O Cão, o Velho e o Mar – Miniconto

O Cão, o Velho e o Mar – Miniconto

O CÃO, O VELHO E O MAR Desceu do carro e foi em direção ao mar, aquela imensidão azul de voz murmurante morrendo na areia. Segurou o cão no colo, aquela criatura peluda minúscula que o fizera esquecer as amarguras, … Continuar lendo

Oceano – Miniconto

Oceano – Miniconto

Sentou-se na duna com dificuldade, em meio à vegetação rala, e observou o brilho do sol nas águas. Salpicos de luz cintilando. Um dia de céu limpo, tão azul e claro que inundava o olhar. Respirou aquele ar de sal … Continuar lendo

Guiomar – Miniconto

Guiomar – Miniconto

GUIOMAR Na praia do Farol, nem o sol, nem o mar, nem o sossego da areia era mais requisitado do que o trabalho de Guiomar. No ofício, há mais de 20 anos, entregava o fado a homens e mulheres sem … Continuar lendo

O Planeta Azul – Miniconto

O Planeta Azul – Miniconto

“Uma pérola azulada em meio à escuridão, iluminada por uma estrela velha e amarela.” Essa foi a descrição relatada por Zudac para o comandante da frota ao cruzar um dos braços da galáxia a caminho da nebulosa de Maktor Bekmr. … Continuar lendo

A Borboleta – Miniconto

A Borboleta – Miniconto

Quando a filha adoeceu, José soprou o vidro e construiu uma borboleta multicolorida. Soprar vidro era seu trabalho, moldando com a zarabatana e usando um maçarico. Homem, matéria e fogo se transformavam na feitura de cristais naquela fábrica já centenária. … Continuar lendo

A Senhora da Floresta – Miniconto

A Senhora da Floresta – Miniconto

A SENHORA DA FLORESTA Próxima de Ulork, um povoado esquecido e longínquo, ao sul da terra de Guustul, cresce uma floresta vermelha. Suas densas árvores estendiam seus galhos robusto e se entrelaçam e se derramam pela terra enraizando-se e originando … Continuar lendo

A Trilha – Miniconto

A Trilha – Miniconto

A TRILHA Próximo ao Quinto Distrito de uma cidadezinha qualquer existe uma trilha peculiar. Contam os caminhantes que da terra, naquelas paragens, brota uma água vermelha viscosa em determinado período do ano, quando a primavera está para terminar seu último … Continuar lendo

As Vitrines – Miniconto

As Vitrines – Miniconto

Mercatura é uma cidade comercial. Não há uma única rua sequer sem vitrines alinhadas lado a lado do começo ao fim. Os cidadãos mercaturianos têm suas casas construídas sobre as lojas. Farmácias, óticas, lancherias, qualquer empreendimento comercial só se instala … Continuar lendo

Sala de Espelhos – Miniconto

Sala de Espelhos – Miniconto

Descobriu-se presa na sala de espelhos; sua imagem, tão vívida, replicada incontáveis vezes. Mesma altura, mesmos vícios, mesmo vinco na testa. Viu-se presa no caleidoscópio multicolorido. Mas não era ela. Eram as outras. Suas versões. Ela, desbotada, dissipada em crenças … Continuar lendo

Oráculo – Miniconto

Oráculo – Miniconto

Quando Augusto Coelho comprou a propriedade, buscava sossego e distância do barulho da cidade. A casa, embora centenária, mantinha-se conservada e não exigiu grandes restauros. Os jovens legatários desfizeram-se da herança por conveniência. Moravam longe e não possuíam condições financeiras … Continuar lendo

Testemunha Ocular – Miniconto

Testemunha Ocular – Miniconto

Romualdo, era um observador da cidade e de seus habitantes. Sofia, sua esposa sempre o instigava a buscar novos passatempos depois do acidente que lhe privou das pernas. Em seus quase setenta anos, depois da partida da amada, abraçou a … Continuar lendo

Oto – Miniconto

Créditos da imagem: Evelyn Postali

Oto nasceu em um dia ensolarado e chorou até anoitecer. Depois, pegava no sono pela manhã, ao nascer do dia, quando os pais, exaustos, atracavam-se no batente.

Amava as frutas e quando criança, sua mãe admirava-se com seu paladar, muito diferente dos filhos de suas amigas. O tal ponto positivo contrabalançava os hábitos noturnos.

A rotina da casa foi alterada em função do pequeno. O pai, encontrou um trabalho noturno e a mãe, adaptou-se às exigências tornando-se produtora de eventos, compatibilizando horários.

Com ouvido absoluto, iniciou-se na música. Transposições de harmonias, desarmonias, composições além do mais contemporâneo. O professor admirou-se e, tempos depois, o discípulo superou o mestre.

Em sala de aula, dormia ouvindo a professora e a dificuldade de aprendizado diurno foi superada com aulas extraclasse no vespertino e noite, onde sua genialidade expandiu-se e superou o tempo escolar normal, entrando precocemente para a universidade.

Apesar de recluso, ganhou amigos também ‘estranhos’ aos olhos da sociedade. Vestiam-se de preto, pintavam os olhos, tatuavam o corpo. Separou-se da família ao completar 21.

Oto desapareceu em uma noite, no verão de 69, na beira de um rio, perto de sua cidade natal, onde o grupo acampava. Dos relatos colhidos pelos investigadores, o mais estranho foi de Rúbia. A moça afirmou ter visto Oto ser alçado pelo bando de morcegos e sumir na escuridão da floresta. Mergulhadores estenderam as buscas para além dos limites possíveis. Policiais e grupos auxiliares percorreram a extensão da floresta durante uma semana ininterrupta. Cartazes com a imagem de Oto ainda podem ser encontrados nas delegacias da região e em publicações de familiares e amigos.

Histórias Fantásticas (8)

O Castelo da Lua

Ao pé da colina, na beira do precipício, bem ao sul do território,  Valjean, ainda criança, viu o pai construir um castelo. Uma década dedicada ao palácio. Arquitetos e pedreiros do reino fizeram subir a edificação em tempo recorde e obreiros de várias partes dos territórios adjacentes completaram os detalhes.

O soberano planejou com minúcia cada uma das salas, passarelas, escadas, torres e muradas. Cozinha, biblioteca, quartos vazios exceto dois, localizados na torre mais alta. Pedras brancas sobre pedras brancas, certificou-se da vedação de cada cubículo, de cada passagem, tanto nos porões quanto nos andares superiores. Janelas gradeadas e adornadas em baixo-relevo em prata. As únicas janelas sem grades tinham vista para o mar e estavam na torre dos quartos mobiliados, mas sem saída a não ser para o abismo.

Uma porta pesada cuja tranca travaria após a primeira descida constituía-se único acesso ao castelo.

Na cobertura, firmou bandeiras brancas e totens adornados com a imagem da lua.

Do lado de fora, impôs um cercado de lanças com pontas de prata inclinadas 45° para dentro e para fora contornando cada lado do burgo. E, antes da barreira pontiaguda de aço, uma extensa área de espinheiros, sem qualquer estrada, sem qualquer brecha de passagem.

Valjean viu as árvores frutíferas de várias espécies crescendo no pátio interno. No centro, um jardim com acônitos, freixos e rododendros roxos e uma pequena horta com especiarias. Um galinheiro e um chiqueiro na ala mais afastada. Por noites a fio, observou seu pai enfeixar uma obra única com textos e relatos sobre o cultivo das espécies vegetais e sobre a criação dos animais, sobre o preparo de alimentos, sobre medicina caseira e organização doméstica.

Durante longos dez anos, o pai o ensinou a ler, tocar violão, cozinhar, cultivar os alimentos, falar os dialetos da região, misturar as ervas, entender o céu de cada estação, as fases da lua. No dia do décimo oitavo ano de Valjean, o soberano fez descer a pesada porta, trancando-se no castelo com o filho. Subiu ao terraço e sentou-se com ele em meio aos totens esperando a lua cheia crescer no horizonte.

O Escudo de Nirmud

Naquele tempo, o reino era desmilitarizado, desprovido de exército e ganância. O único combate aceitável era o combate à fome que, em época de seca ou enchente, destruía os sonhos de uma sociedade justa e evoluída. Por esse motivo, as mãos de Nirmud plantavam os grãos, curavam os doentes, caçavam e escreviam as leis dos antigos. Nenhum outro cidadão tinha tanto prestígio quanto ele, o predestinado.

Foi difícil conviver com a guerra cósmica, trazida por exércitos desconhecidos, rasgando a terra e criando feridas profundas. Foi igualmente difícil ver seu pai e seus irmãos morrerem sob espadas faiscantes que jamais manuseara. Nirmud correu pela pradaria descalço, de mãos vazias, competindo com o vento e clamando pelos deuses de sua crença.

Então, caiu diante de um escudo cujas cores assemelhavam-se às chamas da forja e tão brilhante quanto as pedras reluzentes encontradas nos rios. Junto dele, uma maça, semelhante às clavas de madeira que seus ancestrais carregavam, mas diferenciada pelo material, tão reluzente quanto o escudo.

Os deuses haviam atendido seu clamor. Ele tomou o escudo e desceu para onde a luta acontecia. Não houve espada capaz de quebrar sua defesa; nenhuma arma capaz de macular seu corpo. Nirmud fez tombar os inimigos, um a um; sucumbiram diante dele.

Retrospectiva

Retrospectiva

2021 foi, sem dúvidas, muito mais controverso que 2021. Não vou me deter nos dissabores vividos. Quero, sim, tornar evidentes as realizações, especialmente na área de Literatura, onde entre exercícios de escrita e publicações consegui elevar os ânimos e afastar … Continuar lendo

Esperança – Miniconto

Esperança – Miniconto

Esperança juntava as mãozinhas, fechava os olhos, entrava e ficava imóvel durante oculto. Sua mãe, ao lado, achava estranho, a atitude, o jeito tão ingênuo, o balbucio de palavras incompreensíveis, mas adorável de qualquer modo. A menina não saia de … Continuar lendo

Histórias Fantásticas (7)

Cercado 3

Vasculhou as prateleiras aéreas. Encontrou biscoitos e pão. Abriu o refrigerador. Separou a carne, embalando-a em um recipiente de plástico. Depois, o queijo, em outro, e o leite. Várias caixas de leite. Juntou um dos guardanapos maiores e colocou dentro da cesta. Organizou os itens lado a lado. Abriu as portas do balcão debaixo e retirou algumas latas de conserva.  Abriu-as, colocando o conteúdo em outro pote. No dia seguinte, precisaria fazer uma visita ao supermercado.

A mãe, sentada à janela, recostada na cadeira estofada, segurava o cordão de contas e dividia a atenção entre o jardim multicolorido em seus desenhos labirínticos e a movimentação do filho. “Caprichoso”, sempre pensava, lembrando-se em como a delicadeza fazia parte da vida de Anton. Desde criança, em pequenas incursões pelos arredores, juntando coisas, analisando, fazendo experiências. Depois, adulto, os estudos mais complicados, o amontoado de livros, de vidros, de líquidos coloridos, seguindo os passos do pai.

O pai… O pai sentiria orgulho. Um filho inteligente, recluso, mas inteligente, dono de uma propriedade daquele tamanho, comprada com o trabalho de pesquisa realizado naquelas grandes corporações industriais. Ao vê-lo assim, homem feito, dono de uma pequena fortuna, sim, o pai encheria o peito e sustentaria o mesmo olhar altivo da época em que arrecadava reconhecimento pelas descobertas químicas.

― Eu não me demoro ― beijou-a na testa. ― Vou até o cercado 3.

― O cercado 3?

― É, mãe. Preciso alimentar os dinossauros.

Ela o segurou pelo braço e disse a única coisa que era possível dizer. ― Tenha cuidado.

O Mercador de Tapetes

“I am not from here
My soul came from the land of deserts, Date trees & Oasises
I can sense it in my love of watching golden red sun sets
In my longing for the endlessness
of the desert
For The Oasis & The lone veiled passenger wandering
to give his secret of alchemy to the Worthiest”

~ Hoorayen Fatima ~

“Moro ao sul do grande deserto, a leste do único e mais antigo oásis”, respondeu Amir para a criança, enquanto escolhia os panos vermelhos.

O comércio de algodão aquece a economia de Mázaca, uma cidade situada na rota dos viajantes e mercadores do mundo. Pinturas nas paredes, esculturas de barro, espelhos de obsidiana e baixos-relevos emprestam charme às ruas de chão batido, de panos nas janelas e toldos coloridos. A cidade se estende em uma planície verdejante, rodeada de colinas com florestas ao pé de um vulcão.

“É muito longe?”

“Mais de 8 luas, pequeno Damat”, respondeu o mercador.

Amir viaja duas, três vezes ao ano dependendo da demanda. Leva especiarias da sua região e volta com tecidos e tapetes. Sua caravana é pequena, composta por 10 camelos. O mais velho e mais bem cuidado; herança de seu pai.

“Pode levar o Peregrino com você?”, apontou para o homem a poucos passos deles. “Ele precisa chegar ao oásis e você é o escolhido.”

Amir analisou o homem de muita idade em vestes modestas segurando um cajado.

“Talvez seja bom trocar a companhia da solidão pela companhia de alguém.”

O garoto não esperou. Saiu em direção ao velho, recebeu algumas moedas e desapareceu pela ruela lateral. Amir aproximou-se do homem e cumprimentou-o com reverência.

“Sou Amir, de Sharurah, filho de Emir de Najram. Minha caravana parte antes do sol. Posso colocar seus pertences em um dos camelos.”

“Tudo o que carrego está aqui comigo”, e retribui a saudação, sou ‘Shaheen’.

No alvorecer, a caravana partiu. Amir seguiu na frente, seguido de perto pelo Peregrino. Foram 8 luas de pouca conversa. O mercador, acostumado com o silêncio, entendia que o velho poupava fôlego. Ora caminhando, ora sobre um camelo, a paisagem não mudava. Areia para todo o lado, um ou outro oásis para abastecer os cantis e matar a sede. Em todo o trajeto, Amir observou o falcão sobrevoar sua caravana. “Bons presságios, Shaheen” apontou para o céu e o velho assentiu. “Uma jornada tranquila.”

“Um caminho horado,” acrescentou o Peregrino.

No último oásis, perto da hora do pôr-do-sol, o Peregrino sentou-se ao lado de Amir, aceitando o cantil e servindo-se de um pouco.

“Está na hora de eu partir.”

O sol, descendo no horizonte, avermelhava a areia e o verde da vegetação ao redor do oásis dourava.

“Estamos perto da minha aldeia. Mais um dia e meio”, explicou o mercador, atiçando o fogo. “Poderá descansar em minha humilde casa e, depois, seguir viagem.”

Nos olhos do Peregrino, o brilho do sol e do fogo se misturaram. Era velho não só pela barba e cabelos brancos.  Estendeu seu bastão a Amir. “Um presente.” Amir o tomou para si. “Aceite.” E, do alto, o falcão soltou sua voz poderosa e rouca enquanto corrupiava. “Minha jornada termina aqui e a sua começa hoje, Amir, de Sharurah, filho de Emir, de Najram. Haverá dias de luta, de tornar o espírito forte, de fazer valer a Lei.” E dizendo isso, silenciou e fechou os olhos, como se meditasse. O falcão desceu do alto e assentou-se no ombro de Amir, deslumbrado pela presença da ave e completamente arrebatado pelo momento. E quando o deserto mergulhou no último raio de sol, a poeira ao redor de Shaheen ergueu-se e ele evaporou-se junto dela.

O Astronauta – Miniconto

Créditos da imagem: Evelyn Postali

Ejetou-se da cabina assim que o incêndio interno atingiu proporções incontroláveis. Foi lançado ao espaço em uma fração de segundos. Foi se distanciando da nave como em sonhos, com lentidão e suavidade. Girou o corpo e assistiu à desintegração do que antes fora sua casa por anos a fio; a casa que o fazia circular pelo cosmos em busca de algo que sequer ele mesmo sabia.

Ao seu redor, a escuridão e pontos cintilantes, distantes anos-luz de onde estava agora, acenavam com discrição. Calculou, como sempre fazia. Os marcadores apontavam o fim. Tinha cada vez menos o que respirar. Cada vez mais sono. Os olhos pesados. Entregou-se ao espaço. Afinal, aquele vazio o abraçava tão aconchegante quanto no começo e talvez fosse ali, em meio ao nada, o lugar certo.

O corpo flutuava. Ele também. Enquanto o corpo degenerava, ele, extasiado, seguia de olhos abertos na imensidão, iluminada e perpassada por bilhões e bilhões de sóis, por cometas e meteoros, corpos celestes estranhos e nuvens de poeira cósmica. Dentro daquele traje, junto à carcaça, já não batia coração algum. No entanto, sentia-se completamente vivo e pulsante. Dentro dele habitava tudo; o universo inteiro, pleno e esplêndido.

O Escudo de Nirmud – Miniconto

Créditos da imagem: Evelyn Postali

O Escudo de Nirmud

Naquele tempo, o reino era desmilitarizado, desprovido de exército e ganância. O único combate aceitável era o combate à fome que, em época de seca ou enchente, destruía os sonhos de uma sociedade justa e evoluída. Por esse motivo, as mãos de Nirmud plantavam os grãos, curavam os doentes, caçavam e escreviam as leis dos antigos. Nenhum outro cidadão tinha tanto prestígio quanto ele, o predestinado.

Foi difícil conviver com a guerra cósmica, trazida por exércitos desconhecidos, rasgando a terra e criando feridas profundas. Foi igualmente difícil ver seu pai e seus irmãos morrerem sob espadas faiscantes que jamais manuseara. Nirmud correu pela pradaria descalço, de mãos vazias, competindo com o vento e clamando pelos deuses de sua crença.

Então, caiu diante de um escudo cujas cores assemelhavam-se às chamas da forja e tão brilhante quanto as pedras reluzentes encontradas nos rios. Junto dele, uma maça, semelhante às clavas de madeira que seus ancestrais carregavam, mas diferenciada pelo material, tão reluzente quanto o escudo.

Os deuses haviam atendido seu clamor. Ele tomou o escudo e desceu para onde a luta acontecia. Não houve espada capaz de quebrar sua defesa; nenhuma arma capaz de macular seu corpo. Nirmud fez tombar os inimigos, um a um; sucumbiram diante dele.

Histórias Fantásticas (6)

O Gato Azul

Ori nasceu em família de muitos irmãos e irmãs, em um terreno baldio no centro de uma grande cidade. Moradores de rua e miseráveis que eram, viviam do que encontravam em terrenos vazios ou fundos de restaurantes e da misericórdia de donas de casa sensíveis. Sua mãe, ao vê-lo pela primeira vez não estranhou a cor. Seu pai, contudo, torceu o nariz e questionou a descendência, uma vez que todos os outros seguiam o padrão: alaranjado, amarelo e branco.

Levou uma infância tranquila, apesar das brincadeiras da família sobre os tons azulados. A adolescência, no entanto, desestabilizou a convivência fazendo-o afastar-se de casa. Seu pelo alongou sedoso, ondulou e, ao vento, as ondas faziam-no parecer estar se evaporando rumo ao céu. Das ondas, nasciam pontos luminosos. Grandes, pequenos, cintilantes. Sob o sol, faíscas visíveis. À noite, sob o luar, assemelhavam-se a estrelas, competindo com o céu.

A vizinhança estranhava o gato. Criaram-se histórias sobre Ori, sobre sua natureza mágica, pertencente às bruxas e seres sobrenaturais, e multiplicavam-se tentativas de aprisionar o bichano. O sossego acontecia depois da fuga para algum lugar isolado, longe das vistas do mundo. Passou a não circular de dia. Apenas a Lua acompanhava suas caminhadas e acarinhava seu sono.

Quando completou idade de adulto, seu pelo tornou-se de um azul translúcido e o corpo ganhou leveza fazendo suas corridas e saltos mais ágeis, ganhando alturas antes não alcançadas. Por causa de sua aparência, cães corriam para longe. Os outros gatos sentiam-se protegidos na presença dele e foi assim por muito tempo. Ori não entendia sua natureza, mas aceitava o destino que lhe fora imposto.

Ao fechar-se o ciclo de 8 anos, na primeira lua cheia, as estrelas de Ori brilharam com mais intensidade. Seu pelo cintilou e ele voou para o céu. Quem o viu naquela noite conta que ele foi se desfazendo em luz e subindo, subindo, até ganhar lugar junto à Lua.

O Relógio

Samara encontrou-o no fundo de uma gaveta, na escrivaninha do avô, quando seu pai e tios juntavam coisas e separavam para doação depois da morte do avô. Um relógio antigo, de corda, cujo ponteiro maior se encontrava fora do eixo, preso apenas pelo ponteiro fininho dos segundos.

― Posso ficar com ele, pai? ― perguntou, erguendo-o alto para o pai ver do que se tratava.

― Ele não funciona, filha. Jogue no lixo.

― Mas é bonito. Posso ficar com ele?

― Claro, só não me peça para mandar consertar. Seu avô dizia que não tinha conserto.

― Ele dizia que tinha parado no dia em que ele chegou aqui ― completou o tio mais velho. ― Quando conheceu sua vó.

― Deve ter sido por amor a mamãe ― Laura disse brincando. ― Mas não é engraçado? Ele nunca se desfez dele.

Não importava muito. Ela estava encantada com o relógio. Ela o consertaria por conta. Não seria difícil abrir o vidro e encaixar o ponteiro, dar corda, ouvir o tic-tac… Seu avô talvez gostasse de saber que alguém naquela família ficaria com ele.

À noite, já em casa, no quarto, com o computador ligado e as abas de pesquisa abertas, lia com atenção o apanhado de textos sobre relógios antigos. Assistiu aos vídeos atenta e deu início àquela jornada de relojoeira amadora.

Com a ajuda de uma pinça tomada de empréstimo das coisas da mãe, abriu a parte posterior. Nela, uma inscrição bem visível: AOM, 3022. Depois de aberto, desenroscou os parafusos das duas presilhas laterais com a ponta da pinça servindo de chave de fenda, retirou o corpo do mecanismo e o deitou sobre a mesinha. Recolocou o ponteiro no lugar, tomando o cuidado de não entortar os outros dois. Acertou o horário delicadamente. Devolveu tudo ao seu lugar e parafusou nas presilhas. Restabeleceu a tampa posterior.

― Pronto! Agora é só dar corda. E o relógio brilhou.

Créditos das imagens: Evelyn Postali

O Castelo da Lua – Miniconto

O Castelo da Lua – Miniconto

O CASTELO DA LUA Ao pé da colina, na beira do precipício, bem ao sul do território,  Valjean, ainda criança, viu o pai construir um castelo. Uma década dedicada ao palácio. Arquitetos e pedreiros do reino fizeram subir a edificação … Continuar lendo