, não significa chegar até Yris. Ao cruzar o quinto portal, aparecem os pontos luminosos. Não são estrelas. São os Guardiões, que cercam a esfera como um cinturão. São eles, através de sua percepção, aqueles que determinam a passagem definitiva ou não do viajante. É preciso ser aceita por eles.

O cinturão preso em seu corpo reluzia ao menor sinal de invasão ou perigo. Fora lhe dado por uma das grandes feiticeiras das Terras Escuras, além das Montanhas de Ébano, depois das florestas, cujas árvores frondosas e retorcidas criavam um barreira de espinheiros sombrios e venenosos.

Guerreiro algum que atreveu-se a impor sua espada contra aquele território voltou para contar a façanha e o reino de Mira mergulhava em sobras eternas. Escravos das vontades do autoproclamado imperador, o povo faminto e medroso trabalhava nas minas, nas forjas e na agricultura, enriquecendo o soberano e munindo suas hostes de armas. Os mais jovens seguiam para o exército depois da alma aprisionada, poder conferido ao tirano pelas mesmas forças sombrias que lhe presentearam o cinturão.

Os anciãos, sabedores das profecias mais antigas, aguardavam a alma corajosa capaz de destruir a joia que fortalecia o tirano e libertar o reino de seu poder maléfico. Na noite do solstício de inverno, quando a Lua azulou os campos nevados, a joia reluziu.

Mini-books fantásticos

Mini-books fantásticos

Rubens Angelo, além de fã da ficção científica em língua portuguesa, é também designer e resolveu criar um pequeno projeto pessoal para resgatar e divulgar autores de Sci-fi para uma nova geração de leitores. A ideia dele é “usar contos curtos formatando-os em min-books com um projeto gráfico moderno e atraente, para que os novos fãs de literatura fantástica se interessem pelos precursores desse gênero. Esse é um projeto sem fins lucrativos e focado na leitura em smartphone (ou como dizem em Portugal, para telemóveis). Os mini-books são feitos para circular livremente, de forma gratuita.”

Então, se você é fã de ficção-científica feito eu, não perca essa oportunidade de leitura!

Clique AQUI!

O Caminho para Yris – Miniconto

O Caminho para Yris – Miniconto

I Yris é uma pérola cristalina cercada de nada por anos-luz na imensidão do Universo conhecido. Situada fora de qualquer galáxia, é um universo dentro do Universo girando sobre si mesma. Assim como não se sabe a origem do Universo, … Continuar lendo

A Joia de Kaumã – Miniconto

A Joia de Kaumã – Miniconto

O cinturão preso em seu corpo reluzia ao menor sinal de invasão ou perigo. Fora lhe dado por uma das grandes feiticeiras das Terras Escuras, além das Montanhas de Ébano, depois das florestas, cujas árvores frondosas e retorcidas criavam um … Continuar lendo

As Necromantes

As Necromantes

Aideen nascera sob a lua da profecia. Ao tatear a última porção de sangue da taça, proferindo as palavras contidas no antigo livro de rituais e encantamentos, o calor percorreu os dedos e lhe tomou o braço. O corpo ardeu … Continuar lendo

Em um Brasil fantástico, pouca fantasia se escreve?

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Por que em um país recheado de mitos e lendas a literatura não dialoga com eles? Por que há um preconceito resistente para com o nosso folclore, para com os nossos seres fantásticos? Por que escritores buscam em terras nórdicas, americanas, europeias, asiáticas, os roteiros para sagas e longas narrativas de ação?

Na Coluna Asas #20, no blog da Editora Caligo, você lê meu artigo na íntegra. Vai, lá! Clica AQUI.

Nara

Nara

— Vem, Nara! Vem! — Ele a puxava pela camiseta, insistente. — Vem brincar! Vamos subir. Aquele garotinho, conquista recente do parquinho e dono de um sorriso irresistível, não tinha mais do que oito anos e ela, mesmo não sabendo … Continuar lendo

Divulgação!

ESTRANHA BAHIA – Contos Fantásticos

A 2ª edição da coletânea está chegando!

O objetivo dessa antologia é mostrar, por meio da ficção, uma Bahia além dos clichês e estereótipos, mas sem esquecer nossa cultura, o jeito de ser baiano.

Meu conto Joel das Almas espera pela sua leitura.  Primeira edição em formato digital AQUI!

Para ler um trecho do meu conto: JOEL DAS ALMAS.]

Para saber mais sobre a coletânea:

PORANDUBA

RICARDO ESCREVE

BLOG DA COLETÂNEA

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A Arca das Palavras

A Arca das Palavras

Terra, Continente do Norte, 2-988. Registro midiático 10950. O objeto foi deixado a mim por alguém conhecido de minha mãe, com indicação expressa: abri-la em meu trigésimo aniversário. Se eu não a estivesse tocando, não acreditaria. Uma arca, assim como … Continuar lendo

Vem aí a 2ª Edição da Estranha Bahia!

Vem aí a 2ª Edição da Estranha Bahia!

Conto meu, nessa antologia fantástica que você não pode perder! Agora podemos anunciar. Galera, vem aí a 2ª edição da Estranha Bahia, nossa coletânea de contos de terror, fantasia e FC! Publicada originalmente em 2016, foi finalista do prêmio Argos … Continuar lendo

A linha tênue

A linha tênue

Arrastava a corda pelo chão. Descalça, sequer incomodava-se com a grama espinhenta, a brotar da terra por todos os lados, como lanças esperando pela queda de algum desavisado, estalando ao toque dos pés, crepitando como as labaredas da pequena fogueira … Continuar lendo

Divulgação

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Evento Literário – V Odisseia de Literatura Fantástica Acabo de voltar da V Odisseia de Literatura Fantástica. Nessa quinta edição, mais de 50 autores participaram. A novidade nessa edição ficou por conta da participação do escritor holandês Thomas Olde Heuvelt, … Continuar lendo

A Princesa e o Demônio da Garrafa

A Princesa e o Demônio da Garrafa

Em A Princesa e o Demônio da Garrafa, nos deparamos com um Brasil sob o domínio de um ditador, onde os fatos históricos presentes na História seguiram por um caminho tenebroso. Em vez da instituição da República como conhecemos, uma … Continuar lendo

Divulgação

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Conto meu e do Kaio Souza nessa coletânea linda de morrer! O nome do conto: A princesa e o demônio da garrafa.       Lançamento da Coletânea da Taverna: “Manuscritos Herdados!” Viajantes, é chegada a hora! Foram mais de … Continuar lendo

Os véus do tempo e do espaço

Os véus do tempo e do espaço

No xamanismo malaio pré-islâmico, a porta de entrada para outras dimensões é através de uma viagem interna, através de uma escada em espiral do cordão umbilical etéreo que nos reconecta com nossa experiência pré-natal de união com a Mãe. Ao ultrapassar … Continuar lendo

O Colecionador

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    No começo, a criatura olhou-o desconfiada, mas o cheiro da cachaça e a consciência de ser, aquilo, uma corda de tabaco, a atraiu para perto da acanhada fogueira. Jürgen Einsheart parou um segundo, receoso do gesto, mas cortou … Continuar lendo