Asas – Miniconto

― Empreste-me suas asas para que eu conheça as alturas e percorra, mais veloz, as distâncias, passando por cima do arvoredo e das casas.

O Gato fez a proposta em uma manhã preguiçosa de verão, debaixo da laranjeira, entre as pedras e flores da dona Nô. Todos os dias observava os pássaros das redondezas. Ambicionava as asas, coisa em falta desde nascença. Questionava-se sobre a injustiça de alguns terem recebido instrumento tão precioso e não terem pretensão maior além de apenas voar de um lado para outro, em vida tão simples, tão comum.

A avezinha inclinou a cabeça em gesto delicado, atenta ao falar manso daquele bichinho peludo, de olhar encantador.

― Então ― recebendo o silêncio como um ‘não’ ―, ensine-me a voar, Passarinho. Sou aluno aplicado; aprendo fácil.

 

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― Se quer mesmo aprender a voar deve saber que o segredo do voo não está nas asas.

― Se não está nas asas, onde está?

― Está dentro de você ― respondeu o Passarinho.

― Que tipo de professor de voo é você, afinal? ― e deu um salto. Agarrou-se na madeira da grade, afugentando a ave.

De cima da cerca, ficou a observar o voo e a desejar as asas.

Créditos das Imagens: Evelyn Postali

Das reflexões…

“Tudo que se passa no onde vivemos é em nós que se passa. Tudo que cessa no que vemos é em nós que cessa.”

Fernando Pessoa

Penso em mim, enquanto ser humano, enquanto mulher que escreve e desenha, como uma casa entulhada de coisas e silêncios, rostos, objetos, nomes, lugares, vazios enormes, luzes e escuridão, um amontoado de eventos, marcados nas paredes que se entrepõe entre um tempo e outro, entre o passado e o presente, formando um labirinto tantas vezes indecifrável, mutável, atravessado de ideias.

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Na Coluna Asas #56, no blog da Editora Caligo, você lê meu artigo na íntegra. Vai, lá! Clica AQUI.

Entre o sim e o não, o perigoso caminho do ego

COLUNA ASAS - FEVEREIRO 2021 ENTRE O SIM E O NÃO, O PERIGOSO CAMINHO DO EGO

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É natural e aceitável um autor escrever de forma a apresentar o lugar onde vive, deixar à mostra as expressões idiomáticas, retratando traços culturais de um grupo humano ou lugar. Isso, no meu entendimento, valoriza e enriquece a escrita. Eu, como leitora, gosto de conhecer os traços peculiares das falas de lugares onde nunca estive. E é inadmissível que, em um país enorme territorialmente, se valorize apenas narrativas de determinado lugar, ou se exclua do texto expressões próprias do lugar do autor. Avaliações valorativas ou depreciativas tendem a acontecer na crítica literária – sem querer levantar a treta e já levantando.

(…)”

Na Coluna Asas #33, no blog da Editora Caligo, você lê meu artigo na íntegra. Vai, lá! Clica AQUI.

Em um Brasil fantástico, pouca fantasia se escreve?

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Por que em um país recheado de mitos e lendas a literatura não dialoga com eles? Por que há um preconceito resistente para com o nosso folclore, para com os nossos seres fantásticos? Por que escritores buscam em terras nórdicas, americanas, europeias, asiáticas, os roteiros para sagas e longas narrativas de ação?

Na Coluna Asas #20, no blog da Editora Caligo, você lê meu artigo na íntegra. Vai, lá! Clica AQUI.

Desabafo

A irresponsabilidade, assim como a maldade humana, não tem limites. E a Lei nunca é para todos. Nesse país, perto ou longe de nosso umbigo, a Justiça é, literalmente, cega, feita só para alguns, quando não é, ela mesma, cúmplice do desrespeito e da criminalidade. Na balança há, sim, dois pesos e duas medidas. Estamos anestesiados, mergulhados em uma letargia venenosa, porque aceitamos, muitas vezes, absurdos como se fossem algo normal, coisa banal, contravenções inconsequentes. Fechamos os olhos, calamos nossa voz e cruzamos nossos braços. Merecemos cada insulto à nossa inteligência e ao que ainda há de humanidade em nós.

Lugar de fala, dar protagonismo, roubar protagonismo

Lugar de fala, dar protagonismo, roubar protagonismo

“Meu trabalho de escrita é sempre difícil e solitário, mas nessa luta por dar protagonismo – luta justa e necessária – sinto que não estou só. E é preciso seguir. E é preciso mais.” Leia o texto completo no Blog … Continuar lendo

Exercício de Escrita

Na cozinha, seu santuário, as cinco bananas descansavam na fruteira.
Na vida, o descanso era descascá-las, empurrar goela a baixo e aceitar.
Naquele dia, depois de enterrar o marido, misturou a canela com o açúcar e ponderou:
Se não houvesse ido à feira teria salvado João?
Não.
O sal era o mesmo das lágrimas e agora não servia para nada.
Jogou para a panela a mistura do açúcar e canela.
Picou as bananas e esperou a calda ficar no ponto.
A vida era assim mesmo.
João compreenderia.

O Beijo ~ Gustav Klimt

O Beijo ~ Gustav Klimt

Sensual, simbólica e mágica. Liberdade e ousadia. Uma alegoria ao amor. O Beijo (Der Kuss) – tela do pintor austríaco Gustav Klimt. Óleo sobre tela, medindo 180×180 centímetros. É uma das obras mais conhecidas do pintor e pertence a um … Continuar lendo

Jazz

Jazz

A primeira vez que o vi foi perto do beco onde ele supostamente morava. Não no bairro mais perigoso da cidade, segundo as estatísticas, mas beirando esse índice. Meus amigos me advertiram sobre circular por lá, mas a bem da … Continuar lendo

Os anões, o alemão e o azulejo de Athos Bulcão

Os anões, o alemão e o azulejo de Athos Bulcão

— Eu já disse: prrecisa me soltarrr, investigadorrrr Almirrr. Eu sentia uma puta vontade de tocar uns petelecos na raiz do ouvido do alemão. O meliante não parara um só minuto de se remexer na cadeira. A cada segundo olhava … Continuar lendo

Além da vida, o amor

É sempre bom pensar no que alenta o coração.
O peso da vida é o que carregamos dentro dele.

Beyond life, the love.

It is always good to think about what cherishes the heart.
The weight of life is what we carry within it.

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Autoria da imagem desconhecida.
Exercício de Escrita

Exercício de Escrita

EXERCÍCIO: escrever nos comentários uma micro narrativa com base na imagem, ou no som, ou nas palavras, ou em todos, a seu critério. Som: https://www.youtube.com/watch?v=6IiuH6xpao4 Palavras: insípido, memória, lutar. Proposta de Amanda Gomez. Resultado: PALAVRAS: Lutou contra aquele vazio de eventos … Continuar lendo

Exercício de Escrita

Exercício de Escrita

EXERCÍCIO: escrever uma micro narrativa com base na imagem, ou no som, ou nas palavras, ou em todos, a seu critério. Som: Ruins In Focus https://cryochamber.bandcamp.com/track/ruins-in-focus Palavras: cegueira, conter, lúgubre. Resultado: Palavras: A cegueira acontecia em momentos aleatórios. Marcos não sabia … Continuar lendo

Texto

Texto

O amor caminha com passos leves sobre o coração do mundo… As coisas tangíveis não são mais significativas que as que carregamos como intensos flashes de momentos perdidos em um Tempo a nos carrega também. Todo o amor debruçado sobre nossas almas nos impõe … Continuar lendo