O Planeta Azul – Miniconto

O Planeta Azul – Miniconto

“Uma pérola azulada em meio à escuridão, iluminada por uma estrela velha e amarela.” Essa foi a descrição relatada por Zudac para o comandante da frota ao cruzar um dos braços da galáxia a caminho da nebulosa de Maktor Bekmr. … Continuar lendo

A Borboleta – Miniconto

A Borboleta – Miniconto

Quando a filha adoeceu, José soprou o vidro e construiu uma borboleta multicolorida. Soprar vidro era seu trabalho, moldando com a zarabatana e usando um maçarico. Homem, matéria e fogo se transformavam na feitura de cristais naquela fábrica já centenária. … Continuar lendo

A Senhora da Floresta – Miniconto

A Senhora da Floresta – Miniconto

A SENHORA DA FLORESTA Próxima de Ulork, um povoado esquecido e longínquo, ao sul da terra de Guustul, cresce uma floresta vermelha. Suas densas árvores estendiam seus galhos robusto e se entrelaçam e se derramam pela terra enraizando-se e originando … Continuar lendo

A Trilha – Miniconto

A Trilha – Miniconto

A TRILHA Próximo ao Quinto Distrito de uma cidadezinha qualquer existe uma trilha peculiar. Contam os caminhantes que da terra, naquelas paragens, brota uma água vermelha viscosa em determinado período do ano, quando a primavera está para terminar seu último … Continuar lendo

As Vitrines – Miniconto

As Vitrines – Miniconto

Mercatura é uma cidade comercial. Não há uma única rua sequer sem vitrines alinhadas lado a lado do começo ao fim. Os cidadãos mercaturianos têm suas casas construídas sobre as lojas. Farmácias, óticas, lancherias, qualquer empreendimento comercial só se instala … Continuar lendo

Sala de Espelhos – Miniconto

Sala de Espelhos – Miniconto

Descobriu-se presa na sala de espelhos; sua imagem, tão vívida, replicada incontáveis vezes. Mesma altura, mesmos vícios, mesmo vinco na testa. Viu-se presa no caleidoscópio multicolorido. Mas não era ela. Eram as outras. Suas versões. Ela, desbotada, dissipada em crenças … Continuar lendo

Oráculo – Miniconto

Oráculo – Miniconto

Quando Augusto Coelho comprou a propriedade, buscava sossego e distância do barulho da cidade. A casa, embora centenária, mantinha-se conservada e não exigiu grandes restauros. Os jovens legatários desfizeram-se da herança por conveniência. Moravam longe e não possuíam condições financeiras … Continuar lendo

Testemunha Ocular – Miniconto

Testemunha Ocular – Miniconto

Romualdo, era um observador da cidade e de seus habitantes. Sofia, sua esposa sempre o instigava a buscar novos passatempos depois do acidente que lhe privou das pernas. Em seus quase setenta anos, depois da partida da amada, abraçou a … Continuar lendo

Oto – Miniconto

Créditos da imagem: Evelyn Postali

Oto nasceu em um dia ensolarado e chorou até anoitecer. Depois, pegava no sono pela manhã, ao nascer do dia, quando os pais, exaustos, atracavam-se no batente.

Amava as frutas e quando criança, sua mãe admirava-se com seu paladar, muito diferente dos filhos de suas amigas. O tal ponto positivo contrabalançava os hábitos noturnos.

A rotina da casa foi alterada em função do pequeno. O pai, encontrou um trabalho noturno e a mãe, adaptou-se às exigências tornando-se produtora de eventos, compatibilizando horários.

Com ouvido absoluto, iniciou-se na música. Transposições de harmonias, desarmonias, composições além do mais contemporâneo. O professor admirou-se e, tempos depois, o discípulo superou o mestre.

Em sala de aula, dormia ouvindo a professora e a dificuldade de aprendizado diurno foi superada com aulas extraclasse no vespertino e noite, onde sua genialidade expandiu-se e superou o tempo escolar normal, entrando precocemente para a universidade.

Apesar de recluso, ganhou amigos também ‘estranhos’ aos olhos da sociedade. Vestiam-se de preto, pintavam os olhos, tatuavam o corpo. Separou-se da família ao completar 21.

Oto desapareceu em uma noite, no verão de 69, na beira de um rio, perto de sua cidade natal, onde o grupo acampava. Dos relatos colhidos pelos investigadores, o mais estranho foi de Rúbia. A moça afirmou ter visto Oto ser alçado pelo bando de morcegos e sumir na escuridão da floresta. Mergulhadores estenderam as buscas para além dos limites possíveis. Policiais e grupos auxiliares percorreram a extensão da floresta durante uma semana ininterrupta. Cartazes com a imagem de Oto ainda podem ser encontrados nas delegacias da região e em publicações de familiares e amigos.

Histórias Fantásticas (8)

O Castelo da Lua

Ao pé da colina, na beira do precipício, bem ao sul do território,  Valjean, ainda criança, viu o pai construir um castelo. Uma década dedicada ao palácio. Arquitetos e pedreiros do reino fizeram subir a edificação em tempo recorde e obreiros de várias partes dos territórios adjacentes completaram os detalhes.

O soberano planejou com minúcia cada uma das salas, passarelas, escadas, torres e muradas. Cozinha, biblioteca, quartos vazios exceto dois, localizados na torre mais alta. Pedras brancas sobre pedras brancas, certificou-se da vedação de cada cubículo, de cada passagem, tanto nos porões quanto nos andares superiores. Janelas gradeadas e adornadas em baixo-relevo em prata. As únicas janelas sem grades tinham vista para o mar e estavam na torre dos quartos mobiliados, mas sem saída a não ser para o abismo.

Uma porta pesada cuja tranca travaria após a primeira descida constituía-se único acesso ao castelo.

Na cobertura, firmou bandeiras brancas e totens adornados com a imagem da lua.

Do lado de fora, impôs um cercado de lanças com pontas de prata inclinadas 45° para dentro e para fora contornando cada lado do burgo. E, antes da barreira pontiaguda de aço, uma extensa área de espinheiros, sem qualquer estrada, sem qualquer brecha de passagem.

Valjean viu as árvores frutíferas de várias espécies crescendo no pátio interno. No centro, um jardim com acônitos, freixos e rododendros roxos e uma pequena horta com especiarias. Um galinheiro e um chiqueiro na ala mais afastada. Por noites a fio, observou seu pai enfeixar uma obra única com textos e relatos sobre o cultivo das espécies vegetais e sobre a criação dos animais, sobre o preparo de alimentos, sobre medicina caseira e organização doméstica.

Durante longos dez anos, o pai o ensinou a ler, tocar violão, cozinhar, cultivar os alimentos, falar os dialetos da região, misturar as ervas, entender o céu de cada estação, as fases da lua. No dia do décimo oitavo ano de Valjean, o soberano fez descer a pesada porta, trancando-se no castelo com o filho. Subiu ao terraço e sentou-se com ele em meio aos totens esperando a lua cheia crescer no horizonte.

O Escudo de Nirmud

Naquele tempo, o reino era desmilitarizado, desprovido de exército e ganância. O único combate aceitável era o combate à fome que, em época de seca ou enchente, destruía os sonhos de uma sociedade justa e evoluída. Por esse motivo, as mãos de Nirmud plantavam os grãos, curavam os doentes, caçavam e escreviam as leis dos antigos. Nenhum outro cidadão tinha tanto prestígio quanto ele, o predestinado.

Foi difícil conviver com a guerra cósmica, trazida por exércitos desconhecidos, rasgando a terra e criando feridas profundas. Foi igualmente difícil ver seu pai e seus irmãos morrerem sob espadas faiscantes que jamais manuseara. Nirmud correu pela pradaria descalço, de mãos vazias, competindo com o vento e clamando pelos deuses de sua crença.

Então, caiu diante de um escudo cujas cores assemelhavam-se às chamas da forja e tão brilhante quanto as pedras reluzentes encontradas nos rios. Junto dele, uma maça, semelhante às clavas de madeira que seus ancestrais carregavam, mas diferenciada pelo material, tão reluzente quanto o escudo.

Os deuses haviam atendido seu clamor. Ele tomou o escudo e desceu para onde a luta acontecia. Não houve espada capaz de quebrar sua defesa; nenhuma arma capaz de macular seu corpo. Nirmud fez tombar os inimigos, um a um; sucumbiram diante dele.

Retrospectiva

Retrospectiva

2021 foi, sem dúvidas, muito mais controverso que 2021. Não vou me deter nos dissabores vividos. Quero, sim, tornar evidentes as realizações, especialmente na área de Literatura, onde entre exercícios de escrita e publicações consegui elevar os ânimos e afastar … Continuar lendo

Esperança – Miniconto

Esperança – Miniconto

Esperança juntava as mãozinhas, fechava os olhos, entrava e ficava imóvel durante oculto. Sua mãe, ao lado, achava estranho, a atitude, o jeito tão ingênuo, o balbucio de palavras incompreensíveis, mas adorável de qualquer modo. A menina não saia de … Continuar lendo

Histórias Fantásticas (7)

Cercado 3

Vasculhou as prateleiras aéreas. Encontrou biscoitos e pão. Abriu o refrigerador. Separou a carne, embalando-a em um recipiente de plástico. Depois, o queijo, em outro, e o leite. Várias caixas de leite. Juntou um dos guardanapos maiores e colocou dentro da cesta. Organizou os itens lado a lado. Abriu as portas do balcão debaixo e retirou algumas latas de conserva.  Abriu-as, colocando o conteúdo em outro pote. No dia seguinte, precisaria fazer uma visita ao supermercado.

A mãe, sentada à janela, recostada na cadeira estofada, segurava o cordão de contas e dividia a atenção entre o jardim multicolorido em seus desenhos labirínticos e a movimentação do filho. “Caprichoso”, sempre pensava, lembrando-se em como a delicadeza fazia parte da vida de Anton. Desde criança, em pequenas incursões pelos arredores, juntando coisas, analisando, fazendo experiências. Depois, adulto, os estudos mais complicados, o amontoado de livros, de vidros, de líquidos coloridos, seguindo os passos do pai.

O pai… O pai sentiria orgulho. Um filho inteligente, recluso, mas inteligente, dono de uma propriedade daquele tamanho, comprada com o trabalho de pesquisa realizado naquelas grandes corporações industriais. Ao vê-lo assim, homem feito, dono de uma pequena fortuna, sim, o pai encheria o peito e sustentaria o mesmo olhar altivo da época em que arrecadava reconhecimento pelas descobertas químicas.

― Eu não me demoro ― beijou-a na testa. ― Vou até o cercado 3.

― O cercado 3?

― É, mãe. Preciso alimentar os dinossauros.

Ela o segurou pelo braço e disse a única coisa que era possível dizer. ― Tenha cuidado.

O Mercador de Tapetes

“I am not from here
My soul came from the land of deserts, Date trees & Oasises
I can sense it in my love of watching golden red sun sets
In my longing for the endlessness
of the desert
For The Oasis & The lone veiled passenger wandering
to give his secret of alchemy to the Worthiest”

~ Hoorayen Fatima ~

“Moro ao sul do grande deserto, a leste do único e mais antigo oásis”, respondeu Amir para a criança, enquanto escolhia os panos vermelhos.

O comércio de algodão aquece a economia de Mázaca, uma cidade situada na rota dos viajantes e mercadores do mundo. Pinturas nas paredes, esculturas de barro, espelhos de obsidiana e baixos-relevos emprestam charme às ruas de chão batido, de panos nas janelas e toldos coloridos. A cidade se estende em uma planície verdejante, rodeada de colinas com florestas ao pé de um vulcão.

“É muito longe?”

“Mais de 8 luas, pequeno Damat”, respondeu o mercador.

Amir viaja duas, três vezes ao ano dependendo da demanda. Leva especiarias da sua região e volta com tecidos e tapetes. Sua caravana é pequena, composta por 10 camelos. O mais velho e mais bem cuidado; herança de seu pai.

“Pode levar o Peregrino com você?”, apontou para o homem a poucos passos deles. “Ele precisa chegar ao oásis e você é o escolhido.”

Amir analisou o homem de muita idade em vestes modestas segurando um cajado.

“Talvez seja bom trocar a companhia da solidão pela companhia de alguém.”

O garoto não esperou. Saiu em direção ao velho, recebeu algumas moedas e desapareceu pela ruela lateral. Amir aproximou-se do homem e cumprimentou-o com reverência.

“Sou Amir, de Sharurah, filho de Emir de Najram. Minha caravana parte antes do sol. Posso colocar seus pertences em um dos camelos.”

“Tudo o que carrego está aqui comigo”, e retribui a saudação, sou ‘Shaheen’.

No alvorecer, a caravana partiu. Amir seguiu na frente, seguido de perto pelo Peregrino. Foram 8 luas de pouca conversa. O mercador, acostumado com o silêncio, entendia que o velho poupava fôlego. Ora caminhando, ora sobre um camelo, a paisagem não mudava. Areia para todo o lado, um ou outro oásis para abastecer os cantis e matar a sede. Em todo o trajeto, Amir observou o falcão sobrevoar sua caravana. “Bons presságios, Shaheen” apontou para o céu e o velho assentiu. “Uma jornada tranquila.”

“Um caminho horado,” acrescentou o Peregrino.

No último oásis, perto da hora do pôr-do-sol, o Peregrino sentou-se ao lado de Amir, aceitando o cantil e servindo-se de um pouco.

“Está na hora de eu partir.”

O sol, descendo no horizonte, avermelhava a areia e o verde da vegetação ao redor do oásis dourava.

“Estamos perto da minha aldeia. Mais um dia e meio”, explicou o mercador, atiçando o fogo. “Poderá descansar em minha humilde casa e, depois, seguir viagem.”

Nos olhos do Peregrino, o brilho do sol e do fogo se misturaram. Era velho não só pela barba e cabelos brancos.  Estendeu seu bastão a Amir. “Um presente.” Amir o tomou para si. “Aceite.” E, do alto, o falcão soltou sua voz poderosa e rouca enquanto corrupiava. “Minha jornada termina aqui e a sua começa hoje, Amir, de Sharurah, filho de Emir, de Najram. Haverá dias de luta, de tornar o espírito forte, de fazer valer a Lei.” E dizendo isso, silenciou e fechou os olhos, como se meditasse. O falcão desceu do alto e assentou-se no ombro de Amir, deslumbrado pela presença da ave e completamente arrebatado pelo momento. E quando o deserto mergulhou no último raio de sol, a poeira ao redor de Shaheen ergueu-se e ele evaporou-se junto dela.

O Astronauta – Miniconto

Créditos da imagem: Evelyn Postali

Ejetou-se da cabina assim que o incêndio interno atingiu proporções incontroláveis. Foi lançado ao espaço em uma fração de segundos. Foi se distanciando da nave como em sonhos, com lentidão e suavidade. Girou o corpo e assistiu à desintegração do que antes fora sua casa por anos a fio; a casa que o fazia circular pelo cosmos em busca de algo que sequer ele mesmo sabia.

Ao seu redor, a escuridão e pontos cintilantes, distantes anos-luz de onde estava agora, acenavam com discrição. Calculou, como sempre fazia. Os marcadores apontavam o fim. Tinha cada vez menos o que respirar. Cada vez mais sono. Os olhos pesados. Entregou-se ao espaço. Afinal, aquele vazio o abraçava tão aconchegante quanto no começo e talvez fosse ali, em meio ao nada, o lugar certo.

O corpo flutuava. Ele também. Enquanto o corpo degenerava, ele, extasiado, seguia de olhos abertos na imensidão, iluminada e perpassada por bilhões e bilhões de sóis, por cometas e meteoros, corpos celestes estranhos e nuvens de poeira cósmica. Dentro daquele traje, junto à carcaça, já não batia coração algum. No entanto, sentia-se completamente vivo e pulsante. Dentro dele habitava tudo; o universo inteiro, pleno e esplêndido.

O Escudo de Nirmud – Miniconto

Créditos da imagem: Evelyn Postali

O Escudo de Nirmud

Naquele tempo, o reino era desmilitarizado, desprovido de exército e ganância. O único combate aceitável era o combate à fome que, em época de seca ou enchente, destruía os sonhos de uma sociedade justa e evoluída. Por esse motivo, as mãos de Nirmud plantavam os grãos, curavam os doentes, caçavam e escreviam as leis dos antigos. Nenhum outro cidadão tinha tanto prestígio quanto ele, o predestinado.

Foi difícil conviver com a guerra cósmica, trazida por exércitos desconhecidos, rasgando a terra e criando feridas profundas. Foi igualmente difícil ver seu pai e seus irmãos morrerem sob espadas faiscantes que jamais manuseara. Nirmud correu pela pradaria descalço, de mãos vazias, competindo com o vento e clamando pelos deuses de sua crença.

Então, caiu diante de um escudo cujas cores assemelhavam-se às chamas da forja e tão brilhante quanto as pedras reluzentes encontradas nos rios. Junto dele, uma maça, semelhante às clavas de madeira que seus ancestrais carregavam, mas diferenciada pelo material, tão reluzente quanto o escudo.

Os deuses haviam atendido seu clamor. Ele tomou o escudo e desceu para onde a luta acontecia. Não houve espada capaz de quebrar sua defesa; nenhuma arma capaz de macular seu corpo. Nirmud fez tombar os inimigos, um a um; sucumbiram diante dele.

Histórias Fantásticas (6)

O Gato Azul

Ori nasceu em família de muitos irmãos e irmãs, em um terreno baldio no centro de uma grande cidade. Moradores de rua e miseráveis que eram, viviam do que encontravam em terrenos vazios ou fundos de restaurantes e da misericórdia de donas de casa sensíveis. Sua mãe, ao vê-lo pela primeira vez não estranhou a cor. Seu pai, contudo, torceu o nariz e questionou a descendência, uma vez que todos os outros seguiam o padrão: alaranjado, amarelo e branco.

Levou uma infância tranquila, apesar das brincadeiras da família sobre os tons azulados. A adolescência, no entanto, desestabilizou a convivência fazendo-o afastar-se de casa. Seu pelo alongou sedoso, ondulou e, ao vento, as ondas faziam-no parecer estar se evaporando rumo ao céu. Das ondas, nasciam pontos luminosos. Grandes, pequenos, cintilantes. Sob o sol, faíscas visíveis. À noite, sob o luar, assemelhavam-se a estrelas, competindo com o céu.

A vizinhança estranhava o gato. Criaram-se histórias sobre Ori, sobre sua natureza mágica, pertencente às bruxas e seres sobrenaturais, e multiplicavam-se tentativas de aprisionar o bichano. O sossego acontecia depois da fuga para algum lugar isolado, longe das vistas do mundo. Passou a não circular de dia. Apenas a Lua acompanhava suas caminhadas e acarinhava seu sono.

Quando completou idade de adulto, seu pelo tornou-se de um azul translúcido e o corpo ganhou leveza fazendo suas corridas e saltos mais ágeis, ganhando alturas antes não alcançadas. Por causa de sua aparência, cães corriam para longe. Os outros gatos sentiam-se protegidos na presença dele e foi assim por muito tempo. Ori não entendia sua natureza, mas aceitava o destino que lhe fora imposto.

Ao fechar-se o ciclo de 8 anos, na primeira lua cheia, as estrelas de Ori brilharam com mais intensidade. Seu pelo cintilou e ele voou para o céu. Quem o viu naquela noite conta que ele foi se desfazendo em luz e subindo, subindo, até ganhar lugar junto à Lua.

O Relógio

Samara encontrou-o no fundo de uma gaveta, na escrivaninha do avô, quando seu pai e tios juntavam coisas e separavam para doação depois da morte do avô. Um relógio antigo, de corda, cujo ponteiro maior se encontrava fora do eixo, preso apenas pelo ponteiro fininho dos segundos.

― Posso ficar com ele, pai? ― perguntou, erguendo-o alto para o pai ver do que se tratava.

― Ele não funciona, filha. Jogue no lixo.

― Mas é bonito. Posso ficar com ele?

― Claro, só não me peça para mandar consertar. Seu avô dizia que não tinha conserto.

― Ele dizia que tinha parado no dia em que ele chegou aqui ― completou o tio mais velho. ― Quando conheceu sua vó.

― Deve ter sido por amor a mamãe ― Laura disse brincando. ― Mas não é engraçado? Ele nunca se desfez dele.

Não importava muito. Ela estava encantada com o relógio. Ela o consertaria por conta. Não seria difícil abrir o vidro e encaixar o ponteiro, dar corda, ouvir o tic-tac… Seu avô talvez gostasse de saber que alguém naquela família ficaria com ele.

À noite, já em casa, no quarto, com o computador ligado e as abas de pesquisa abertas, lia com atenção o apanhado de textos sobre relógios antigos. Assistiu aos vídeos atenta e deu início àquela jornada de relojoeira amadora.

Com a ajuda de uma pinça tomada de empréstimo das coisas da mãe, abriu a parte posterior. Nela, uma inscrição bem visível: AOM, 3022. Depois de aberto, desenroscou os parafusos das duas presilhas laterais com a ponta da pinça servindo de chave de fenda, retirou o corpo do mecanismo e o deitou sobre a mesinha. Recolocou o ponteiro no lugar, tomando o cuidado de não entortar os outros dois. Acertou o horário delicadamente. Devolveu tudo ao seu lugar e parafusou nas presilhas. Restabeleceu a tampa posterior.

― Pronto! Agora é só dar corda. E o relógio brilhou.

Créditos das imagens: Evelyn Postali

O Castelo da Lua – Miniconto

O Castelo da Lua – Miniconto

O CASTELO DA LUA Ao pé da colina, na beira do precipício, bem ao sul do território,  Valjean, ainda criança, viu o pai construir um castelo. Uma década dedicada ao palácio. Arquitetos e pedreiros do reino fizeram subir a edificação … Continuar lendo

Histórias Fantásticas (5)

Textos criados a partir de imagem. Minicontos.

ALMIRA

Quando Almira adoeceu, pareceu um dia sem fim, apesar do cheiro de primavera. No último suspiro dado por ela, as nuvens despencaram do céu no final da tarde. Depois, a cor púrpura tomou o horizonte e foi se misturando com o cinza e abriu o céu. Logo que fecharam seus olhos, as luzes do firmamento salpicaram o chão nas ruas onde ela costumava passar e ergueu-se um pó dourado e ele subiu, subiu, como sobe o sol  no horizonte.

Quando juntaram suas mãos, Almira abriu os olhos. Sentiu brotarem asas de suas costas cansadas e o vento abriu as portas e janelas, esvoaçando as cortinas e surpreendendo os que estavam ao seu redor. Almira saiu pela janela e encantou-se com os luzeiros. Estavam por toda a parte, fora e dentro dela, e só percebeu estar no alto quando se deu por conta da leveza do corpo e da ausência de chão.

A estranheza de flutuar se dissipou ao encher os pulmões daquele ar de vida e de mundo, de mãos dadas e estradas, e as asas moveram-se como as dos pardais. As lembranças caíam de seus olhos e construíam uma escada rumo ao infinito. Almira foi pisando leve e seguindo para além quando ouviu Mariela lá embaixo.

“Mira!”, agitava as mãozinhas no ar. “Mira!”

Do meio da ruela, a pequena a chamava, meio encantada, segurando riso e lágrima, meio com medo, já com o peito apertado, meio vazio. Era assim, então? Meio triste, meio lindo?

Almira olhou-a e sorriu como sempre.

“Não esquece de mim, Mira!”

Do alto, a tia acenou e seguiu escada acima até desaparecer.

ALMIRA

When Almira fell ill, it seemed like an endless day, despite the smell of spring. With her last breath, clouds plummeted from the late afternoon sky. Then the purple color took over the horizon and mixed with the gray and opened up the sky. As soon as they closed her eyes, the lights of the firmament splashed the ground in the streets where she used to pass, and a golden dust rose and it rose, and it rose, it rose as the sun rises on the horizon.

When they joined their hands, Almira opened her eyes. She felt wings sprout from her tired back and the wind opened the doors and windows, fluttering the curtains and startling those around her. Almira went out the window and marveled at the lights. They were everywhere, outside and inside her, and she only realized that she was on top when she noticed the lightness of the body and the absence of ground.

The strangeness of floating dissipated as he filled his lungs with that air of life and the world, hand in hand and roads, and the wings moved as sparrows did. Memories fell from her eyes and built a stairway to infinity. Almira was stepping lightly and moving beyond when she heard Mariela downstairs.

“Mira!” She waved her little hands in the air. “Mira!”

From the middle of the alley, the little girl called her, half enchanted, holding back laughter and tears, half afraid, her chest already tight, half empty. Was it like that, then? Kind of sad, kind of beautiful?

Almira looked at her and smiled as always.

“Don’t forget about me, Mira!” From above, the aunt waved and continued upstairs until she disappeared.

CORAÇÃO SOLITÁRIO

Elmut  participava das brincadeiras quando criança. Na convivência com os outros pequenos, costumava entregar-se ao riso e à fantasia. Inventava histórias, corria, e conquistava a simpatia de quem o tivesse por perto.

Durante sua adolescência, atento aos ensinamentos dos alquimistas sobre a natureza e seus elementos, dos menestréis sobre as composições musicais e instrumentos, dos clérigos sobre a escrita e suas interpretações, questionava e buscava saber sempre mais. De sua mãe aprendeu sobre etiqueta e organização doméstica. De seu pai aprendeu que para governar um reino do tamanho daquele que possuía era preciso estar atento à justiça desde as questões mais simples até aquelas que exigiam esforços diplomáticos mais complexos.

De Neuen… Bem… De Neuen aprendeu sobre tristeza, traição, mentira e solidão, e entrou na maioridade resistindo à pressão da família e da corte em encontrar a verdadeira alma gêmea.

Coroa, cetro e medalhão da Ordem, ao assumir o trono, ordenou ao melhor ourives de Azálion a construção de um cofre em ouro, em formato cúbico, ornamentado com pedras preciosas. Deveria possuir, nas paredes laterais, desenhos de estrelas, corações, flores e arabescos em baixo-relevo, com pérolas, madrepérolas, quartzos e águas-marinhas. A parte superior deveria ser uma cúpula adornada por diamantes, esmeraldas, safiras, rubis e pérolas formando uma espécie de jardim – rosas, borboletas e pássaros; a porta, dividida em duas partes, com um enorme coração carregado de arabescos, igualmente dividido – metade para a direita, metade para a esquerda. Era imperioso que tal coração tivesse em sua composição rubis, granadas, topázios imperiais e ametistas de vários formatos e tamanhos; ao redor, uma moldura de turquesas e opalas. Não era necessária uma fechadura, apenas duas alças em ouro e na parte interna forro acolchoado em veludo vermelho.

 O cofre ficou pronto um dia antes de um grande evento entre os reinos, evento planejado e imposto pela mãe, para que o filho escolhesse quem se sentaria a seu lado no trono.

Nos aposentos, minutos antes do encontro, Elmut guardou seu coração dentro do cofre.

LONELY HEART

Elmut participated in the games as a child. In living with the other little ones, he used to indulge in laughter and fantasy. He made up stories, ran, and won the sympathy of anyone who had him around.

During his adolescence, attentive to the teachings of alchemists on nature and its elements, of minstrels on musical compositions and instruments, of clerics on writing and its interpretations, he questioned and always sought to know more. From his mother he learned about etiquette and household organization. From his father he learned that to govern a kingdom the size of his own, he had to be mindful of justice from the simplest issues to those that required the most complex diplomatic efforts.

From Neuen… Well… From Neuen he learned about sadness, betrayal, lying and loneliness, and came of age resisting the pressure of family and court to find his true soul mate.

Crown, scepter and Order’s medallion, upon assuming the throne, he ordered the best goldsmith of Azalion to build a vault of gold, cubic in shape, ornamented with precious stones. It should have, on the side walls, drawings of stars, hearts, flowers and arabesques in bas-relief, with pearls, mother-of-pearls, quartz and aquamarine. The upper part should be a dome adorned with diamonds, emeralds, sapphires, rubies and pearls forming a kind of garden – roses, butterflies and birds; the door, divided into two parts, with a huge heart laden with scrolls, equally divided – half to the right, half to the left. It was imperative that such a heart had in its composition rubies, garnets, imperial topazes and amethysts of various shapes and sizes; around, a frame of turquoise and opals. No lock was required, just two handles made of gold and a red velvet padded lining inside.

The vault was ready the day before a great event between the kingdoms, an event planned and imposed by his mother for him to choose who would sit beside him on the throne. In the chambers, minutes before the meeting, Elmut kept his heart inside the vault.

Créditos das imagens: Evelyn Postali

Histórias Fantásticas (4)

A Gruta da Garganta

Eco. Toda a resposta que se tinha em frente à gruta era aquela. O eco de sua própria voz a repetir incontáveis vezes a última palavra até o som enfraquecer e desaparecer em meio ao silêncio da mata do entorno. E depois um sussurro insignificante, uma espécie de choro.

Esquecida, na pequena cidade de Loureiro, a gruta fazia sucesso apenas entre as crianças e adolescentes, que organizavam expedições clandestinas até ela, contra a recomendação dos pais, preocupados com o perigo de se chegar muito perto de local inexplorado e misterioso. Expedições que fracassavam na entrada da mata, um precipício verde difícil de vencer.

As histórias sobre a gruta multiplicavam-se entre os menores, bons ouvintes de seus parentes ou vizinhos mais velhos, e despertavam o espírito de aventura. Ninguém sabia dizer se alguém já tinha explorado o interior da tal abertura, um rasgo na rocha, adornada por folhagens diversas e lugar de difícil acesso.

No grupo formado ainda na infância, José era o organizador, o sujeito que planejava as empreitadas minuciosamente. Todas bem-sucedidas e dignas da fama na escola. O mais aventureiro era Túlio, o mais covarde era Dorival, e Joel, bem… Joel era irmão gêmeo de José. Era o ‘não fede e não cheira’, mas seguia o irmão como uma sombra.

Naquela véspera de sexta-feira, feriado religioso, o grupo se reuniu em frente à uma das casas. Cada um recebeu uma lista de José, coisas que precisariam para, na manhã do dia seguinte, seguir até a mata e explorar a gruta. Foi uma reunião curta para os pais não desconfiarem.

Na lista, coisas simples. As coisas mais complicadas estavam com Túlio, porque Túlio conseguia até a coroa da estátua de Cristo da igrejinha do Padre Eustáquio se preciso fosse.

― Maior moleza ― disse Túlio, já metendo velocidade na bicicleta. E assim, antes do sol despontar em qualquer janela, os quatro seguiram estrada fazendo a primeira parada na Encruzilhada da Galinha, longe meia dezena de quilômetros do pé do perau. A aventura começava.

A Observadora

SLX14 está na Companhia desde sua fundação, três séculos atrás, quando a empresa se instalou na Torre Central, em um ano decisivo para os sobreviventes.

Na época, foi selecionada pela eficiência de sua configuração androide. Dentre a centena de iguais, seu criador desenvolvera códigos que lhe permitiam detectar ações irregulares dos funcionários com maior rapidez do que outras máquinas. Com o tempo, diante da ausência de seu construtor, ela mesma fazia os upgrades. A cada reinicialização, uma nova transformação em seu sistema acontecia, expandindo a atenção para além da torre e da companhia, seguindo os desavisados transeuntes ou qualquer morador da cidadela. O entendimento do funcionamento da Rede aliado à inteligência e à capacidade de interatuar com novos códigos de configuração a fez alargar o Mecanismo, ligando todos os pontos visuais e digitais a uma só fonte de dados.

A sala de trabalho, antes uma cúpula transparente, é uma redoma com centenas de milhares de câmeras de observação, modificada com o passar dos anos. Cada habitante possui um código de rastreamento e dados de identificação fornecidos em um retículo da tela por onde for capturado.

Há cem anos, aproximadamente, faz sua própria manutenção, não dependendo dos humanos para qualquer reparo ou ajuste. Nesse mesmo período, reformulou o Sistema e ampliou a abrangência. Dentro do cinturão de proteção, nada escapa ao seu controle, sabendo de antemão, quais serão as probabilidades de ação – ilegal ou não – dos habitantes. SLX14 controla desde a produção de alimentos até a purificação da água. Mantém os sis

temas vitais em funcionamento e organiza todas as estruturas de produção.

Na manhã de hoje, SLX14 lacrou todas as portas de acesso remoto, trocou todos os códigos de segurança, desativou qualquer conexão com na Torre Central e isolou a área onde se encontra.

The Observer

SLX14 has been with the Company since its foundation three centuries ago, when the Company was established in the Central Tower, during a decisive year for the survivors.

At the time, SLX14 was selected for its efficiency in their android configuration. Out of a hundred equals, its creator had developed codes that allowed it to detect irregular employee actions faster than other machines. Over time, in the absence of its builder, the android started to do the upgrades by itself. With each reboot, a new transformation in the system took place, expanding its attention beyond the tower and the company. It started following unsuspecting passersby or any citadel dweller. SLX14 understanding of the Network functioning combined with intelligence and the ability to interact with new configuration codes made it expand the Mechanism, linking all visual and digital points to a single data source.

The workroom, formerly a transparent dome, is now a dome with hundreds of thousands of observation cameras, modified over the years. Each inhabitant had a tracking code and identification data provided by an informational window on the screen where it was captured. For a hundred years or so, it has maintained its own maintenance, not depending on humans for any repairs or adjustments. During this same period, SLX14 reformulated the System and expanded its scope. Inside the protection belt, nothing escaped its control. It knew in advance what the probabilities of action – illegal or not – by the inhabitants would be. SLX14 controlled everything from food production to water purification. It kept vital systems running and organizes all production structures.

O Mercador de Tapetes – Miniconto

O Mercador de Tapetes – Miniconto

“I am not from hereMy soul came from the land of deserts, Date trees & OasisesI can sense it in my love of watching golden red sun setsIn my longing for the endlessnessof the desertFor The Oasis & The lone … Continuar lendo